Excelente dica

Meu grande amigo Hamdan me envia esta sensacional dica.



O Mito do Eleitor Racional

A apresentação de ontem está aqui. De quebra, ainda vi o Cruzeiro ganhar o hexa com o professor Cristiano Oliveira.

Agradeço aos alunos pela lembrança “diet” e pela oportunidade de torturá-los com minhas piadas infames.

Capital Social inesperado

O céu bonito e a estrada vazia. Lá vinha eu dirigindo e pensando em milhares de assuntos dos quais não me lembro agora.

Ao chegar no pedágio, ainda ouvindo o maior 演歌 anos 60 (diminuo o som, obviamente) e entrego, sem perceber, uma nota de R$ 2,00 a mais para a funcionária que, prontamente, devolve-me com a sábia observação: “- A gente não faz com os outros o que não quer que façam com a gente”.

Sorri para ela, rapidamente me lembrei do tempo em que respeitávamos os bons conselhos dos mais velhos e segui viagem um pouco melhor.

É o Capital Social de que fala o Leo Monasterio.

As origens nada nobres de certas políticas públicas (como o salário mínimo)

In 1910, for another example, many economists and other scientists believed that the category ‘‘Aryan race’’ was helpful and wise in thinking about the economy and the society. It was, we later decided, a misleading and stupid and even evil category, though at the time most scientists, such as the great English statistician Karl Pearson, thought it was not. Around 1910 the American Progressives, especially the leading economists among them, believed passionately in racism, and advocated policies such as immigration restrictions and the minimum wages to achieve eugenic results favorable to the Aryan race (Leonard 2016). In 1925 Pearson published with Margaret Moul an article in the inaugural number of the Annals of Eugenics recommending that Ashkenazi Jews be forbidden to immigrate to Britain because they had low IQs and dirty clothing.

Bonito, heim?

Sobre Robert Fogel (by McCloskey)

O artigo do qual cito os trechos a seguir é este. Vamos lá?

Quando te acusam de racismo porque não entendem o seu trabalho:

Bob had hired me in 1968 at Chicago and advocated successfully for my tenure there in 1975, so I have a lot to thank him for. Before he decamped temporarily to Unfair Harvard (his Department of History came to despise him, quite absurdly, for the ‘‘racism’’ and for the imagined scholarly defects in Time on the Cross), he would attend the Chicago economic history workshop, which he founded when he came to Chicago from Rochester, and which during the 1970s I as the junior person was assigned to organize. His comments were always tenacious, but genial. With Ted Schultz and Margaret Reid, and a brilliant lineup of his students and mine and Arcadius Kahan’s, it was an amazing intellectual experience. It taught me what productive scientific debate is.

O espírito de um estudante que, realmente é estudante, não aluno.

I took to describing Bob as ‘‘the sweetest, most amiable monomaniac I have ever known.’’ Work, work, work. When the man from the Swedish academy called him in the wee hours of 1993, Bob was not sleeping. He was wide awake, working, working, working. He had been a Ph.D. student of Simon Kuznets at Johns Hopkins, and told me once that he worked because he imagined that at any moment Simon would turn up and ask, with his Russian accent, ‘‘Vell, Robert. And vat are you vorking on?’’ I am familiar with such an imagined goad, in a Russian accent.

Ficamos com: Vell, Robert. And vat are you vorking on?


Dia do professor: relembrando dois gigantes da Economia

Eu sei, é dia do professor e você não recebeu nem um “bom dia” do porteiro da faculdade. Pior ainda, agora eu venho falar de professores…de Economia. Ainda dá tempo de fugir. Caso contrário, apresento-lhe dois falecidos professores de Economia (um que conheci e cujas aulas assisti, como ouvinte) que sempre me servem de inspiração. Não são os únicos, mas estes especiais em um aspecto.

Bom, primeiro, conheça Gordon Tullock.

Gordon Tullock had a unique teaching style. He wasn’t well organized and class notes from his courses were not exemplary, but he was endlessly curious and he thoroughly enjoyed interesting thoughts, regardless of where he found them. He was very loyal to students who reached his merit level, but went out of his way to pretend he was not loyal. If one went to the student union in the evening, one would be likely to find him sitting at a table holding court and taking on all challenges to his ideas if he found a student to be interesting enough to argue with. I was privileged to have been a part of a number of these “after hours” encounters, and learned a great deal about thinking effectively from those encounters. [Ireland, T. R. (2016). Gordon Tullock as a teacher and mentor. Journal of Bioeconomics, 18(2), 107–111. doi:10.1007/s10818-016-9220-0]

Agora, Jack Hirshleifer.

Jack was a superb colleague. He came to his office regularly and kept its door open, inviting colleagues and students to come chat about their problems and tap his broad ranging knowledge of economics, biology, and history. Manuscripts given him to read were read without much delay and critiqued thoughtfully. He had great skill in participating in a discussion, perhaps instigated by him, in so friendly a way that the critical points he raised never antagonized those whose statements and logic they refuted. What is undeniably true is that Jack enjoyed – loved is not too strong a word – the life of an academic intellectual. He had little interest in committee work or in administrative tasks, and in this one respect he may have disappointed some of his colleagues. His comparative advantage clearly called for him to theorize, and his time was given to this task. He did not engage in job search nor seek positions in the administrative hierarchy. He polished only the knob on his own office door. [Demsetz, H. (2005). Professor Jack Hirshleifer (1925–2005): A Life Remembered. Journal of Bioeconomics, 7(3), 209–214. doi:10.1007/s10818-005-4634-0]


Como se percebe, ambos dividem várias características típicas de pesquisadores/professores, mas destaco uma que é a curiosidade intelectual.

Hirshleifer era realmente notável e, como diz Demsetz, apenas sua porta estava sempre aberta (e foi assim que conversei com ele pela primeira vez, em 2002).

Tullock, por sua vez, era famoso por seus interesses diversificados, sendo nisso bem parecido com Hirshleifer (e humor para lá de sarcástico).

Sei que vou morrer sem alcançar o nível de Tullock ou Hirshleifer. Ainda assim, eu persisto (para a sorte ou azar dos alunos). Com o passar dos anos, confesso, não sei mais que racionalidade existe em insistir nesta profissão do ensinar. Acho que há um elemento de rigidez junto ao meu cálculo racional. Deve ter a ver com Botchan, sobre o qual comentei animadamente certa vez. Como eu disse naquela ocasião, a frase de abertura do livro ainda é uma das minhas favoritas: 「親譲りの無鉄砲で子供の時から損ばかりしている。」Em inglês: Ever since I was a child, my inherent recklessness has brought me nothing but trouble.

Acho que o professor deve ser teimoso em sua curiosidade. Inarredavelmente teimoso em sua curiosidade.

Caso você comemore o dia dos professores, este é meu modo de saudá-lo.


Sim, você é o culpado, não jogue a culpa na sociedade (ou em “ideias”)

Aquele filme, “A Onda”, é muito bacana, e nos faz pensar em uma certa crueldade humana uma certa incapacidade do indivíduo de agir por si só. Não seria totalmente responsável por suas crueldades, digamos assim. Alega-se, por exemplo, que haveria fundamentação para isso no famoso Stanford Prison Experiment .

Mas o buraco é mais embaixo. Embora famoso, este experimento tem vários problemas. Por exemplo, os de replicação (como vemos aqui). Aliás, a Psicologia não é a única área sujeita a este tipo de problema, mas isso fica para outro dia…

Há também o problema da fraude que, supondo que não tenha sido cometida propositalmente, pode ter a ver com o fato de que alguns psicólogos – da época – não terem compreendido que o suposto experimento é um jogo no qual cobaias e experimentadores têm ações praticamente endógenas.

Por exemplo, o psicólogo Zimbardo – a estrela deste experimento – não parece se convencer (ao menos publicamente) que algumas de suas cobaias não estivessem atuando:

In Quiet Rage, Zimbardo introduced dramatic audio footage of Korpi’s “breakdown” by saying “he began to play the role of the crazy person but soon the role became too real as he went into an uncontrollable rage.” A taped segment in which Korpi admitted playacting and described how tiring it was to keep it up for so many hours was edited out. Korpi told me that Zimbardo hounded him for further media appearances long after Korpi asked him to stop, pressuring him with occasional offers of professional help.

Sem falar no desejo de publicar os resultados do suposto experimento na grande mídia – que nunca é a mais qualificada para escrutinizar resultados científicos, pois sua vantagem comparativa é divulgar notícias, falsas ou não.

Deviating from scientific protocol, Zimbardo and his students had published their first article about the experiment not in an academic journal of psychology but in The New York Times Magazine, sidestepping the usual peer review. Famed psychologist Erich Fromm, unaware that guards had been explicitly instructed to be “tough,” nonetheless opined that in light of the obvious pressures to abuse, what was most surprising about the experiment was how few guards did. “The authors believe it proves that the situation alone can within a few days transform normal people into abject, submissive individuals or into ruthless sadists,” Fromm wrote. “It seems to me that the experiment proves, if anything, rather the contrary.” Some scholars have argued that it wasn’t an experiment at all. Leon Festinger, the psychologist who pioneered the concept of cognitive dissonance, dismissed it as a “happening.”

Por que o sucesso? Porque queremos dispersar os custos de nossas ações e concentrar os benefícios, como dizemos em Economia.

The appeal of the Stanford prison experiment seems to go deeper than its scientific validity, perhaps because it tells us a story about ourselves that we desperately want to believe: that we, as individuals, cannot really be held accountable for the sometimes reprehensible things we do. As troubling as it might seem to accept Zimbardo’s fallen vision of human nature, it is also profoundly liberating.

Aceitar a teoria implícita de que podemos ser levados pela onda, claro, é reconfortante porque nos faz pensar que é algo intrínseco à nossa natureza e, portanto, não seríamos tão culpados assim. Por mais que esta narrativa seja atraente, como expõe didaticamente o autor do trecho acima, o fato é o experimento carece seriamente de fundamentação científica, para dizer o mínimo.

Para mim, incentivos importam e a ação do indivíduo é fundamental. Podemos até discutir certas variáveis que influenciam nas ações dos indivíduos (motivações intrínsecas) além das tradicionais que economistas debatem (motivações extrínsecas). No final do dia, o fato é que, até o momento, a responsabilidade por suas ações parece ser sua e não das vozes em sua cabeça ou dos documentos escritos por seus superiores ordenando que você fizesse barbaridades, né, Adolf Eichmann?

p.s. Agradeço ao Philipe pelas dicas dos textos. Há tempos eu procurava links sobre o tema…

Tavares Bastos, o ceticismo, a liberdade

As opiniões que professo são exclusivaemente minhas. O código das minhas idéias promulgou-o um legislador: a observação. Alimento-as isento de preocupações históricas; professo-as sem prevenções políticas. Vosso amigo não é um liberal, não é um puritano, não é nada disso, e é tudo isso. É um homem sem afinidades no passado e isolado no presente. É o solitário.
Quaisquer que sejam as tendências de meu espírito desconfiado das verdades absolutas, eu confesso-vos, contudo, que amo apaixonadamente a liberdade. [A.C. Tavares Bastos. “Cartas do Solitário”, Companhia Editora Nacional, 1975, p.101-2]

Você também a encontra na Brasiliana eletrônica.

Tavares Bastos ilustra aquele momento em que as crenças centrais (core beliefs) parecem estar mudando na sociedade. Sim, refiro-me aos conceitos desenvolvidos aqui.

A probabilidade de seu voto mudar algo

Conforme Owen & Grofman (1984), qual a probabilidade de seu voto fazer a diferença? Suponha que a probabilidade do eleitor votar no 2o turno seja de 0.5 para cada candidato. Segundo o TSE, o número de eleitores no país é de: 147306275.

Aplicando a fórmula derivada pelos autores para uma eleição sem abstenções, a probabilidade de seu voto mudar o resultado do 2o turno é de:  0.000065 (ou 0.0065%).

Votar tem um benefício baixo e um custo alto, o que não quer dizer que você não possa querer ir lá na urna expressar seu voto (eu mesmo viajei para votar no 1o turno).

Mas note que é na propaganda que o governo e os políticos buscam influenciar o eleitor, tentando lhes dizer que o benefício é alto (ou que não importa o custo-benefício, mas seu “amor pela democracia”, seja lá o que isso signifique).

Por que querem que eu coma sem talheres e me sirva sem garçons em alguns novos bares de Pelotas?

P_20170324_091827_vHDR_Auto“Parece que uma onda de seguidores de algum marqueteiro invadiu a cidade”, você poderia dizer. Até pensei nesta hipótese de início e até não a descarto totalmente, mas espero convencer o leitor de que talvez haja uma explicação melhor.

Bem, como o título já deixou claro, a moda agora é a dos restaurantes que insistem em um sistema self-service ou que obrigam os clientes a comer apenas com as mãos (e não falo de sushis, que algumas pessoas erroneamente comem com hashis).

A primeira vez que me deparei com o fenômeno foi numa hamburgueria que, nos bons tempos, tinha uma televisão e talheres. Da última vez em que estive lá, a atendente foi taxativa: não havia mais garfos ou facas.  Mais recentemente, outra nova hamburgueria seguiu-lhe a tendência e, finalmente, há uma nova pizzaria similar (embora esta lhe forneça (ainda) talheres de plástico). Quanto ao estilo self-service, o fenômeno tem surgido com alguns bares especializados em cervejas especiais (artesanais ou não).

Qual a explicação para o surgimento desta modalidade de atendimento?

Bem, eu não acho que seja um fenômeno exclusivamente local e, portanto, não me parece fazer parte de alguma “cultura” inexplicavelmente atribuída a uma zona geográfica com fronteiras arbitrariamente traçadas que contaminaria todos o que ali vivem de forma tão misteriosa como em um filme de zumbis.

Além disso, não acredito numa invasão cultural na cidade em que os hábitos de alguns povos tenham sido transplantados por alguns espiões interessados em aculturar brasileiros ou que haja uma implantação do self-service para que “imperialistas” disseminem o hábito pelo país causando um genocídio de trabalhadores para lucrarem de forma macabra, como dizem alguns (provavelmente sob o uso intensivo e repetitivo de drogas pesadas).

A explicação causal parece-me mais prosaica e ligada à conjuntura econômica nacional sem ignorar, claro, características locais (governo mais ou menos pró-setor privado, demanda de serviços por parte de universitários, criminalidade, fatores climáticos, etc), que filtram a manifestação do fenômeno em escala local.

Tudo começa, creio eu, com a baixa qualidade generalizada do capital humano do setor de serviços que se traduz em baixa produtividade dos mesmos. Em português: nossos garçons, funcionários de padaria ou de livrarias atendem mal, mesmo quando são educados (no sentido de serem gentis e/ou no sentido de poderem até ter diploma universitário). São ineficientes mesmo!

Como é possível empregar pessoas assim? Simples. A economia não nasceu ontem e o crescimento econômico que tivemos há alguns anos possibilitou a entrada de pessoas pouco qualificadas no mercado o que, vale ressaltar, mascarava a necessidade (já anunciada há décadas por especialistas) de se flexibilizar o mercado de trabalho, o que se mostrou um alívio para todos que passam por dificuldades neste momento de estagnação.

Aliás, a estagnação tem outra consequência: ela diminui as chances de lucro, desestimulando a alocação de horas das pessoas para atividades empreendedoras. Traduzindo, isso significa, dentre outras coisas, que há menos concorrência potencial do lado das firmas o que é uma péssima notícia para quem quer ver a melhoria no atendimento ao consumidor por pressões concorrenciais.

Para quem acha que estou exagerando, não faltam exemplos de mão-de-obra pouco qualificada em Pelotas. Por exemplo, há uma padaria em que, apesar da gentileza das funcionárias, o pão é retirado pela funcionária com um garfo de duas pontas (destruindo, principalmente os pães doces e os de cachorro quente). Resultado: pães destroçados ainda na loja…pelas vendedoras (e o preço cobrado é o mesmo do pãozinho sortudo que chegou inteiro ao pacote.

Outro exemplo é o de um restaurante de sushi em que o balcão para os clientes, em formato de “L” não tem bancos de um lado e, no que os tem, não há visão do trabalho do sushiman por parte do cliente pois sua altura é tal que o transforma em uma muralha… Em resumo: é exatamente o oposto de um bom restaurante de sushi!

Sei que são apenas dois exemplos, mas acredite em mim, há muito mais. O fenômeno da ineficiência é generalizado tanto entre empreendedores quanto entre seus funcionários. Ou seja, a oferta de serviços local não deixa muito a dever para o restante do país: é contaminada pela ineficiência (há vários estudos mostrano que o fenômeno é nacional, um deles é este).

Do lado da demanda por serviços, por sua vez, temos uma cidade que tem muitos idosos – que não saem por aí todos os dias para restaurantes ou academias (embora demandem outros tipos de serviços com mais frequência, como os fornecidos pelo setor de saúde) e muitos jovens. A cidade quase não tem mais indústrias, mas tem um entorno agropecuário (que, obviamente, demanda serviços) e, ironicamente, várias universidades, o que nos diz que há uma demanda grande de serviços.

Eu disse “grande demanda”, mas não necessariamente rica. Afinal, a demanda de jovens tem duas características básicas: muito desejo de experimentação (novidades estão para jovens assim como açúcar está para formigas) e pouca bufunfa. Logo, serviços muito sofisticados não sobrevivem por muito tempo ou são limitados a uma fatia de mercado que tem acesso aos mesmos (ela sempre existe, mas é pequena nesta cidade, como se percebe em qualquer passeio rápido que faça por aqui).

Diga-se de passagem, jovens com pouca grana também são potenciais caloteiros e o self-service que faz com que o sujeito pague na cervejaria antes de encher seu copo com alguma saborosa novidade artesanal, é uma forma inteligente de minimizar o calote (e é por este exato motivo que você não verá self-service em restaurantes de luxo nesta ou em qualquer outra cidade…).

Juntando as peças: (a) atendentes ineficientes e caros, (b) empreendedores sujeitos a pouca competição, (c) uma demanda caracterizada por baixo poder aquisitivo, mas com muita vontade de ver novidades. Eis os ingredientes que você precisa para lançar um empreendimento de baixo custo vendendo isso como novidade (a moda é usar as mãos, a moda é o self-service, nos EUA é assim, etc).

Mas, como no final da piada do famoso quadro do gordo glutão em O Sentido da Vida, só há um detalhe: nenhum destes empreendedores pensou em colocar uns potes de álcool-gel nas mesas de seus estabelecimentos…

p.s. 1. O último parágrafo nos leva a pensar sobre a criminalidade (roubam até o álcool-gel) e sobre a possível disseminação de novas doenças, não?

p.s.2. Talvez minha explicação não seja completa, eu sei. Contudo, parece-me melhor do que explicações rasteiras que existem por aí que falam de uma suposta – e imutável desde Jesus Cristo – cultura local. Vá lá que exista path dependence, mas é preciso tratar melhor o conceito de cultura…

A Economia do Crime: A Delação Ótima e a Conjuração/Inconfidência Mineira

Joaquim Silvério dos Reis traiu os inconfidentes, todo mundo já sabe. Mas nem todos sabem que ele falsificou a data de sua carta de delação. Por que?

A resposta estava em seu espírito de ‘melhor calculador’. Antes de o coronel finalizar o documento, é provável que o governador tenha lhe contado que outro delator, o fazendeiro português Basílio de Brito Malheiro do Lago, formalizara uma denúncia por escrito no dia 15 de abril, acrescentando detalhes do movimento até então desconhecidos, em especial sobre a ação de Tiradentes. [Figueiredo, L. Tiradentes – Uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier, Companhia das Letras, 2018, p.266]

Mas era só uma vaidade? Não. Cálculo de benefício esperado mesmo.

Afinal o governador havia suspendido a derrama, mas mantivera a cobrança das dívidas dos contratos. O coronel, portanto, continuava dependendo dos favores de Barbacena. Futuramente, se fosse concedido algum prêmio à pessoa responsável por impedir que se concretizasse a segunda revolução republicana das Américas, Silvério dos Reis estaria apto a requerer para si o benefício. [Figueiredo, L. Tiradentes – Uma biografia de Joaquim José da Silva Xavier, Companhia das Letras, 2018, p.266]

Parece que a Teoria dos Jogos funciona muito bem aqui, não?

Atualização de “links” quebrados (e algumas novidades)

E-books nos quais participei e/ou editei (atualizando um post de 2007 ou 2008):

De tempos em tempos alguns ex-alunos reaparecem e me lembram de que ensinar é divertido quando a oferta e a demanda do desejo de aprender se encontram.

Aproveito para deixar aqui também algumas notas de aula que fiz (várias delas precisam de uma revisão, mas ficam aí como dicas).

Ah sim, um resumo que divulgo, ainda que seja muito preliminar, é este. Faço-o porque já passou da hora de se popularizar a nova análise histórica promovida por Lee Alston, Bernardo Mueller, Douglass North, Barry Weingast, dentre outros, em língua portuguesa.


A Curva de Laffer das homenagens

Alguém deveria fazer uma curva de Laffer para as homenagens geradas pelos políticos.

(…) há inclusive uma Escola Fernanda Sarney, em homenagem à neta de José Ribamar, que fica no município de Bom Jardim. Fernanda Sarney tinha apenas seis anos de idade quando batizou a escola. [Silva, Rodrigo da. (2018). Guia Politicamente Incorreto da Política Brasileira, Leya, p.46]

A gente colocaria o número de projetos de lei de homenagens no eixo horizontal e, no vertical, o custo de oportunidade de se criar projetos de lei. Aposto que, neste caso, descobriremos que estamos muito além do ponto ótimo.

Nem o rei, nem o(a) presidente de uma sociedade ‘rent-seeking’ emigram

É um artigo antigo – faz tempo que o li – mas a mensagem segue atual. Pense no caso da Venezuela ao ler este trecho:

People in our model would be better off in their home countries, and they would not emigrate, if they were not disadvantaged by domestic privilege. Thus, while migration in general takes place from low to high income countries, our model suggests that we should also look to certain types of economic, and political, regimes that “push” parts of their population to emigrate.

Our emphasis has been on the role of institutions. Democratic collective decision-making institutions in general make rent-seeking contests more “difficult” and assign a lower weight to privilege in personal success, than do the personalized institutions of autocracy where the ruler’s decisions are important for people’s well-being. The contestable privilege that is often inherent in autocracy is tied to emigration, and to impediments to economic development.

Uma das consequências do modelo é que em uma sociedade rent-seeking na qual a disputa pelos privilégios distribuídos pelo rei (ou pelo BNDE…) é mais dificultada, os menos produtivos emigram primeiro. Assim, empresários poderosos, que têm muito a perder, preferem ficar e se aproximar do poder enquanto o, digamos, profissional liberal mediano, emigra.

Você pode emigrar porque quer, independentemente do grau de rent-seeking, o que é outra situação. Este antigo, e ótimo, artigo trata de situações em que os incentivos são tais que você emigra porque o diferencial de renda entre países é gerado pelas distorções da intervenção política nos mercados, para tentar transformar tudo o que for possível em renda (ou seja, privilégios) para uso daquele que está no poder.

Apresentação na ABDE

Minha apresentação é, no fundo, uma demonstração de que estou estudando os novos conceitos lançados por Lee Alston, Bernardo Mueller, etc. Ou seja, nunca abandonei minhas raízes da época do mestrado. Está aqui.