Receitas e gastos públicos: como os privilégios explicam o problema

Esta semana foi polêmica por conta das discussões sobre o aumento do imposto na gasolina. Isto me fez lembrar…

Quando o estão chefe da Receita, Osiris Lopes Filho, obrigou os integrantes da seleção a declarar o que traziam, Teixeira e os jogadores aemaçaram devolver as medalhas do título conquistado, presentes de Itamar Franco, e não participar dos desfiles programados para festejar a Copa. Branco chegou a entregar a taça conquistada, uma réplica, ao fiscal da Receita, dizendo: “Toma, pode confiscar”. Muito antes desse episódio, quando a Copa ainda estava em andamento, Teixeira havia pressionado o governo Itamar a aliviar a fiscalização da Receita, alegando que os jogadores estavam ficando “nervosos” com a possibilidade de serem autuados na volta – uma óbvia chantagem. Osiris foi afinal desautorizado pelo ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, e pediu demissão no dia seguinte. No episódio, os jogadores saíram como muambeiros – para 70% dos brasileiros, segundo pesquisa, eles tinham de pagar os impostos devidos – e o governo apareceu como fraco e hesitante, uma marca da administração Itamar. [Guterman, Marcos. O futebol explica o Brasil, Contexto, 2009, p.246]

É por essas e outras que o Brasil é conhecido como o país dos privilégios.

A função de produção Cobb-Douglas é…de Wicksell

wick2Provavelmente isso é ignorância minha, mas algum professor me disse que a função de produção Cobb-Douglas havia sido inventada por ambos. Então, agora, tentarei me redimir com qualquer um que tenha ouvido de mim que Cobb e Douglas foram os caras que criaram a função.

Hoje, conversando com alguns alunos após o final da aula, discutíamos a elasticidade de substituição constante e o assunto ficou em minha cabeça (quando aluno quer discutir um tema divertido, a gente acaba prolongando os pensamentos na direção do tema).

Em casa, ao ler o bom e velho Brems (Quantitative Economic Theory – A Synthetic Approach), um livro de 1968 que sempre me acompanha, vi que o correto é que Cobb e Douglas foram os primeiros a estimar a função (o artigo clássico está aqui). Adivinhe quem propôs a função?

Conforme Brems, foi ele! Quem? O homem da regra da unanimidade (que Buchanan reputava como um dos pais da Public Choice), o cara dos insights sobre taxa de juros natural. Sim, ninguém mais, ninguém menos que…Knut Wicksell (o nome que está impresso na minha camisa da seleção sueca ^_^).

De fato, como indicado por Brems, na p.128 do clássico livro de Wicksell, você encontra a funçãozinha. Fui lá conferir e…bem, olha ela aí embaixo, toda serelepe.

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Momento R do Dia – belo exercício para replicação (quebra estrutural e aquecimento global)

Este é um dos mais didáticos posts que já vi para replicação em R. Talvez as conclusões sofram com estes dados de baixa frequência, mas o exercício é didaticamente bem descrito).

Novamente o terrorismo

Com tantos “especialistas” de fêiçibúki, talvez o gráfico abaixo nem faça tanta diferença assim, né?

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De qualquer forma, ele está neste estudo recentíssimo do Cato Institute. O que temos? Bem, alguém poderá dizer que há uma mudança de tendência em 2009, no caso de ataques terroristas não-islâmicos, embora pareça haver algo similar no caso dos ataques islâmicos. A diferença de médias é gritante, mas eu ainda gostaria de ver o gráfico com as taxas de variação.

p.s. para quem gosta de análise de regressão, o apêndice tem lá um material para se divertir.

(Meta-)Erros Tipo I e II

De Netter, Marks R. An Applied Statistician’s Creed (publicado em Journal of the Royal Statistical Society, Series C, v.45, n.4, vem a tabela mais engraçada da Estatística (até agora, para mim).

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Agora imagine os erros tipo I e II sobrepostos nesta divertida tabela. ^_^

Demanda por ingressos de futebol (exemplo para aula de Econometria)

Este é um post sem maiores pretensões. É apenas um exemplo de variáveis instrumentais em Econometria para ser usado em sala de aula. O objetivo é discutir o uso de uma variável instrumental com base em uma amostra de países que fez parte de uma matéria jornalística sobre o preço dos ingressos de futebol no Brasil, lá em 2013.

A matéria apresenta uma tabela interessante que nos dá a possibilidade de pensar em uma estimativa de curva de demanda por ingressos de futebol. Há diversos problemas importantes. Primeiro, o preço médio do ingresso parece (embora não esteja claro) ser mensal. Segundo, a amostra não parece ser nada aleatória, mas motivada por algum critério que desconhecemos. Terceiro, não sei se os valores em reais foram ajustados para as inflações do Brasil e dos respectivos países cujos dados formam a tabela.

Mesmo assim, vou tentar ilustrar o problema econométrico aqui. Trata-se do fato de que temos apenas a quantidade vendida (portanto comprada) de ingressos (a cada mês), logo, temos o ponto de equilíbrio das curvas de oferta e de demanda. Como obter uma curva de demanda a partir disto? Precisamos de um instrumento que desloque apenas a curva de oferta, o que nos ajudaria a identificar a curva de demanda.

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Assim, procurei algo que geralmente impacta apenas a oferta. Escolhi a precipitação média anual de chuvas. A idéia é que as preferências dos consumidores não seriam afetadas pelo mau tempo, mas a oferta de ingressos sim (estou supondo que os clubes baixarão os preços de venda para atraírem mais consumidores em dias chuvosos).

Pode não ser o melhor instrumento do mundo (e este é um bom debate para outro dia), mas como a idéia é só ilustrar o método em sala de aula (terei que gastar um pouco mais de tempo em sala, claro), aí vai o resultado utilizando o bom e velho Gretl.

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Observamos uma elasticidade-preço unitária, o mesmo valendo para a elasticidade-renda. O resultado é bastante limitado (além do que eu disse lá em cima, há o fato de termos apenas 16 observações…), mas poderemos ver em sala de aula que o teste de sobre-identificação (o teste de Sargan) nos diz que o instrumento utilizado está ok.

Eu sei que não é o melhor exemplo de economia do futebol que alguém poderia fazer, mas como exemplo para uma aula de variáveis instrumentais (cuja utilidade estou longe de ter explicado aqui, eu sei), até que ficou um exemplo simpático.

Suspensão à carne brasileira nos EUA? Que ótimo! Menos exportação de produtos de baixo valor agrega…não, espera…não é bem isso…

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A manchete acima me faz pensar: por que alguns supostos economistas não estão comemorando? Afinal, para alguns – que não ensinam mas, antes, deseducam, – o importante é que o país só exporte produtos de alto valor agregado.

Subitamente, após a manchete acima, os – outrora corajosos – defensores desta esdrúxula tese sumiram. Estranho, já que deveriam estar comemorando nas ruas. Afinal, carne não é ipad, né? Claro, eles têm medo de perderem seus clientes de consultoria (alguns) ou sua platéia cativa.

Talvez, no fundo, vários (mas não todos) deles saibam que estão errados.

Eis o momento caridoso do blog: como nem sempre é fácil perceber a falácia que se esconde aqui, aí vai uma dica. Nos slides 12 a 30 (principalmente, mas vale a pena ver tudo) deste arquivo você consegue se livrar deste horrendo preconceito.

Divirta-se.

p.s. acho que vou almoçar um bife.

A maligna Ciência Econômica: o caso do ‘ovebooking’

A figura é de um livro de Economia cuja edição recente pareceu-me melhor. Note que a discussão é sobre o overbooking ótimo, ou seja, é preciso livrar-se de preconceitos antes de começar a leitura.

Algumas aulas sobre o tema aqui e aqui.

Economia Solidária, versão nazista

O SD sustenta posições demasiado dogmáticas, com a finalidade, nas palavras de seu próprio chefe, de inserir a economia ‘num contexto étnico’. Ohlendorf entende por isso a implantação de uma economia ‘societal’ (…), isto é, völkisch[,] uma economia em conformidade com o determinismo racial. Por mais absconso que possa parecer esse programa, ele encontrava uma materialização perfeita no debate econômico nazista. Contra o modelo tecnocrático produtivista de Speer, de um lado, e contra o que Ohlendorf chamva de ‘as correntes coletivistas do Partido’, de outro, este último defendia uma ‘linha favorável à classe média’, nas palavras de seus adversários, o SS-Sturmbannführer d’Alquen, redator-chefe de Das Schwarze Korps. [Ingrao, C. (2015) Crer & Destruir – os intelectuais na máquina de guerra da SS nazista, p.147]

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– É, eu queria uma economia mais solidária, de acordo com os preceitos do meu partido. Deu no que deu.

O trecho acima me fez lembrar de propagandistas políticos que sempre tentam dizer que sua proposta não é nem radicalmente individualista e nem radicalmente coletivista. Também me fez lembrar o conceito vazio de cabeça-de-planilha que se pretende uma ironia com a visão de cálculo econômico racional.

Além disso, o trecho me faz pensar que existem, independentemente do espaço e do tempo, sempre, indivíduos tentando justificar seu bem-estar (na forma de poder e influência, como no caso de Ohlendorf) com termos que sempre me remetem ao famoso teorema do eleitor mediano. Incrível como é (quase?) uma regularidade…

p.s. o livro é bem chatinho (algo no estilo do autor não me agradou, mas não sei bem descrever o que é), mas informativo.

O professor de economia ranzinza (ou socrático)

Fullscreen capture 742014 110234 AM– Professor, o senhor acha que eu devo fazer Economia?
– Não sei. Leia aquele pequeno livro do Gustavo Franco, Cartas a um Jovem Economista, e decida-se.
– Não, não. Eu quero a sua opinião.
– Por que você quer a minha opinião? Não pode ser a sua?
– É que ela é importante para mim.
– Por que ela é importante para você?
– Porque o senhor tem anos de estudo.
– Então peça a opinião de um destes estudantes profissionais do movimento estudantil.
– Mas eles não são professores.
– Ser professor de Economia não significa que sou especialista em carreiras.
– Mas o senhor é uma figura importante.
– Relativo a que?
– Como?
– Sou importante relativo a que, exatamente?
– Em relação à Economia.
– Como você sabe? Você não fez Economia.
– Mas me disseram, professor.
– Sim, mas você acha que tudo que te dizem é importante?
– Não, claro que não.
– Como você faz para se decidir?
– Eu seleciono, uso minha cabeça!!
– Mas como você seleciona?
– Eu tenho um critério, né, professor? Peso prós e contras, vejo o que me deixa mais confortável comigo mesmo.
– Mas você faz isso 24 horas por dia?
– Não, tento fazer meu melhor possível.
– Sim, e me perguntar, agora, sobre seu futuro profissional é seu melhor possível?
– Não sei, acho que sim…tem certeza de que não o incomodo?
– Não me incomodo ao discutir com pessoas que buscam mais conhecimento.
– Então porque não me responde?
– Porque interromperia sua busca de conhecimento.
– Mas assim nunca terei uma resposta, professor!
– Ou talvez já a tenha e só precise percebê-la, apreendê-la.
– O senhor fala por enigmas?
– Não falaram para você que eu era professor e isso não o fez me procurar?
– Sim, é verdade. Mas porque não responde se eu devo ou não fazer Economia?
– Como vou saber o que você deve ou não fazer? Não sou você.
– Mas o senhor conhece muitos como eu.
– Como você “como”?
– Ah, da minha idade.
– Ricos? Pobres? Que estudaram no mesmo lugar?
– Como vou saber, professor, em média…
– Como assim em média? Qual é a média de cada riqueza, ambiente familiar, etc?
– Ah, não sei, professor, mas o senhor entendeu, né?
– Não sei. Como saberei se estou te entendendo?
– Boa pergunta, professor.
– Como a sua.







– Professor, acho que vou fazer Economia.

Os Dez Mandamentos…da Econometria

Antigo artigo do falecido Peter Kennedy, autor do melhor guia “aplicado” de econometria. Merece tradução?

The Ten Commandments of Applied Econometrics

1. Thou shalt use common sense and economic theory.
Corollary: Thou shalt not do thy econometrics as thou sayest thy prayers.

2. Thou shalt ask the right questions.
Corollary: Thou shalt place relevance before mathematical elegance.

3. Thou shalt know the context.
Corollary: Thou shalt not perform ignorant statistical analyses.

4. Thou shalt inspect the data.
Corollary: Thou shalt place data cleanliness ahead of econometric godliness.

5. Thou shalt not worship complexity.
Corollary: Thou shalt not apply asymptotic approximations in vain.
Corollary: Thou shalt not talk Greek without knowing the English translation.

6. Thou shalt look long and hard at thy results.
Corollary: Thou shalt apply the laugh test.

7. Thou shalt beware the costs of data mining.
Corollary: Thou shalt not worship R
2.
Corollary: Thou shalt not hunt statistical significance with a shotgun.

8. Thou shalt be willing to compromise.
Corollary: Thou shalt not worship textbook prescriptions.

9. Thou shalt not confuse significance with substance.
Corollary: Thou shalt not ignore power.
Corollary: Thou shalt not test sharp hypotheses.
Corollary: Thou shalt seek additional evidence.

10. Thou shalt confess in the presence of sensitivity.
Corollary: Thou shalt anticipate criticism.

Corollary: Thou shalt not worship the 0.05% significance level.

Piadinha econométrica do dia

lucasSuponha um experimento (quase-)natural em que um país (ou um conjunto de países), subitamente, adote uma tecnologia de implementação/avaliação de políticas públicas feitas com regressões descontínuas, desenhos de experimentos, diff-diff, pareamento, enfim, todos estes métodos que estão em voga (sim, com instrumentos bons, escolhidos segundo os testes mais parrudos da literatura, etc).

Suponha também que um economista (ou um grupo de economistas) resolve medir o impacto no bem-estar das pessoas gerado por esta mudança usando esta mesma tecnologia e descobre que, na verdade, nada daquilo gerou impacto algum. Nada, zero, nadinha (já considerando questões de validação externa e interna, etc).

Pergunta malvada: um artigo com estes resultados seria publicado num journal top de linha ou seria boicotado pela academia por anos e anos? ^_^