Bibliotecas brasileiras conseguem fazer algo assim? Cardápios em NY

Eu nunca vi. Gostaria muito de ver trabalhos similares em bibliotecas brasileiras. Enfim, é um trabalho interessante e que, realmente, resgata a memória de uma sociedade. Não é só de discursos pomposos e fotos de famílias importantes, pessoal. Cardápios de restaurantes são um prato cheio (pun intended) para pesquisadores (um dos comentários é sobre o cálculo de inflação, uma idéia difícil, mas interessante).

Trabalho muito legal da biblioteca e também do blogueiro, claro, usando o R.

Pela segunda vez, Verissimo erra ao falar de Economia

Da outra vez, há uns 10 anos, eu me lembro bem, ele trocou até a data da publicação do livro de David Ricardo. Desta vez, ele mostra que, mesmo após este tempo todo, continua não estudando história econômica ou história do pensamento econômico ao citar, no caso, Keynes.

Este é o problema do sujeito que deseja falar de um assunto que não domina. Eu gostaria muito de dizer que matemáticos, cientistas de computação ou engenheiros estão errados. Mas não sou especialista na área. Nem me arrisco.

Há os que se dão ares de sábios – embora o currículo Lattes não seja lá aquelas coisas (e falo de qualidade tanto quanto quantidade do que é publicado – e posam de grandes conhecedores da “metodologia científica”. Sobre estes, realmente, não há o que falar. Sigo a regra do Monasterio dos desvios-padrões (perguntem a ele no Twitter).

Mais Tavares Bastos, menos chavão.

Homem de estatísticas, de textos de leis, de críticas claras, não necessitava inflacionar as páginas de seus livros com citações longas e afetadas, moda que, na República, se tornou quase epidêmica, como se a cultura decorresse de indicações livrescas desnecessárias ou despropositadas. [Tavares Bastos, A.C. “O Vale do Amazonas”. Coleção Brasiliana, v.106, Companhia Editora Nacional, 1975, 3a ed, prefácio de Oscar Tenorio, p.11]

O homem era quase um mito. ^_^

Estranha-me a falta de interesse de nossos estudiosos do pensamento econômico nacional por sua obra e, como já notaram meus dois leitores, estou em franca campanha para que alguém faça um trabalho sério sobre o autor.

Note que a mania de “citações longas e afetadas” ainda perdura entre alguns praticantes do Direito e também em textos de alguns economistas pterodoxos (de todos os matizes ideológicos).

Abram a cerveja: Pedro Sant’Anna foi agraciado com o Prêmio Arnold Zellner de 2016

Pedro Sant’Anna has been awarded the prestigious Zellner Thesis Award from the Business and Economics Section of the American Statistical Association.  The award is named for Arnold Zellner, past Chair of the Business and Economics Section, past President of the American Statistical Association, and founding editor of the Journal of Business and Economics Statistics (JBES). The award is for the best Ph.D. thesis dealing with an applied problem in business and economic statistics. It is intended to recognize outstanding work by promising young researchers in the field.

Fonte: http://as.vanderbilt.edu/econ/news/faculty-news.php

Momento (histórico) R do Dia – A maior taxa de câmbio da história econômica brasileira

Todos sabemos que o pila (P$) é a denominação gaúcha para a moeda nacional. Durante séculos, ela manteve sua paridade de 1:1 com a unidade monetária (u.m.) do país. Podemos, então, construir a série diária do câmbio (a hipótese simplificadora assumida é a de que podemos considerar sábados e domingos com a mesma taxa de câmbio) no R.

# http://stackoverflow.com/questions/33128865/starting-a-daily-time-series-in-r
# Construindo a sequência diária
inds
# Após checar o número de observações, criar o pila
x<-rep(1, 188619)
#chamar o pacote zoo
library(zoo)
#criando a indexação do pila com as datas
pila<-zoo(x,inds)
# o gráfico glorioso
plot(pila, xlab = "dias", ylab="Pila por u.m. brasileira",
main = "Taxa de câmbio diária entre o Pila (P$) e a moeda nacional")

O gráfico da majestosa série de tempo? Ei-lo!

pilao

Tavares Bastos Novo-Institucionalista?

Se alguma coisa explica o embrutecimento do Brasil até o começo do século presente, a geral depravação e bárbara aspereza de seus costumes, e, portanto, a ausência do que se chama espírito público e atividade empreendedora, é de certo o sistema colonial. [Tavares Bastos, A.C. Os males do presente e as esperanças do futuro, Brasiliana, vol. 151, 1976, p.31]

Lembro do livro do prof. Marcos Fernandes, Formação Econômica do Brasil (que merece ser reeditado!) e talvez uma nova edição mereça algumas linhas dedicadas a Tavares Bastos (eis minha sugestão atrevida).

O trecho acima parece uma daquelas pistas arqueológicas sobre o estudo do pensamento econômico. Teria Tavares Bastos antecipado parte do argumento novo-institucional para a economia brasileira? Caso alguém aí tenha alguma dica, o espaço de comentários está aberto.

Porque feriado é para os fracos! (Mentira…eu vou tirar um cochilo sim)

20160919_120603

Não será possível ler tudo isso hoje porque tenho que preparar umas aulas, mas vocês já notam que há uma diversidade de projetos sendo encaminhados e um resgate de uma antiga paixão por futebol que, após morrer nos pés dos atreticanos da seleção de 82, voltou e se transformou, também, em interesse de pesquisa.

Dito isto, a edição em português de Soccernomics que comprei anteriormente, usada, será doada para a biblioteca informal do mestrado do PPGOM.

Males do Estado Brasileiro…ao longo dos séculos

Si o mais seguro meio de attingir á reducção do imposto é o de reduzir simultaneamente a despeza, haja um governo patriotico que se levante sobre as ruinas dos ministerios aulicos, e combata as grandes causas permanentes dos nossos embaraços financeiros,- o funccionalismo exagerado pela centralisação, o luxo administrativo, os subsidios estrangeiros, a onerosa politica de intervenção e protecção. [Tavares Bastos, A.C. A Província, 1870, p.332]

Ou seja, não foi por falta de aviso, né? ^_^

p.s. Tavares Bastos tinha uma hipótese sobre a causalidade entre receita e despesa?

Substituição de importações e fechamento da economia…na visão de Tavares Bastos

Commettemos tambem a inepcia de fazer das tarifas das alfandegas um ponto de apoio da industria nacional contra o que chamava-se em França a invasão dos productos estrangeiros. (…) As industrias protegidas desapparecem ou definham, mas as taxas perduram. [Tavares Bastos, A.C. Cartas do Solitario, 1863, 2a ed., p.20]

O mais engraçado é que, outro dia, li crítica similar ao mercantilismo pombalino, que, no caso, obrigou os colonos a comprar tachos com buracos e mais caros do que os melhores (e mais baratos) ingleses.

Que tal um pouco de noção sobre o excesso de regulação no transporte marítimo?

Aqui mesmo na côrte sabemos que as commissões do arsenal teem declarado aptos para navegarem vapores em circumstancias pouco animadoras. E’ assim que a restricção fomenta a fraude das companhias, uma vez que os particulares depositam inteira confiança no resultado de um exame instaurado por commissarios do governo. [idem, p.21-2]

Tavares Bastos merecia, realmente um estudo mais profundo por parte de quem geralmente mais entende de Ciências Econômicas, ou seja, os economistas.

Tavares Bastos e o capital humano

Abolicionista que era, mas também ciente das restrições que ocorreriam caso a abolição viesse de uma só vez, Tavares Bastos tinha uma proposta que avançaria marginalmente (o que teria evitado a crise financeira da abolição estudada por John Shultz?).

Interessante mesmo é ver que Tavares Bastos entendia bem a importância do capital humano. Por exemplo:

Entre as providências sugereidas, ressalta pela importância, esta – criando para cada senhor de cinqüenta escravos a obrigação de manter uma escola, destinada à educação de suas ‘crias’ e dos meninos das vizinhanças, sob multa de liberdade de dois escravos adultos, em quanto aproximadamente estimava a importância das despesas anuais pelo serviço escolar previsto.
Sem quaisquer preconceitos de raça, e levado por observações a respeito da capacidade e aptidões do negro, capacidade e aptidões já comprovadas em círculos dos Estados Unidos, Tavares Bastos propunha a educação na Europa, por conta do Estado, de certo número de negros libertos, em determinadas indústrias, artes e ofícios. [Pontes, C. “Tavares Bastos (Aureliano Cândido, 1839-1875). Coleção Brasiliana, v.136, Companhia Editora Nacional, 1979, 2a ed (original de 1938), p.154]

A primeira medida é uma tentativa de criar custos aos escravocratas, ao mesmo tempo em que sinaliza pela necessidade de se qualificar a mão-de-obra ao longo do tempo. Pode-se discutir se a medida seria mais ou menos eficiente, mas a idéia de que Tavares Bastos pensava seriamente no capital humano dos futuros libertos é clara.

Já a segunda, muito interessante, lembra a iniciativa do governo japonês, quando de sua modernização (era Meiji) em enviar alguns japoneses para o exterior para que aprendessem melhor os aspectos da civilização ocidental (os Choshu 5 Satsuma 14).

Tavares Bastos era, de fato, um liberal de idéias interessantes e com boa percepção acerca dos incentivos econômicos.

 

Por que ninguém falou sobre Tavares Bastos na aula?

tavares_educador1Estou desconfiado que muita gente lê, mas quase nunca cita um certo trabalho de Tavares Bastos: sua tese de doutorado. Segundo um autor antigo, Carlos Pontes, em seu Tavares Bastos (Aureliano Cândido, 1839-1875),…veja você mesmo:

“Versava ela sobre os seguintes motivos: Sobre quem recaem os impostos lançados sobre os gêneros produzidos no país? Sobre o produtor ou sobre o consumidor? O que sucede quanto aos gêneros importados e exportados? [Pontes (1975) [1938], p.63]

O autor não deixa claro se este é o título – embora o destaque seja uma insinuação forte – da tese, mas fica meio óbvio que qualquer aluno interessado em história do pensamento econômico brasileiro deveria procurar pelo original.

Caso alguém saiba se existe uma versão digitalizada (ou publicada) da tese dele, gostaria muito da dica.

Estratégias substitutas, complementares…faz diferença? O caso do terrorismo

Veja o caso do terrorismo, tal como neste working paper:

When modeling why some groups become highly lethal (which we define as having killed more than 100 civilians in terrorist attacks in any year or causing more than 100 battle deaths in any year), we find that: • VNSAs are more likely to kill many civilians in one year when they control territory and when governments use violence, or what we call a stick strategy, against them; • VNSAs are most likely to kill many civilians in one year when governments use a mixed strategy – that is, a combination of violence (stick) and negotiation (what we term a carrot strategy) as opposed to either stick or carrot alone; • VNSAs are most likely to inflict more than 100 battle deaths in one year when they control territory, are highly connected to other VNSAs, and are large (though there is a strong relationship between size and controlling territory); • VNSAs are less likely to inflict more than 100 battle deaths in one year when they have a formal political party. [p.1 (abstract)]

O trecho em negrito é por minha conta. VNSA diz respeito a Violent NonState Actors, ou seja grupos violentos não-estatais. Não entram na classificação – salvo engano – grupos como black blocs brasileiros, embora isto seja discutível. De qualquer forma, o estudo tem uma restrição na composição da amostra: apenas Norte da África e Oriente Médio (o período amostral é 1998-2012).

No caso, encontra-se (usando-se um modelo logit):

Turning first to the terrorism results, when a Stick strategy is used, the probability that a group is highly lethal increases to 7 percent (See Figure 1). This is a 106 percent increase in the probability or a 3.6 percentage point increase over baseline. When a Mixed strategy is used the probability that a group is highly lethal increases to 34 percent. This is a 900 percent increase in the probability or a 30.6 percentage point increase over baseline. [p.9]

Mas o que significam as estratégias carrot stick? Os autores do estudo fazem a codificação de sua base de dados com uma definição para as estratégias que os governos podem usar contra os VNSA:

1) Do nothing: Have no observed strategy; 2) Carrot: Negotiate, meet with, or make concessions to a VNSA; 3) Stick: Use violence, policing, military strikes or other kinetic actions; 4) Mixed: Use a combination of violence and negotiation (carrots and sticks) [p.5]

Não me lembro agora, mas creio que existem estudos similares em Economia do Crime, comparando a eficiência de diferentes tipos de estratégias no combate a diferentes tipos de crime. Caso alguém se lembre de alguma referência, bem, a caixa de comentários está aí para isso.

Independência ou Sorte?

(Último diálogo)

P – Perseguiste teus patrícios
Como lobos defamados;
Nas casas que cercaste
Também foste carniceiro.
Ajudaste a tirar
Vida, honra e dinheiro;
Ajudaste a matar
Teus irmãos, mansos cordeiros,
Que desgraça, seu corcunda,
Entre os mesmos brasileiro!…
Desprezar os seus irmãos
Como lobos carniceiros.
Esta injustiça, seu corcunda,
Reclamam os céus inteiros…

C – Meu amigo, estou certo
Do quanto me tem narrado,
Já me pesa de ter sido
Dos meus irmãos o malvado.
Roto o véu do engano,
Nova vida eu terei,
Constante patriota serei;
Podem contar comigo:
Defender a nossa pátria
E morra o nosso inimigo!…

Luís da Câmara Cascudo relembra este canto de origem pernambucana (ou cearense), o Conversa Política Entre Um Corcunda e Um Patriota, em seu – já citado aqui antes – Cantos Populares do Brasil.

Feliz 07 de Setembro para você também e lembre-se: ter sido colônia também teve seus custos e benefícios (para os cidadãos de Brasil e Portugal).

Direitos de propriedade importam? Sim. Veja o caso da diminuição do desmatamento no Brasil.

Curiosamente não achei os trabalhos de Bernardo Mueller – que é referência básica na área – dentre os citados, mas a conclusão é similar: direitos de propriedade importam.

Valeu, Douglass North! Só não entendo porque tantos preferem não te ensinar na faculdade ainda…

 

Renda permanente e renda temporária: o caso do sumô

Em cada luta do sumô, o vencedor leva o conjunto de envelopes com a grana das apostas. Claro que o resultado de uma luta é incerto e, lembre-se, cada temporada dura duas semanas apenas, com lutas diárias. Quando você ganha uma partida, o que faz com o dinheiro? Veja o que disse o lutador Takarafuji, após receber uma boa grana ao derrotar o (quase-)eterno campeão de todas as temporadas, o mongol Hakuhou.

When he was asked during a post-bout interview how he would spend the ¥480,000 in prize money he received after downing Hakuho, Takarafuji gave a reply as steady as the bout, saying: “It’s savings.”

Pois é. Renda temporária. O que isso significa? Para você que está começando a estudar economia, isso significa que nem todo aumento de renda gera aumento de consumo. Antes de falar de efeito-multiplicador, dê uma olhada no capítulo que fala sobre as teorias do consumo. Procure por renda permanente.

p.s. caso você goste de sumô, veja os outros artigos do colunista.

Capital humano, migração, história econômica do Brasil e algoritmos confusos (fuzzy): isso sim, é ser plural!

ancestors_monasterioLeonardo Monasterio tem um artigo novo – um texto para discussão, na verdade – o qual tive o privilégio de ler antes da sua publicação.

O que eu gosto no texto? Primeiro, a originalidade no uso do método em uma pergunta tipicamente de História Econômica. Segundo, o texto está do tamanho certo: nem grande demais, nem pequeno demais. Terceiro, o uso do R. Quarto, o zelo na hora de fazer inferências mais sofisticadas (a parte final do texto).

O que eu não gosto no texto? Faltaram umas 30 páginas.🙂

De certa forma, o artigo mostra que há alguma evidência de que as condições iniciais importam, um tema comum a alguns estudos do desenvolvimento econômico (o famoso PIB inicial nas regressões…) e também aos que seguem insights teóricos da Nova Economia Institucional (o tal path dependence).

A realidade não é “do bem” contra “do mal”

Manifestações violentas geram resultados não-intencionais e nem sempre felizes. Veja, por exemplo, o caso de vom Rath, diplomata alemão, anti-nazista, que sofreu um atentado perpetrado por um judeu, vítima do vandalismo nazista (contra os quais raramente a polícia reagiu, se não me engano), que estava desesperado. [Veja a seção  “Shooting of Vom Rath aqui]

Percebe como vandalizar não é a melhor forma de manifestar? A polícia deveria ter evitado os vandalismos? Vom Rath era culpado porque era funcionário do governo? O infeliz Grynzpan deveria ter atirado em alguém? É fácil julgar as coisas sob o prisma “do bem vs do mal”, talvez o pior chavão legado por alguns famosos da TV para as gerações mais novas. Difícil mesmo é pensar.