Rent-seeking no Brasil, circa 1972: “ei, você aí, me dá um cargo aí”!

Eis um choque tecnológico: o email. O email pode ter acabado com a profissão daqueles que, como o professor Julio Cesar de Freitas, ganhavam a vida ensinando os outros a escreverem cartas. Aliás, este é o título do livro editado em 1972: Como Escrever Cartas, de autoria do citado sr. Freitas.

O livro é bem divertido, mas chamou a minha atenção alguns exemplos de cartas. Veja, por exemplo, esta.

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Quando alguém ensina a escrever cartas como esta é porque certamente existe uma demanda social: pessoas querem conseguir um cargo público, mesmo que não seja via concurso. O tom da carta é até educado e procura se vender uma necessidade (“família pobre”, “rapaz jovem”, etc). O apelo é inegável.

Curiosamente, esta carta (e as que se seguem em reprodução parcial) está na seção Cartas Sociais e Familiares. Encontra-se até carta de recomendação de doméstica, mas não uma carta para pedir emprego em alguma empresa privada (mas há lá um exemplo de carta para pedir empréstimo pra algum parente…).

Eis alguns outros exemplos.

20160828_135708 20160828_135812Sim, não poderia faltar a capa do livro.

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Divertido, não? Uma sociedade que se baseia no rent-seeking não poderia não ter autores ensinando a implorar/pedir cargos públicos a políticos, não é? Claro, o melhor de tudo é o tom formal – bem anos 70 – desconhecido dos mais jovens que, muitas vezes, pecam pelo excesso oposto: escrevem cartas bem ruins, cheias de erros em alguns casos, e difíceis de se ler.

No meu mundo ideal as pessoas escreveriam melhor e pediriam achariam melhor ter um país com um setor privado menos rent-seeker.

PokECON – o início

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Michel entrou ontem em minha sala dizendo que havia experimentado uma daquelas epifanias. Escutei-o atentamente. Conclusão: sua idéia mais meus problemas para dormir (tentando calibrar minha idade máxima de vida com a previdência pública e o ajuste fiscal) é promissora. Eis aqui o teste para o PokECON do dia. ^_^

Custo de oportunidade é importante? – o exemplo da Companhia Fiação e Tecidos Pelotense

Como o leitor sabe, a resposta à pergunta acima é: sim, é claro que é importante! Mas vamos ao esclarecedor trecho.

Os navios que levavam o charque de Pelotas para o Nordeste do País retornavam vazios, tornando os custos proibitivos, pois aos índices normais somava-se o ‘frete morto’, ou valor dos porões não ocupados.
Decidiu-se, então, que o problema estaria resolvido com a instalação de uma fiação e tecelagem de algodão em Pelotas, voltando os navios que levassem o charque ao Nordeste, carregados de algodão.
Assim, nasceu a Companhia Fiação e Tecidos Pelotense. Nasceu de um fato econômico. De uma solução econômica’. [Companhia Fiação e Tecidos Pelotense. In: Pelotas Memória, especial 1992, p.15]

Preciso explicar mais? A oportunidade perdida era o porão “não ocupado”. Repare na importância do custo implícito, aquele que nem sempre as pessoas percebem, já que subjetivo. Para você, pode ser que o porão vazio pudesse ser preenchido com um carregamento de linguiças. Para mim, talvez por um carregamento de cervejas. Mas para o ator importante desta história, valia a pena trazer algodão e abrir uma grande tecelagem.

Exemplo legal, heim?

A gente tem que seguir a restrição orçamentária com carinho…já dizia Antonil

Pedindo a fábrica do engenho e tantos e tão grandes gastos quantos acima dissemos, bem se vê a parcimônia que é necessária nos particulares de casa. Cavalos de respeito mais dos que bastam, charameleiros, trombeteiros, tangedores e lacaios mimosos não servem para ajuntar fazenda, para diminuí-la em pouco tempo com obrigações e empenhos. E muito menos servem as recreações amiudadas, os convites supérfluos, as galas, as serpentinas e o jogo. E, por este caminho, alguns em poucos anos do estado de senhores ricos chegaram ao de pobres e arrastados lavradores, sem terem que dar de dote às filhas, nem modo para encaminhar honestamente aos filhos. [Antonil, André J. Cultura e Opulência do Brasil, Itatiaia/Unesp, 1997 (original de 1711), p.93]

Pois é. “Lacaios mimosos” seria, hoje em dia, traduzido como “trabalhadores que fazem corpo mole”. Belo trecho, chamando a atenção para o problema da restrição orçamentária (intertemporal e incerta, eu diria). Antonil entendia o papel dos incentivos.

p.s. A edição em domínio público do livro está aqui.

Batistas, Contrabandistas, Monopolistas e Professores: como unir interesses distintos?

Batistas e Contrabandistas e o rent-seeking

Bruce Yandle mostrou, com um exemplo simples (seu artigo, bem informal, está aqui), como regulamentações anti-concorrenciais surgem da união de interesses aparentemente improváveis. Seu artigo é um clássico e o objeto de estudo era a chamada lei seca norte-americana. Que lei agradaria mais aos batistas – contrários às bebidas alcóolicas – e aos contrabandistas – loucos para venderem-nas?

Criar monopólios não é privilégio dos norte-americanos!

Claro que não. Veja o caso de uma companhia privilegiada criada pelo Marquês de Pombal, abaixo descrita.

“A Companhia deu lucro e conseguiu ampliar seu raio de ação, armando diversos navios com destino ao Brasil e às ilhas. Os atravessadores, porém, foram uma dor de cabeça cada dia maior, atuando mais intensamente a partir de 1769. Mesmo assim, em 1771, ela se declarava disposta a comprar sua ações pelo preço do mercado, e, em 1772, pagava dividendos na base de 7,5%, aumentados para 8,25% em 1775. (…) Numa demonstração do alto conceito que possuía perante o poder central, ou das profundas ligações entre seus interesses e os do governo, a Companhia foi encarregada da cobrança do chamado ‘subsídio literário’ nas ‘suas terras’. Criado tal imposto, em 1772, para estipendiar os professores régios, sua fonte eram taxas sobre o vinho e as aguardentes, sendo administrado por uma ‘Junta da Fazenda’ então instituída. Nessa mesma ordem de idéias podemos referir o Alvará de 6 de agosto de 1776, ordenando que o Rio de Janeiro e as províncias do sul ficassem abertas ao comércio exclusivo dos vinhos, aguardentes e vinagres da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro”. [FALCON, F.J.C., 1982 : 460-2]

Em outras palavras, ao invés de batistas e contrabandistas, temos professores e produtores de vinho unidos por algo que, certamente, não era a educação (ou pelo menos, não apenas…). 

Monopólios mantidos artificialmente sempre geram reclamações de consumidores e o texto de Falcon é repleto de exemplos. Pombal mostra argúcia ao ligar a ação do monopólio à coleta de impostos destinados a subsidiar professores? É provável que sim.

Sua percepção acerca do papel dos professores no suporte às suas políticas certamente merece um olhar mais cuidadoso com mais pesquisas, mas fica, neste post, a insinuação de que ele provavelmente enxergou a importância da ascendente classe dos intelectuais em seu planos (lembremos que ele competia com os jesuítas neste aspecto…).

Mercantilismo japonês no século XVIII: tão diferente de nosso Brasil de hoje?

Vez por outra eu me pergunto sobre certos impostos. Você importa um produto que não tem qualquer similar nacional – o que tira de qualquer análise o argumento de que “deve-se proteger o similar nacional” – e ele é taxado. Bem, considere este trecho:

Kokueki was a word of Japanese origin, having no counterpart in Chinese. During the 1750s when this new word was coming into popular use in Tosa, it was used most commonly by townsmen and people from the ports: a fact that, in itself, suggests that they were its natural reservoir. More than any other class in Tosa, they were reminded in their daily experience of the intangible fact of ‘country’. When they exported or imported, they paid taxes for no other reason than crossing an invisible border. They were forbidden to deal in certain goods accross borders. It was, for example, illegal to export rice or horses and illegal to import rice, sake, or many luxury items. [Roberts, L.S. Mercantilism in Japanese Domain – The Merchant Origins of Economic Nationalism in 18th-Century Tosa, Cambridge University Press, 1988, p.137]

Não parece o Brasil de hoje? Por que será que sinto que o brasileiro pertence ao governo e não o contrário?

Penn Jillette sobre libertarianismo

O melhor vídeo já feito sobre o tema, na minha opinião. Longe dos – sempre prejudiciais – chavões e das propagandas panfletárias destinadas a pessoas com QI, suspeito, de ameba (é, eu me cansei de ser apenas ofendido por gente assim). Assista-o aqui. É um belo vídeo.

Super Dica R do Dia: electionsBR

Pacote novo e que vai poupar muita, mas muita dor de cabeça para muita gente: electionsBR. Olha, se tem bases de dados que é chata de baixar e agregar, estas do TSE são um exemplo. O pacote é mais do que bem-vindo.

Qualquer um que queira estudar um pouco de Economia Política, depois desta, não terá mais desculpas…

Quem está certo? Abílio Diniz ou André Diniz? ou: “Melhor é aumentar impostos ou cortar gastos?”

A entrevista foi publicada no final de semana e o empresário defendeu o aumento de impostos, para o que ele vagamente chama de “capital especulativo” (isso até que não é surpreendente). Claro que ele não defende impostos no setor em que trabalha, mas a pergunta é válida: por que não aumentar impostos para ajustar o setor público? Por que parar no (indefinido) capital especulativo?

Bem, talvez não seja uma boa idéia, conforme este artigo que mostra evidências favoráveis, para a América Latina, de um outro artigo anterior (o do Perotti, citado lá também), de uma hipótese já testada para países da OCDE sobre a diferença que faz ajustar a economia via aumento de tributos ou corte de gastos (a conclusão é que você perde menos bem-estar com o corte de gastos).

p.s. estou usando “impostos” e “tributos” como sinônimos porque, obviamente, estou me referindo ao conceito geral. Fosse isto aqui um blog de contabilidade, a história seria diferente.

O quinto é sempre o quinto: quanto perderia Portugal sem o império?

Excelente notícia (já não tão nova) é o trabalho a seguir, com uma estatística importante para estudiosos de história econômica. O título? The Great Escape? The Contribution of the Empire to Portugal’s Economic Growth, 1500-1800, de Leonor Freire Costa, Nuno Palma e Jaime Reis. Eis o resumo (as citações vão sem numerações de páginas porque o documento não as tem).

Newly assembled macroeconomic statistics for early modern Portugal reveal one of Europe’s most vigorous colonial traders and at the same time one of its least successful growth records. Using an estimated model in the spirit of Allen (2009) we conclude that intercontinental trade had a substantial and increasingly positive impact on economic growth. In the heyday of colonial expansion, eliminating the economic links to empire would have reduced Portugal’s per capita income by roughly a fifth. While the empire helped the domestic economy it was not sufficient to annul the tendency towards decline in relation to Europe’s advanced core which set in from the 17th century onwards. We conclude that the explanation for Portugal’s long-term backwardness must be sought primarily in domestic conditions.

Ironicamente, a perda seria de 20% (ou seja, um quinto).

Como dizem os autores, a pergunta geralmente feita é: quão importante foram as colônias para Portugal? Páginas e páginas já foram escritas sobre isto, mas poucos tiveram: (a) acesso a dados que lhes permitissem responder esta pergunta, (b) vontade de procurar dados e fugir da verborragia infértil, mas sedutora, (c) conhecimento de teoria econômica e métodos quantitativos adequados para responder ao questionamento.

Colônias eram importantes? Os autores, como não poderia deixar de ser, dizem que sim e explicam os motivos.

Colonies were beneficial to the home country in many ways. They allowed the mobilization of unused natural resources situated overseas, thereby creating some slack in Europe’s Malthusian constraint. They helped to reallocate underutilised domestic resources to the same destination and thus enhanced their productivity. They created new markets to serve as outlets for domestic production and as a result promoted scale economies and the division of labour. Thanks to the use of political and military might, imperial powers were also able to earn rents by distorting price mechanisms in the markets strung out along the chains of supply which connected them to their ultramarine possessions.

Para medir o desempenho, algum critério deveria ser adotado.

To encompass this diversity within a simple metric is no easy matter. One solution is to calculate separately the gains and losses from the many relevant types of activity, and then weight and aggregate those using appropriate prices. The alternative is to employ as a proxy a value index of each country’s total transoceanic trade and deflate it with a suitable set of commodity prices.

Sobre as conclusões, um desafio a algumas interpretações anteriores:

We conclude that in the long run Portugal’s empire demonstrated a considerable degree of dynamism and contributed positively to the economic fortunes of the mother country. This goes against the common belief in a “long-term stagnation of the [Iberian] colonial economies” (Coatsworth 2005, 237). Our paper also diverges from the approach of the proponents of “modern world-systems” (Wallerstein 1980) in that we show semi-peripheral Portugal was able to gain as much or more from its empire in relative terms as the leaders of the Early Modern core. At the same time, Portugal’s imperial strength did not translate into economic convergence to its colonial archrivals, which were also the richer economies of the day: England and the Netherlands.

Muito legal, não é?

Escravidão…em África

Como era a escravidão em África antes da chegada dos portugueses? Era uma barbaridade. Os relatos são esclarecedores e são todos retirados de Carreira, A. As Companhias Pombalinas, Editorial Presença, Porto, 1983.

Almada narra alguns casos elucidativos, em especial nas rias do sul da Guiné: ‘vendiam os Manes alguns /escravos/ por pouco preço, e quando os vendiam, se os nossos os recusavam, diziam eles que lhes não dava nada, porque se os não comprassem os comeriam. Os mesmos cativos apegavam dos nossos, rogando e pedindo por amor de Deus que os comprassem. [p.69]

Pode ser a estratégia de marketing mais arriscada da história, mas parece bem fiel aos fatos. Afinal, a escravização entre os reinos da África era algo disseminado. Motivos para escravizar alguém não faltavam…

“…as razões da redução à condição de escravo variavam entre a chamada guerra justa às provas mágicas, à apanha pela força ou pelo subterfúgio, até à propriedade dos mandões”. [p.72]

Não existia bom selvagem nem aqui, nem em África. Ah sim, eis um relato que mostra que a lógica econômica atuava tanto lá quanto em qualquer outro lugar do mundo.

“No tocante à escravidão por dívida, este autor elucida: (…) Quando alguém tem dificuldade em pagar as suas dívidas e foge para outra parte, prendem então um morador qualquer da sua aldeia, como refém, até que os parentes do preso paguem a dívida pelo seu resgate; e não há ninguém que castigue estas prepotências! [p.74]

Ironicamente, este último trecho me lembra a estratégia do microcrédito que deu a Yunus o Nobel da Paz.

A condição de transversalidade de Heine ou: “Heine recomenda: nada de brincar com jogos Ponzi!”

Mensch, bezahle deine Schulden,
Lang ist ja die Lebensbahn,
Und du musst noch oftmals borgen,
Wie du es so oft gethan.

Traduzido para o inglês:

Brother, pay off all your debts,
as life’s a long and weary way;
for in the future you might borrow,
as you borrowed yesterday.

Tradução de Frederic L. Pryor no início do capítulo 4 de seu The Origins of the Economy – A Comparative Study of Distribution in Primitive and Peasant Economies, Academic Press Inc, 1977.

Não sei se existe tradução em português (certamente existe), mas aqui está um link para o dito cujo em alemão tal e qual está aí no alto.

Política de conteúdo nacional…circa 1772-3 ou: “o nacional-desenvolvimentismo de Pombal e seus amigos monopolistas”

Sabe aquele papo de que exigência de conteúdo nacional é super-legal porque gera emprego no país e todos ficam mais ricos/a desigualdade cai/o sol brilha/existem pôneis coloridos? Pois é. Aí eu, economista, faço uma cara feia e me mandam estudar História. Bem, estudei.

A companhia privilegiada de comércio de Pernambuco e Paraíba, lá em 1772, resolveu….bem…vou citar.

Em 1772 a junta comunicava a criação da nova fábrica de Antas (sic, não é piada) e pedia para enviar para Lisboa a maior porção que fosse possível de peles de veado – salgadas, espichadas e secas. No ano seguinte a companhia trazia para os engenhos nordestinos 5 caldeiras e 18 taxos de ferro coado, feitos em Portugal. Esse material costumava vir de Inglaterra, e a remessa de fabricação portuguesa era de preço mais elevado, porém, assegurava a junta, era de qualidade superior. [Ribeiro Jr (2004), p.159]

Já ouviu isso antes, né? Então vamos terminar a história.

A experiência com esse tipo de material, no entanto, não surtiu efeitos positivos. As caldeiras e taxos de fabricação portuguesa tinham muitos buracos nos fundos, tapados com estanho ou chumbo. Por isso a nova encomenda colonial rejeitava os de fabricação nacional e pedia 50 caldeiras, 200 taxos e 150 tambores, provenientes da Inglaterra [Ribeiro Jr (2004), p.159]

Vejam só. O nacional-desenvolvimentismo tem raízes mais profundas do que você imaginava, não? Afinal, Brasil e Portugal eram um país só. Os pobres nordestinos tiveram que engolir preços altos e produtos de alto conteúdo nacional porque assim era a regra do jogo (no fundo, o nacional-desenvolvimentismo não é nada mais do que um mercantilismo com tablet e smartphone).

O livro? Já citei em dois textos aí abaixo.

Teorema de Alchian-Allen na Pernambuco colonial: o caso dos escravos exportados

O Leo Monasterio é quem vai gostar deste trecho, do Colonização e Monopólio no Nordeste Brasileiro, de José Ribeiro Júnior (Hucitec, 2004):

Em 1766 a junta tomara a resolução de enviar para a Capital da colônia alguns escravos ‘dos milhores’ para lhes dar saída por melhor preço e a fim de evitar a despesa que se fazia no Recife ‘aonde tem decahido muito do seu valor’. O fato de deixar o pior escravo para Pernambuco provocaria a observação do governador José César de Menezes, dizendo que era preciso adquirir 10 escravos ruins para fazer o serviço de 8, tornando mais caro o custo de mão-de-obra na capitania servida pela sociedade mercantil, detentora do privilégio. [Ribeiro Jr (2004), p.129]

Não é que o monopolista – no caso, a Companhia de Comércio de Pernambuco e Paraíba – segue a lógica que foi exposta no famoso Teorema de Alchian-Allen?

Nunca ouviu falar do teorema? Alguns o chamam de Terceira Lei de Demanda. O Leo Monasterio explica aqui (incluindo o famoso vídeo do falecido Olavo Rocha). Eu também já tentei explicar o Teorema em outras ocasiões (como esta, inclusive, pensando em um exemplo hipotético sobre a escravidão).

Ironicamente, neste caso, aqueles que pensam em conspirações (a motivação básica de Alchian e de Allen era mostrar que devemos pensar na lógica econômica ao invés de apelarmos para explicações muito fantasiosas como conspirações…) podem se ver em uma situação em que o monopolista – geralmente criticado como um agente conspirador em onze de cada dez romances, não necessariamente sem base empírica… – também respeita a lógica econômica do teorema.

O Marquês de Pombal explica o conceito de custo de oportunidade

Segundo narrativa citada em Ribeiro Jr (2004):

(…) se à sua sala concorrião Fidalgos e Negociantes para lhe falar em negócios, attendia primeiro a estes, dizendo, que o tempo lhes era muito precioso, e que geralmente fallando, vinhão trazer entretanto que aquelles vinhão commumente buscar, e tinhão pouco em que empregar o seu tempo. [Ribeiro Jr. Colonização e Monopólio no Nordeste Brasileiro, Hucitec, 2004, 2a ed., p.52, citando, obviamente, outro autor mais antigo]

Percebeu? Entre atender aos nobres (Fidalgos) e os homens de negócios, Pombal – que também tinha um custo de oportunidade com seu tempo – atendia primeiro aqueles que lhe tomavam menos tempo que eram, aliás, os que tinham o custo de oportunidade do uso do tempo mais elevado (relativamente aos nobres).

Sim, eu sei muito bem que o tempo tem uma utilidade e minimizo meus custos!

Mais pluralismo e diversidade é melhor: ainda o Escola Sem Partido

Eu tenho a solução: mais liberdade e competição!

O prof. Bernardo acabou de publicar um dos melhores textos de seu blog dos últimos tempos, sobre o Escola Sem Partido. Concordo com ele. Fui simpático ao projeto no início, mas mudei de idéia. O remédio não é controlar o professor, mas sim propor mais exposição a várias teorias.

É o mesmo remédio de Adam Smith para evitar o fanatismo religioso. Sim, aprendi isto no livro que acabei de ler hoje, do prof. Eli Berman, sobre economia do terrorismo (…porque os professores de História do Pensamento Econômico que tive, ironicamente, preocuparam-se mais com doutrinações marxistas? Meta-ironicamente: não!).

Existe, contudo, algo inegável em todos os artigos que leio sobre o projeto que é o fato de que todo mundo gostaria que houvesse mais pluralidade de visões nas escolas do ensino médio. Por que isto não ocorre? O Fernando Gouveia, que é a favor do projeto, neste caso, tem um ponto relevante: o debate sobre a lei já é um possível motivador para a maior participação dos consumidores (pais de alunos e os próprios) na busca por mais pluralidade.

Pode-se não concordar com o restante de seu texto, mas esta é uma reflexão, ao meu ver, bem-vinda e adequada. É importante que os indivíduos demandem a pluralidade em sala de aula. Não há qualquer motivo razoável para que apenas um grupo tenha o monopólio doutrinário sobre a educação (o único caso em que isso seria justificável é aquele em que todos da sociedade são exatamente idênticos…).

Momento “boa conversa” do dia ou: “Piada sobre incentivos baseada em fatos verídicos”

Você entenderá melhor quando ler a seguinte piada que, de fato, aconteceu comigo, ontem. Preparado? Aí vai.

Estavam conversando: uma professora de administração (Isolda), um professor de economia (eu) e um empreendedor de sucesso (Wander), todos ex-colegas de turma de um colégio nos anos 80.

Disse a primeira:

– Eu tento ensinar para os alunos sobre como diferentes incentivos geram diferentes resultados.

Disse o segundo:

– Eu tento ensinar a teoria disto para os meus.

Disse o terceiro:

– Eu faço isso todos os dias.

Moral da história: apenas o último ganhou grana ^_^

Observação: esta piada é uma deliciosa lição de Economia. Como nos lembra Adam Smith, primeiro nos dedicamos a nos especializar para, depois, efetuarmos trocas (McCloskey lembra bem disso aqui). Contextualizo para você a piada. Somos três amigos distanciados por 30 (trinta!) anos de distância desde o colégio. Cada um seguiu seu rumo sem contato com o outro.

De repente, a gente se encontra e começa uma divertida conversa sobre vários tópicos até caírmos neste que nos é comum: como funcionários reagem a diferentes tipos de metas (estou usando as palavras sem a menor preocupação com a exatidão na área da Isolda, na minha e talvez Wander use outros termos para descrever a mesma coisa…espero que você capte a idéia). Neste instante, nós três nos descobrimos estudiosos do mesmo tema, sob diferentes perspectivas.

A conversa não seguiu adiante. Talvez não voltemos a falar do tema. É aquela mágica do instante que fica fotografado no tempo e na memória (o lado pessoal do Shikida vibra) e que também dá insights que nos lembram como a Ciência, quando levada a sério, gera frutos e nos permite conversar e pensar sobre o que conversamos de maneira diferente, mais sólida, com pontes que nos permitem melhorar o nosso entendimento (o lado científico do Shikida vibra).

Esta piada foi gerada quase que instantaneamente em minha mente ao perceber o quão interessante foi o momento de troca – uma troca mínima, é verdade – gerado pela livre conversa entre nós. De certa forma, vale a pena viver. Há estes momentos que superam muitas tristezas e nos fazem rir de forma, digamos, um pouco mais elaborada do que a piada do que esta ou aquela piada de português (que também tem seu valor).

A racionalidade da centralização legal francesa

Eis aqui um tipo de artigo que me agrada. O resumo:

We provide an alternative explanation of French legal centralization. To do this we develop a rational choice model of the legal architecture around 1789 and the French Revolution. Following Tocqueville we propose to analyze the French movement towards legal centralization as the result of an increase in the aversion to inequality before the law. We show that legal centralization can be preferred to the “Ancien R´egime” situation or intermediate legal decentralization if the aversion to legal differences is sufficiently strong. In addition, we show that when the legal system is centralized it is always optimal to allow some degree of judicial discretion. This result is consistent with the historical evidence that the Napoleonic codification, i.e., the culmination of French legal centralization, was associated with a higher degree of judicial discretion than at the beginning of the Revolution.

Claro, uma nova hipótese teórica formulada de forma elegante é sempre bem-vinda. O passo seguinte é examinar a questão empiricamente. De qualquer forma, existe aquela questão (dentre outras) de se a importação destas instituições legais para o Brasil apresentam a mesma característica.