Não somos tão racistas assim

O título acima poderia ser reescrito como: somos, mas não tanto, comparativamente. Digo isto por conta das evidências usadas neste artigo interessante sobre os impactos do racismo sobre o desenvolvimento econômico. Na amostra utilizada – 94 países – o Brasil aparece na 85a colocação.

O artigo é basicamente empírico – o argumento teórico é apenas verbal – e testado econometricamente e envolve história econômica, instituições (logo, colonização). Vale a leitura do texto e, sim, eis a figura que todo mundo gosta de ver.

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Não é que existem trabalhos interessantes divulgados em bons artigos de jornais?

Pois é. Eu não acho que o racismo seja algo simples assim – e acho que há muita manipulação do conceito para fins bem…racistas – mas estou e sempre estive aberto a analisar evidências empíricas cientificamente sérias.

Veja, por exemplo, este belo artigo, que resume um bocado de estudos aparentemente interessantes.

Grandes momentos da sociologia brasileira: ainda Oliveira Vianna

É engraçadíssimo ler o que alguns acharam ser ciência, muitos anos depois. Por exemplo:

Nos serviços domésticos, as negras ‘minas’, dóceis, afetuosas e possuindo uma inata habilidade culinária, são preferidas como mucamas e cozinheiras. Elas e as de raça fula, porques ão mais belas, elevam-se mesmo, às vêzes, à condição de ‘donas de casa’ ou ‘caseiras (…).
Os mulatos, em regra, mais inteligentes do que os negros puros, mais vivazes e destros, mais ladinos, aplicam-nos os senhores em ofícios mais finos, como sapateiros, sirgueiros, marceneiros e alfaiates, em que se revelam habilíssimos. [Evolução do Povo Brasileiro, José Olympio, 4a edição, 1956, p.150]

Oliveira Vianna é um dos autores mais pitorescos – na minha opinião – da antiga sociologia brasileira. Tem cada trecho engraçado…e, como já falei antes, muita gente achava que “raça” era um conceito científico sério.

O trecho acima não tem erros de lógica, não é? Mas é uma visão científica bem fundamentada? Obviamente que não. Por isso é que retórica não pode ser apreciada apenas em si. Há quem não entenda o que McCloskey escreveu e viva por aí dizendo que o negócio, em Economia, é falar bonito. Nada mais longe da realidade. O ponto é falar de forma elegante, mas sem exageros. Falar para ser entendido.

Agora, de nada adianta falar se você não mostrar evidências científicas sérias. Ou você acha que basta falar que o negrinho do pastoreio é bom jogador de futebol porque você leu isto em um romance qualquer para que isto seja considerado uma séria afirmação científica? Não dá, né?

Mentir com estatísticas

Este exemplo do Reinaldo Azevedo me parece uma boa oportunidade para reflexão. Por que o número de negros brasileiros salta nas estatísticas? Há diversas causas e ele levanta boas hipóteses. Eu me pergunto se não ocorre de algum órgão multinacional ter programas ($$) de ajuda para países com as mesmas características que o governo alega como sendo as nossas. Ou se são apenas os óbvios interesses políticos da administração da Silva. 

Uma coisa, vamos lá, é política de inclusão. Outra, é mudar todos os critérios para aplicar qualquer política que, em discurso, é de inclusão (e talvez até o seja na prática). O custo-benefício disto, para a sociedade, não é necessariamente o que os vendedores da política apregoam. E aí está o problema.