Utilidade esperada e seu jogo de pôquer

Quais os nomes importantes? John von Neumann e Oskar Morgenstern. Todo aluno de Economia sabe. Agora, que tal esta?

[John von Neumann] (…) played poker, but only rarely, and he usually lost. [Halmos, P.R. “The legend of  John von Neumann” in: Ferris, T. (ed) The World Treasury of Physics, Astronomy, and Mathematics, Little Brown and Company, 1991, p.617]

Sensacional, né? Eu não sei nada de pôquer, mas este cara parece conhecer o assunto.

“Você está blefando…não…não….droga, perdi de novo!”

Por que nem todo atleta de uma ditadura tenta fugir em uma Olimpíada?

Porque o custo pode ser maior que o benefício. Pensei nisto ao ver esta matéria sobre os atletas cubanos. Não é bom você ser um dos poucos em seu país a poder desfilar na abertura de uma olimpíada com elegância? Melhor dizendo: nem nas ruas de Havana o sujeito poderia andar assim.

Em 1993, William Shughart e Robert Tollison publicaram o que, para mim, é um dos artigos mais interessantes sobre esportes e ditaduras. Você pode obtê-lo clicando aqui (claro, você deve ter um perfil no Academia.edu).

Pois é, não é apenas aquela questão de se as olimpíadas geram ganhos para o país. É possível estudar também os incentivos que atuam sobre o desempenho dos atletas. Como no restante da economia, a Economia dos Esportes tem possibilidades de estudos macro e micro.

Parody (attempt #1) – When I Heard the Learned Economist

When I Heard the Learned Economist

A parody by Claudio D. Shikida , 1969.

When I heard the Ph.D. economist,

When the proofs, the equations, were arranged on the blackboard before me,

When it was shown me the supply and demand curves to play with,

and to solve,

When I sitting heard the economist where he lectured

with too much silence in the lecture-room,

How soon unaccountable I became happy and curious,

Till reaching the magic pair smoothly calculated by myself,

Using the very same old pen, and from note to note,

I found out where my equilibrium was.

From the original:

When I Heard the Learned Astronomer

Walt Whitman, 1819 – 1892

When I heard the learn’d astronomer,

When the proofs, the figures, were ranged in columns before me,

When I was shown the charts and diagrams, to add, divide,

and measure them,

When I sitting heard the astronomer where he lectured with

much applause in the lecture-room,

How soon unaccountable I became tired and sick,

Till rising and gliding out I wander’d off by myself,

In the mystical moist night-air, and from time to time,

Look’d up in perfect silence at the stars.

O Islã, a política e a economia

Depois do último post, volto a divulgar outro pequeno texto sobre o tema. O resumo?

It is typically argued that the rising popularity of Islamist parties in parts of the Arab world reflects votes from the poor and disenfranchised. This column challenges this perspective, arguing that Islamist parties gain political support from the middle classes, due in large part to neoliberal economic policies. Using survey and electoral data from Tunisia, it shows that belonging to the middle class and living in a rich district together affect the decision to vote for the religious party more than actually being religious. These findings suggest that the same framework used to analyse political competition in the West can be fruitfully applied to the Muslim world.

Nada muito diferente do que se faz por aqui, não?

O problema do terrorismo é a religião?

A imprensa está cheia de críticos que reclamam que qualquer um virou analista político sobre terrorismo. Correto. Só que os críticos, em sua grande maioria, também replicam este modelo (pode-se até pensar que são todos não-especialistas concorrendo por fama e dinheiro).

Um tema central, por exemplo, que gera polêmicas e polêmicas é a relação entre religião e terrorismo. Bem, eu não sou especialista, mas não vi ninguém por aí procurar artigos especializados para fundamentar suas opiniões. Assim, o que faço a seguir é apenas comentar as conclusões de um artigo que, se pode lhe parecer chato ou enfadonho, é porque não sou um cara treinado em traduzir textos científicos para o público.

Mesmo assim, achei que deveria tentar porque não aguento mais ler tantos textos na internet – sem qualquer menção a trabalhos científicos (eventualmente, menciona-se um ou outro livro que não tem nada de científico, mas muito de achismo) de gente que se vende como “especialista”. Encare isto como meus dois centavos sobre o assunto.

Como todo artigo científico, este também tem suas limitações. Vou apenas resumir e comentar o grosso das conclusões e o leitor pode tentar sua sorte lendo o artigo (o periódico científico é aberto, você só precisa ler inglês, nem precisa ter viajado pelo Ciência Sem Fronteiras ou sido monitor de Econometria para ler e entender o artigo…mas precisa saber o “básico do básico” de estatística…).

Vamos lá. Primeiramente, há algo de especial no islamismo que gere terrorismo?

(…), empirical work evaluating religious fundamentalism is clear in its implications that fundamentalist beliefs are related to racial prejudice (…), hostility toward value violating out-groups (…), support for violence against out-groups (…), and anti-Western sentiment (…). The data in this article suggest that followers of Islam do, on average, hold more fundamentalist beliefs than do believers from other religious groups. This increased fundamentalism may create more susceptibility to the calls for action from extremist Islamist clerics (…), helping to explain why religious terrorism is predominantly Islamist. This finding also implies that fundamentalist beliefs may be targeted by the religious elite to reduce susceptibility to calls to Jihad (…).

Ou seja, o fundamentalismo pode ser usado por pessoas extremistas para fins terroristas. Note os itálicos. O autor se pergunta: o envolvimento religioso tem algum efeito sobre ações violentas? A literatura, diz ele, é ambígua. O que ele encontrou?

(…) this article concentrated on the possibility of the enhanced coalitional commitment argument for a relationship between religious involvement (specifically religious service attendance) and parochial altruism (…). The data is inconsistent on whether Muslims engage in more frequent religious service attendance or are generally more involved with their religion than members of other religious groups.

Ou seja, não há nada muito conclusivo. O que ele tem de evidência, mas não muito robusta é que:

(…) the data presented on inter-group differences in religious commitment only weakly support the notion that Muslims are more committed to their religious beliefs than members of other religious groups. The limitations of the dataset prevent a stronger conclusion but do provide important preliminary support. Other data also suggest that religious commitment might be related to increased support for Sharia law in Muslims

Uma questão que lembra um pouco a discussão sobre “igrejas evangélicas mais diversificadas vs igrejas católicas mais homogêneas” é a que ele levanta sobre o Islã.

The final psychosocial religious factor explored was the relatively homogenized structure of Islam. While large-scale survey data does support the notion that Islam is more homogenized than other religious groups (i.e., membership in one predominant (Sunni) form of Islam; overwhelming acceptance of core beliefs), the direct effect of this homogenization is not clear. (…) homogenization of Islam may act to increase extremist beliefs and maintain high levels of fundamentalism in the Islamic community.

Este é um ponto que me faz pensar (irresponsavelmente, apenas, ok?): aparentemente, uma religião mais homogênea, em termos de imposição de valores básicos, seria mais favorável ao extremismo? A ser verdade aquela história que nos contaram na escola, sobre os protestantes terem ganho maior diversidade após a separação da igreja católica, o desejável – em termos de diminuição da violência – seria que estimulássemos maior diversidade religiosa?

Então, como vemos, as coisas são um pouco mais complicadas do que simplesmente dizer que “Islã = ódio” ou que “Islã = amor”, não é? Ao invés de brigar com as pessoas nas redes sociais, que tal você pesquisar um pouco, procurar dados (o governo brasileiro acabou de prender alguns elementos radicais, se tiver sido esperto, coletou dados) e trabalhar um pouco? Ah, e pergunte-se: o que a literatura especializada define como “extremismo”, “radicalismo” ou “terrorismo”?

Aí sim, a gente passa do achismo pop (aquele que ganha likes e seguidores nas redes sociais) para o menos conhecido, mas mais interessante caminho da pesquisa (que, neste caso, mais do que nunca, pode ajudar a salvar vidas).

[UPDATE]p.s. por que isto me interessa? Bem, porque acho desafiador entender as limitações (e quais seriam as necessárias extensões) de modelos econômicos na explicação do comportamento terrorista. Veja, por exemplo, esta resenha.

Ensino de Economia no colégio?

Bernardo acha que sim e o Leo acha que não. Aliás, como diz este último (o Leo): muitos com diplomas de economistas sequer entendem vantagens comparativas e, digo mais, alguns não querem mesmo entender este conceito. A idéia de que se tivesse este ensino nas escolas é boa? Não sei.

Já fui a favor, mas acho que o aluno, hoje, tem ótimas opções sem precisar entrar em sala de aula (estou pensando nos vídeos do portal do Carlos Eduardo, o tal “Porquê”)  e penso que seria legal investigarmos, empiricamente, o grau de analfabetismo econômico entre economistas e também entre não-economistas (penso em algo assim).

De qualquer forma, a discussão me faz lembrar de um pequeno artigo (acho que foi uma palestra convertida em artigo) de Bryan Caplan que nos dá motivos para defendermos a proposta de ensino nas escolas, ceteris paribus a existência massiva de professores de economia que entendem vantagens comparativas.

Escola sem Partido: três vídeos para refletir

Antes que me perguntem: sim, acho que existe um problema de doutrinação e não, não concordo que este projeto seja a solução.

p.s. pergunta muito boa do Roberto Ellery: e o custo-benefício da lei? No facebook o Ellery colocou bem a questão: se cada crença precisa ser ensinada, deve-se discutir quem arcará com o custo de se contratar “k” professores para “k” crenças na escola.

A junção do antigo e do novo

moderno_antigo

Eis aí a sociedade humana feita de indivíduos os mais diversos e com criativas formas de se adaptar aos choques de produtividade. Afinal, estamos falando de livros comprados por meio da plataforma da Amazon, mas de terceirizados. Deliciosa interseção entre a antiga máquina de datilografar e a internet, não?

Quando o argumento é honesto e de qualidade, pode-se até mudar de opinião.

Joel é o único que conseguiu me mostrar argumentos relevantes contrários ao projeto. É diferente do lero-lero ideológico que pretende estender a doutrinação a todo custo reclamando do projeto. O argumento de Joel – na verdade, são três pequenos argumentos – foi suficiente para me fazer rever minha posição quanto ao projeto.

O problema da doutrinação existe – e é assustador que muitos sequer reconheçam este fato óbvio – mas o projeto não é uma forma interessante de lidar com ele. De certa forma, ele toca numa ferida que, ironicamente, afeta vários colegas liberais. Refiro-me às eternas reclamações de que não há espaço, etc, seguida de uma quase declaração de inação voluntária (ironicamente temperada com apelos para que se leia sobre a “ação humana”) por parte de muitos.

Joel tem um ponto muito interessante e que não vi surgir no campo libertário, notadamente em seus membros que conhecem, muito mais do que eu, a pedagogia. Em outras palavras, onde estão as propostas liberais de formação de educadores para uma sociedade aberta (Popper, sim, sim…)?

Volto ao domingo. Até mais.

p.s. Não conheço Joel pessoalmente, mas tenho acompanhado sua trajetória em debates e acho-o um ótimo interlocutor. Tem algo que não tenho: paciência. ^_^

Usando Hotteling para namorar (ou quase isso)

 

Mais comércio, mais bem-estar! (cliometria é show!)

A família imperial dos Castro só quer uma vida melhor! É, querem consumir bens melhores. Simples assim.

Muita gente acha contraditório – e, de certo ponto-de-vista, é mesmo – um sujeito apoiar Fidel Castro e, ao mesmo tempo, reclamar do bloqueio comercial dos EUA (que parece ter chegado ao fim no apagar das luzes da administração Obama).

Ideologicamente, claro, é um nó. Mas a Ciência Econômica, quando separa o seu lado positivo do normativo, é capaz de explicar o aparente paradoxo. A questão é bem simples: mais comércio significa mais bem-estar! Adicione a isto uma pitada de Public Choice e você verá que há bons motivos para que ditadores adorem comércio.

Veja, por exemplo, como países notoriamente não-democráticos (no sentido moderno) se beneficiaram do comércio. O pesquisador Nuno Palma, em seu: Sailing away from Malthus: intercontinental trade and European economic growth, 1500–1800, publicado na Cliometrica de Maio deste ano, mostra-nos que:

What was the contribution of intercontinental trade to the development of the European early modern economies? Previous attempts to answer this question have focused on static measures of the weight of trade in the aggregate economy at a given point in time, or on the comparison of the income of specific imperial nations just before and after the loss of their overseas empire. These static accounting approaches are inappropriate if dynamic and spillover effects are at work, as seems likely. In this paper, I use a panel dataset of 10 countries in a dynamic model that allows for spillover effects, multiple channels of causality, persistence, and country-specific fixed effects. Using this dynamic model, simulations suggest that in the counterfactual absence of intercontinental trade, rates of early modern economic growth and urbanization would have been moderately to substantially lower. For the four main long-distance traders, by 1800, the real wage was, depending on the country, 6.1–22.7 % higher, and urbanization was 4.0–11.7 percentage points higher, than they would have otherwise been. For some countries, the effect was quite pronounced: in The Netherlands between 1600 and 1750, for instance, intercontinental trade was responsible for most of the observed increase in real wages and for a large share of the observed increase in urbanization. At the same time, countries which did not engage in long-distance trade would have had real wage increases in the order of 5.4–17.8 % and urbanization increases of 2.2–3.2 percentage points, should they have done so at the same level as the four main traders. Intercontinental trade appears to have played an important role for all nations that engaged in it, with the exception of France. These conclusions stand in contrast to the earlier literature that uses a partial equilibrium and static accounting approach.

Prestou atenção nos números? Pois é. Nem vou grifar ou comentar.

Eu arriscaria dizer mais. Diria que, em democracias, mais comércio é sempre bem-vindo. Já em países menos democráticos, as tentativas de limitar as liberdades civis (e, portanto, individuais) de boa parte da população (exceto, claro, as das elites governantes) em conjunto com liberalizações econômicas geralmente criam mais distorções do que as resolvem, pelo simples fato de que é impossível para um ser humano controlar os fluxos de trocas individuais (surgem os mercados negros, pessoas negociam ilegalmente com oficiais das alfândegas, etc).

Hayek bem nos ensinou sobre a necessidade de sermos menos pretenciosos quanto às variáveis que podemos controlar (Friedman disse algo similar sobre a política monetária) e continuo achando seu insight importante…o que não significa que um governo não possa adotar uma política (há um papel para o governo, claro) de abertura comercial, por exemplo.

Alilás, você sabe o que é cliometria? Sabe como fazer pesquisa na área? O Leo Monasterio responde, neste ótimo bem público (gerado privadamente pelo prof. Cajueiro).

Mais Pareto-mito!

Ah sim, e o Pareto-mito ainda nos diz mais:
“Aperfeiçoar uma teoria é diferente de querer destruí-la por tolas e pedantes sutilezas; o primeiro trabalho é uma coisa sensata e útil, o segundo é coisa pouco razoável e vã, e quem não tem tempo a perder faz melhor se não cuidar disso”. [Pareto, V. Manual de Economia Política, Abril Cultural, 1988, 3a ed, p.85]
Muita gente, propositalmente, quer destruir e, de má fé, diz que está aperfeiçoando. Eu sei, eu fui aluno de gente assim.
p.s. vou fazer uma camisa com a foto do Pareto e escrever “Paretão das massas” o que, dado que ele era italiano, fica deliciosamente ambíguo.  ^_^

Pareto já tinha intuição econométrica…

Nós não conhecemos, não podemos jamais conhecer um fenômeno concreto em todos os seus pormenores; há sempre um resíduo. [Pareto, V. Manual de Economia Política, Abril Cultural, 1988, 3a ed., p.15]

Outro ótimo trecho (p.19):

Erra-se, pois, redondamente quando se acusa quem estuda as ações econômicas – ou o homo oeconomicus – de negligenciar  ou mesmo de desdenhar as ações morais, religiosas, etc. – isto é, o homo ethicus, o homo religiosus etc. – ; seria a mesma coisa que dizer que a geometria negligencia, desdenha as propriedades químicas dos corpos, suas propriedades físicas, etc. Comete-se o mesmo erro quando se acusa a Economia Política de não levar em conta a moral, como se acusássemos uma teoria sobre o jogo de xadrez de não levar em conta a arte culinária.

Quanta bobagem já foi dita por não se entender estes alertas simples…

Estupidez humana

Bom dia para você que acordou inspirado. As dicas para entender a figura acima são: esta, esta e a versão brasileira, fortemente correlacionada às cinco leis de Cipolla, famosa na academia brasileira, que se encontra neste livro do Leo (a regra dos “dois desvios-padrões”).

A Petrobrás, motéis e restaurantes… – momentos curiosos do pensamento econômico brasileiro (e brasilianista)

baer_kerstenetzky_villela

Pois é. Juro que não sei o que se passou pela cabeça de Werner Baer, Isaac Kerstenetzky e Annibal Villela quando escreveram este trecho da conclusão de seu artigo sobre o papel do estado na economia brasileira em 1973. Olha que se trata do final do artigo, uma seção chamada Tendências Futuras.

Tem horas que penso que talvez só Freud explique… ^_^

Boa retórica – Winston Fritsch e a maximização sob restrição

No A Ordem do Progresso (edição de 2014), em seu capítulo terceiro, Winston Fritsch diz, com propriedade, em sua crítica à historiografia tradicional (resumida em duas abordagens):

Todavia, por assentarem seus argumentos essencialmente em uma visão idealista do processo histórico – onde as opiniões dos gestores das políticas são apresentadas como evidência principal da tese – , esses trabalhos não fornecem uma explicação convincente das motivações econômicas para as políticas ortodoxas efetivamente adotadas (…).

Em seguida, ele fecha com chave de ouro, dizendo que o problema das abordagens tradicionais é que:

(…) isto decorre em grande medida do fato de que ambas ignoram as importantes restrições impostas aos gestores da política macroeconômica (…).

Sim ambas na página 47 do dito livro (última edição).

Claro, gostei deste início de capítulo por um motivo: a retórica de Fritsch (meio exagerada no rebuscamento, mas vá lá) é muito boa. Ele apresenta sua visão como uma alternativa melhor fundamentada no que é básico para qualquer economista: ações não são frutos, simplesmente, de desejos ou preferências, mas das mesmas sob as restrições da realidade.

Pode até ser que sua interpretação não receba o “carinho” da evidência empírica, mas a retórica é boa. Para quem está escrevendo uma monografia ou uma tese, esta é uma boa lição de retórica atraente (e lembre-se de que a banca tem que ser seduzida para começar a ler seu trabalho, mesmo que ele seja um pequeno artigo…).