Os livros de 2018

Uma lista dos livros lidos (ou em andamento) ordenados por preferência.

1. Small wars, big data: the information revolution in modern conflict (Eli Berman, Joseph Felter & Jacob H. Shapiro)

2. Bussunda – a vida do casseta (Guilherme Fiúza)

3. Escravos (Leandro Narloch)

4. Guia Politicamente Incorreto da Política Brasileira (Rodrigo da Silva)

5. Universal Economics (Armen Alchian, William R. Allen)

6. Institutional and Organizational Analysis (Eric Alston, Lee J. Alston, Bernardo Mueller)

7. Hugo Chavez – o espectro (Leonardo Coutinho)

8. Stubborn Attachments: A Vision for a Society of Free, Prosperous, and Responsible Individuals (Tyler Cowen)

9. Radical Markets: Uprooting Capitalism and Democracy for a Just Society (Eric A. Posner, E. Glen Weyl)

10. The Case against Education: Why the Education System Is a Waste of Time and Money (Bryan D. Caplan)

 

 

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Esta era do “machine learning” está sensacional: o caso da literatura clássica japonesa

Sem mais delongas, eis o artigo. Em resumo: dado o caráter quase impenetrável dos Kanjis cursivos, livros e documentos de 150 anos atrás seguem ilegíveis para a maior parte dos japoneses alfabetizados. O esforço dos pesquisadores consiste em construir uma espécie de tradutor usando machine learning.

Viva o Macaco Tião!

Os cassetas lançaram a candidatura do Macaco Tião à prefeitura do Rio de Janeiro (quem é mais velho se lembra), num sensacional lance de humor. Aí…

Em artigo no ‘Jornal do Brasil’, a deputada estadual Heloneida Studart, do PT, relacionava a iniciativa do ‘bando de gaiatos’ às ‘forças reacionárias’ que queriam desestabilizar a Constituição. Pedia aos democratas que não tivessem ‘complacência com essas piadas de voto nulo’. Um grupo de candidatos a vereadores liderado pelo professor Chico Alencar, também do PT, iniciara uma campanha contra a anulação do voto. [Fiúza, G. Bussunda – a vida do casseta. Editora Objetiva, 2010, p.144]

As preocupações de gente como Heloneida Studart e Chico Alencar mostram como alguns políticos (e juízes, cidadãos, etc) possuem uma dificuldade na apreciação do humor e da liberdade de expressão.

Mais médicos, mais sigilo, mais câncer

Eis uma história de médicos cubanos, erro médico e ditaduras latino-americanas…

Quando os primeiros sintomas do câncer começaram a se manifestar, em janeiro de 2011, Chávez negou-se a fazer os exames pedidos.

(…)

Em nome do controle absoluto das informações, Chávez entregou sua vida nas mãos dos cubanos. Ele foi submetido a uma série de exames no Centro de Investigaciones Médico Quirúrgicas (CIMEQ), considerado o melhor hospital do país e especializado em atender a elite chavista ou turistas dispostos a pagar pelo tratamento. Sob os cuidados dos mesmos médicos de Fidel Castro, ele foi diagnosticado com um tumor do tamanho de uma bola de beisebol, localizado entre o ânus e o saco escrotal. Avisado da descoberta, foi levado para uma sala de cirurgia e exposto a uma intervenção que, segundo os relatórios médicos, obtidos posteriormente, viria a seer sua sentença de morte.

Ao extirpar os tumores de cólon e próstata, os cubanos deixaram para trás grandes porções do tecido canceroso. O erro médico foi agravado pelo fato de que Chávez já apresentava um quadro de metástase, e a retirada da próstata nessas condições não era recomendável. [Coutinho, L. “Hugo Chávez, o espectro: Como o presidente venezuelano alimentou o narcotráfico, financiou o terrorismo e promoveu a desordem global. Vestígio, 2018, 1a ed, p.19]

A história fica mais bizarra quando o falecido ditador recorre a uma espécie de curandeirismo venezuelano e a um famoso místico brasileiro (o chamado “João de Deus”) no desespero para se curar. O dito cujo lhe receitava umas pílulas de maracujá e, a propósito, eis um trecho que ilustra a descrença das pessoas na alopatia (ou a crença em soluções místicas):

Mas as pílulas não poderiam ser classificadas como placebo, pois serviriam de veículo para a ação dos espíritos. Aqueles que creem nos poderes sobrenaturais de João de Deus explicam que as entidades espirituais que incorporam o médium direcionam para as cápsulas os efeitos necessários ao tratamento do paciente. [Coutinho, L. “Hugo Chávez, o espectro: Como o presidente venezuelano alimentou o narcotráfico, financiou o terrorismo e promoveu a desordem global. Vestígio, 2018, 1a ed, p.22]

Incrível, não? Eis aí mais um exemplo de irracionalidade racional (o tema de minha palestra, há algumas semanas, lá na FURG, citada neste blog…).

p.s. pela lógica dos “crentes”, imagino que os espíritos decidiram que o ditador merecia morrer.

Oferta e Demanda para seus alunos: exercício sobre médicos escravos e não-escravos

Suponha um mercado de consultas médicas. A situação inicial é a de um equilíbrio em que as consultas são menores do que as governalmente desejadas (não necessariamente o “governalmente” é sinônimo de “socialmente”).

a) Ilustre o equilíbrio inicial.

b) Suponha que os governos municipais ofereçam uma remuneração real contratual wª maior do que w de equilíbrio. Ilustre o impacto desta medida, ceteris paribus.

c) Após o item anterior, os médicos percebem que o contrato não é cumprido. Ilustre o que acontece, ceteris paribus.

d) O governo federal faz a seguinte proposta ao governo municipal: “- Nós temos médicos escravos que trabalham por menos do que o w de equilíbrio e nós vamos custeá-los. Caso você mande embora seus médicos caros, inclusive, pode substituí-los por estes novos, mais baratos”. Mostre o que acontece, ceteris paribus.

Interregno: os governos municipais não investem na melhoria da infra-estrutura, desperdiçando a economia com obras inúteis (uma hipótese razoável para o Brasil). Após alguns anos, novas faculdades de medicina surgem. A demanda e a oferta de médicos torna-se mais w-elástica em grande parte de sua extensão (a hipótese tradicional).

e) Após as eleições, o novo presidente acaba com o programa de médicos escravos. Parte deles vai embora e parte consegue sua liberdade ficando no país e validando seu diploma (suponha, aí sim, uma hipótese irrealista, que o custo de (re)validação é zero). O novo presidente resolve substituir os antigos médicos escravos por médicos brasileiros. Dado que novas faculdades abriram ao longo dos anos, o que acontece, ceteris paribus?

f) Como a infra-estrutura dos postos públicos de saúde não mudou ao longo do tempo, especule sobre a durabilidade dos novos médicos em suas novas posições. Discuta também o custo-benefício de se trocar médicos escravos por médicos com alta mobilidade (i.e., cujas famílias não são reféns de uma ditadura). Especule adicionalmente sobre a remuneração real (suponha, como em todos os itens anteriores, que não há inflação e/ou que a mesma tem efeitos desprezíveis).

Entregar no final da aula.

Economia dos Esportes: o efeito mando de campo, o Gre-Nal e o Bra-Pel

PaperCamera2017-05-13-10-53-42Após um bom tempo na fila para publicação, eis que nosso artigo sobre este tema tão caro aos esportes foi publicado. Ironicamente, a editoração copiou e colou duas vezes nosso agradecimento ao bolsista ficando ele, assim, duplamente citado (e agradecido), embora sejamos três autores.

O artigo tenta uma estratégia de isolamento de fatores para medir o chamado home field effect em dois clássicos do futebol do RS: o Bra-Pel e o Gre-Nal. É interessante que o mesmo periódico que publicou minha primeira incursão no tema da Economia dos Esportes seja o mesmo que publica este artigo, cerca de 13 (treze!!) anos depois. De lá para cá, eu e o Ari e mais alguns co-autores temos contribuído para esta jovem área de pesquisa no Brasil. Tem sido muito legal fazer parte disso.

“Não quero dados oficiais, quero coletar os meus próprios”

capturar-2Uma vez, na discussão da minha tese, meu co-orientador chamou um dos pesquisadores mais inteligentes de História Econômica que já vi, Jean-Laurent Rosenthal para me espancar. Em meio aos comentários, ele me disse algo como: “coletar dados é bom porque você não faz só as pesquisas que o governo quer”. Ele se referia ao fato de muita gente se acomodar com as bases de dados disponibilizadas oficialmente. Sim, esta foi uma lição que eu apreciei.

Digo isso porque agora há um livro novo na praça que eu recomendo para quem deseja saber como é coletar dados in loco. Muito além da opinião de “especialistas” que discutem o futuro das pessoas em uma cafeteria degustando um café de grãos selecionados ou sob os holofotes de um programa vespertino de TV. Trata-se do livro do Pery Francisco Assis Shikida.

Destaco o caráter empreendedor (Hayek!) do autor, ao buscar agregar informação dispersa em locais geralmente pouco agradáveis. Aos que não sabem, ele começou, mas nunca terminou, o curso de Sociologia na graduação o que parece me mostrar que há algo de auto-seleção (ou, para alguns, path dependence) na escolha da pesquisa.

Aliás, falando em Hayek e agregar informações…estudos similares aos do Pery, existem por aí. Para os EUA, por exemplo, há o estudo da economia das gangues (David Skarbek, salvo engano, orientando do Peter Boettke). O livro se chama: “The Social Order of the Underworld: How Prison Gangs Govern the American Penal System” e sua página é esta: . Imagino que algum orientando do Pery poderá trabalhar em tema assim no Brasil (se bem que os riscos…).

Só sei que se eu não ganhar uma cópia autografada, multiplicarei o conteúdo deste texto por “-1”. (atualização: minha ameaça surtiu efeito, mas ela era não-crível…)

Choques reais na política monetária

Sensacional, heim?

Bernanke came up with an ingenious solution. After being appointed chair of the Federal Reserve Board, he first created a system wherein each Federal Open Market Committee (FOMC) policymaker would forecast certain key variables, such as inflation and employment. Importantly, he asked policymakers to make their forecasts under the assumption of “appropriate monetary policy.” For each official, their long-run inflation forecast then revealed their actual policy preference. If a Fed official thought inflation would be 2 percent in the very long run, assuming optimal policy, then it was pretty clear that the official favored 2 percent inflation. Over time, it became clear that 2 percent inflation was indeed close to the consensus preference of Fed policymakers. 

After operating for a number of years under this regime, the media began to view 2 percent as the implicit Fed inflation target. That made it easier for Bernanke to later get Fed officials to agree to make official an inflation target of 2 percent (in 2012). 

Por que os escravos se revoltavam tão pouco nos navios negreiros?- A ideia de um projeto de tese para você

Artigo não tão novo assim. Eis o resumo:

Abstract
Given the substantial suffering of enslavement, why didn’t more slaves revolt during the Middle Passage of the Atlantic slave trade? We argue that the collective action problem was an important impediment to revolt. Revolts nearly always resulted in slave casualties, and crews tortured and killed conspirators. Overthrowing the crew benefited all of the slaves, so each slave had an incentive to free ride on others’ efforts to secure freedom. Using a rational choice framework, we argue that slaves could more effectively overcome the collective action problem when there were fewer slaves aboard, when there were fewer male slaves, and when the slaves were more homogenous. Data on slave voyages from 1750 to 1775 and archival and historical documents support these claims.

A inspiração do modelo teórico do artigo vem do famoso modelo da revolução racional, de Gordon Tullock. Ótimo, não? Ah, se alguém fez isso para o Brasil? Acho que não. Até onde entendi, os dados dos autores não incluem navios negreiros portugueses. Logo, esta é a dica do dia para sua tese.

 

A desigualdade pode ser melhor para todos?

Este artigo tem uma conclusão interessante: a melhor alocação (a mais eficiente) só ocorre no arranjo mais desigual. Nas palavras dos autores:

It is interesting to notice that, although distributive rules are created to solve distributive conflicts, at the end of the day the most efficient solutions to distributive conflicts are the ones associated with inequality in the distribution of output.

Desigualdade deve ser pensada de forma melhor do que apenas nos programas de TV, que geralmente apenas fazem proselitismo e fazem discursos sem base científica (e nem discutem as limitações científicas de estudos mais sérios).

O caminho brasileiro da servidão tem alternativa?

Eis minha apresentação no SIF promovido pelo Clube Farroupilha em Santa Maria. O tom é meio auto-biográfico? Não sei. Mas concordo que ficou um pouco.

Vários amigos importantes não foram citados nominalmente e espero não ter sido injusto com eles.

A mediação do Felippe Hermes foi muito boa. Pena que não tivemos muito tempo. Mas a minha mensagem está clara em duas citações que podem ser encontradas nos slides. Uma de Virginia Postrel e outra de Merquior.

Probabilidade de desemprego por faixa etária no Brasil

Olha o Texto para Discussão do Senado passando por você…

O resumo:

Em qual idade trabalhadores têm maior chance de ficar desempregado? Contrariamente ao senso comum, estatísticas da taxa de desocupação sugerem que são os mais jovens – não os mais velhos. Neste estudo, avançamos nesta questão estimando um modelo probit com correção de viés de seleção. Os resultados encontrados sugerem que a probabilidade de estar desempregado é decrescente com a idade até os 65 anos, para mulheres, e até em torno dos 50 anos, para homens. Este resultado tem implicações importantes para políticas de emprego – que devem combater a “epidemia” de desemprego entre jovens – e para discussões de reforma da Previdência, já que um dos principais argumentos contra uma idade mínima é a suposta prevalência de trabalhadores mais velhos entre os desempregados.

Interessante experiência de produção com dois autores ótimos que não conheço pessoalmente.