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O multiplicador fiscal keynesiano no Brasil é de…

…0.5 ou menos. Eis o trecho:

We find historical fiscal multipliers for Brazil around 0.5, larger than what existing literature typically identifies for the average emerging market. However, spending and public credit multipliers seem to have dropped to near zero since the global financial crisis, as the estimate for the whole sample period (1999−2014) is about ½ of that for pre-crisis years. By contrast, revenue multipliers have remained broadly stable. We conclude that fiscal consolidations based on expenditure and public credit retrenchment are likely to entail a modest drag on growth in the near term.

Na literatura, para os EUA, há o artigo da Valerie Ramey (Ramey, Valerie A. 2011. “Can Government Purchases Stimulate the Economy?” Journal of Economic Literature, 49(3): 673-85) em que encontramos:

This essay briefly reviews the state of knowledge about the government spending multiplier. Drawing on theoretical work, aggregate empirical estimates from the United States, as well as cross-locality estimates, I assess the likely range of multiplier values for the experiment most relevant to the stimulus package debate: a temporary, deficit-financed increase in government purchases. I conclude that the multiplier for this type of spending is probably between 0.8 and 1.5.

Ou seja, nossa tão festejada política fiscal espansionista anda bem menos eficaz do que pensávamos. Até nosso parceiro comercial que, supostamente, está em crise (não é o que parece, ultimamente…) está melhor do que a gente e olha que o multiplicador é baixo. Afinal, o que você aprendeu no livro-texto é que o multiplicador é maior do que 1 (um).

Ficou mais interessante agora, né?

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Y = C + I + G – T + X – M…e pronto!

Não tem jeito. Relações contábeis são relações contábeis. Quando acrescentamos às mesmas relações comportamentais, institucionais e tecnológicas, temos um modelo econômico. Claro, o modelo pode ser baseado em hipóteses as mais diversas. Entretanto, é bom levar em conta o que diz a realidade e a mesma nos diz que é difícil ver heterodoxo lambendo ou queimando dólares.

Bom, então estamos todos mais ou menos acordados: pessoas são racionais. Como se formula esta racionalidade é outra história. Também é outra história falar sobre como a racionalidade pode não ser sinônimo de equilíbrio em pleno emprego (basta microfundamentarmos uma rigidez aqui ou ali e pronto).

O prof. Franco publicou um artigo hoje, muito bom, sobre a nossa economia. Caso você não tenha percebido, este texto é a maior oportunidade para você terminar seu final de semana com um pouco mais de emoção do que o normal (quem aguenta estes programas de TV no domingo?). Talvez não seja o melhor momento para se estudar Economia, mas pegue um caderno e um lápis aí e veja como são as coisas.

1. A aritmética intertemporal e o efeito Barro-Ricardo:

O crescimento do endividamento familiar nos últimos anos trouxe preocupações com essa psicologia do “aqui-agora”, que pode ser associada ao consumidor de baixa renda, carente em educação financeira, incentivado a comprar e que facilmente se enreda em endividamento excessivo.

A má notícia é que nossas autoridades operam exatamente com a mesma lógica: desde que possam parcelar, qualquer dívida é aceitável.

A teoria econômica ensina que, se as finanças públicas são sustentáveis, a dívida de hoje são os impostos de amanhã e não há como escapar disso, ao menos em um país onde os governos não podem deixar bombas para os seus sucessores.

Ótimo ponto para você recordar a maravilhosa função consumo! Sabemos que as decisões importantes são mesmo intertemporais. Pelo menos para quem não tem restrições (ativas) sobre a restrição orçamentária. Mais ainda, sabemos que o governo não pode terminar dando o calote, logo, o efeito ricardiano é, sim, uma constante na vida das pessoas. Você pode não ser totalmente ricardiano, mas não é idiota (creio eu) de achar que não precisa pagar a conta no futuro. Claro, podemos falar de herança, altruísmo, mas, eis a má notícia: o governo (“nossas autoridades”) parece, ele sim, sofrer algum tipo de falha (falha de governo).

Bom, não que seja uma “falha” no sentido de que o governo está com defeito. Na verdade, a “falha” diz respeito ao fato de que o governo parece curtir (na linguagem facebookiana) a vida perigosa de endividamento. Ou porque segue um maligno ciclo político-econômico (“vou espantar a oposição na eleição com este estado calamitoso das contas públicas”), ou é ideologicamente um gastador (viva Stalin!), ou, enfim, é péssimo administrador. Obviamente, pode haver uma combinação convexa destas três hipóteses para nos explicar o comportamento do governo, mas isto fica a seu critério julgar.

2. Conta Corrente, sim, ela mesma:

A posição líquida é credora (US$ 260 bilhões) e maior que a dívida externa do setor privado (US$ 171 bilhões).

É uma situação inédita para nós e se deve à brutal acumulação de reservas, a qual, todavia, não tem propriamente a ver com superávits comerciais ou à nossa competitividade, mas com entradas de capital relacionadas à política monetária americana. Pouco importa, os efeitos são conhecidos, o BC vende dívida interna para arrumar os recursos para comprar esses dólares excedentes, ou seja, troca dívida externa por interna ao acumular reservas.

Ok, você estudou aqueles capítulos do livro que falavam da Conta Corrente, juros e câmbio, não? Veja aí a história de novo, apimentada com a atuação do Banco Central. O interessante é que a análise aqui inclui o resto do mundo (no caso, a “economia grande”, os EUA), que incentiva nossa acumulação de reservas. Aritmeticamente, nada demais. Entretanto, Economia não é Aritmética e o prof. Franco está correto em destacar o mecanismo de transmissão da política monetária norte-americana sobre nossa acumulação de reservas. No final da história, aquela história de “dívida externa e dívida interna” volta à discussão.

3. A negação da realidade:

Outro problema é que o conceito internacionalmente aceito é o de “dívida bruta” que, na metodologia do governo, está em 59% do PIB (incluindo as operetas com o BNDES), um número já não muito consistente com a classificação de risco soberano do país. Os especialistas preferem olhar para a dívida bruta, entre outras razões, porque não há como usar os dólares das reservas para pagar a dívida interna.

Mais outro problema é que as normas internacionalmente aceitas de contabilidade indicam que a nossa dívida bruta é maior: 68% do PIB. O ministro da Fazenda insiste em discordar do FMI nesse assunto, o que é mais ou menos como uma empresa listada questionar uma diretriz internacional de contabilidade.

(…)
Coisa parecida se passa no setor elétrico, onde parte significativa dos custos da “redução na conta de luz” ficou para o Tesouro. E também nos bancos públicos, toda vez que o crédito não é concedido de acordo com as melhores práticas bancárias ou os bancos são instruídos a apoiar “campeões”. Não há dúvida que os custos de muitas políticas públicas, cujo mérito sempre se pode discutir, ainda não foram contabilizados na dívida pública.

Aqui um tópico novo, que não aparece em livros-texto de Economia por um motivo óbvio: não faz sentido. Que tópico é este? Ora, ora, o ignorar da contabilidade. Não há o que conversar se o governo brasileiro desrespeita o sistema cartesiano ao fazer gráficos, as propriedades dos números reais ao fazer somas e a contabilidade ao…contabilizar seu déficit. Qualquer economista – até um heterodoxo sério – é incapaz de começar a trabalhar falsificando os números. Uma coisa é criar uma nova medida para o déficit, digamos: A + B – C. Outra é dizer que, agora, A é déficit, B é mais ou menos e C, que não existia, é parte do déficit.

Obviamente o tópico nos remete à questão da credibilidade do governo. Caso você ache que não faz sentido microfundamentar a macroeconomia, pare de ler aqui e vá tomar um suco. Mas se você acha que indivíduos importam quando falamos de credibilidade, então não adianta tapar o sol com a peneira: estamos vendo a destruição da credibilidade do setor público brasileiro pelo lado fiscal. Não é nada diferente das travessuras dos governos bolivarianos neste aspecto. O que é realmente engraçado é o silêncio dos contadores. Alguém aplique, por favor, uma prova do ENADE de Contabilidade para estes caras, antes que eles mudem até a lei da gravidade no Brasil.

4. Conclusão:

Bom, a conclusão aqui é minha (vai lá e leia o artigo, ora bolas). O texto fala de vários conceitos importantes: escolha intertemporal, efeito ricardiano, ciclos político-econômicos, conta corrente em uma economia com governo, credibilidade e reputação, enfim, tudo o que o sujeito já leu se fez um curso de Macroeconomia (ou 80 a 90% dele, eu diria). Não está lá citado o sistema de metas de inflação (se é que este moribundo ainda sobrevive…), mas não é difícil pensar nos problemas que a política monetária enfrenta com a política fiscal adotada por este governo que, não se engane, conseguiu chegar em ano de eleição (já estamos quase lá, certo?) em uma situação na qual terá contra si próprio (e por sua exclusiva culpa) uma inflação alta (não se engane com o “repetir a mentira a transforma em verdade” do governo sobre o teto da meta ser o centro da mesma) e, possivelmente, desemprego.

Gustavo Franco (o citado prof. Franco) resumiu bem o problema. Ou melhor, o tamanho do problema. Imagine o tamanho da solução…

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Multiplicadores

Nossos economistas brasileiros falam muito pouco do que interessa nestes tempos: o real impacto dos gastos públicos e/ou dos cortes de alíquotas sobre o crescimento econômico. Pois bem, eis algumas observações para os EUA. Uma, recentíssima, de Robert Barro e outra, sobre o problema da transparência dos gastos públicos.

Até agora, nenhum economista brasileiro – destes defensores fanáticos do aumento de gastos públicos – apresentou algo similar. Interessante é que se a economia brasileira for parecida com o que Barro descreve, o governo brasileiro pode ter conseguido algum crescimento não por conta do aumento de gastos, mas simplesmente pelo corte do IPI. Como sei disso? Não sei. Mas ninguém mais estimou mesmo. Então, por enquanto, é tudo chutometria.

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Onde está o multiplicador?

Em diversas ocasiões eu reclamei, aqui, da falta de senso dos economistas brasileiros. Dos políticos, claro, não espero nada por conta dos incentivos que os motivam. Geralmente, meus colegas reclamam da falta de análise de custo-benefício. Coisas do tipo: o governo propõe uma política, implementa-a e sequer analisa corretamente o resultado. Esta é a especialidade de muita gente lá na PUC-RJ, atualmente.

Contudo, minha queixa é anterior e específica a um único tópico: a política fiscal. No início da crise imobiliária norte-americana abundaram discursos sobre o “fim do capitalismo”, “o renascimento de Keynes” e outras baboseiras que não se sustentam, por exemplo, se você relê o próprio Keynes.  Mas o que me incomoda? A falta de simples estimativas de impacto. Onde estão os multiplicadores de renda, por exemplo? Qual a elasticidade-gastos do governo da renda agregada? Quanto, de fato, é gerado por um aumento no gasto do governo?

Alguns estudos já foram citados por mim, em uma tentativa de trazer alguma racionalidade a este debate que mais parece uma conversa de boteco – uma notável involução no discurso dos economistas da era da Silva. Há, claro, um componente da própria evolução da moderna Ciência Econômica que influi nisto – e que me foi lembrado pelo Selva recentemente: os incentivos à publicação acadêmica. Vale a pena, ao leitor interessado em entender melhor o problema ler este pequeno, mas profundo, texto de Bruno Frey.

Mas voltemos ao tema de hoje: os multiplicadores do gasto público. Após tanto tempo, eis que mais um artigo estuda o tema. Trata-se de Oliveira, Marques & Jacinto (no prelo). O foco é o gasto público local, ou seja, o estudo é sobre o impacto dos multiplicadores relativos aos gastos públicos locais. Acho o tema interessante e difícil. Vamos ao resumo do texto:

Este artigo estuda o papel da política fiscal local no crescimento econômico de cidades. Para este fim, o artigo apresenta um modelo espacial de crescimento econômico com governo, que incorpora as contribuições das teorias do crescimento endógeno e da nova geografia econômica. O modelo é avaliado empiricamente através de uma aplicação para as cidades brasileiras na década de noventa. Os resultados mostram que o governo local tem um importante papel no crescimento econômico das cidades, pois os investimentos públicos mostraram-se eficientes e afetaram positivamente o crescimento econômico. O artigo avalia a política de distribuição de recursos via fundo de participação de municípios e encontra efeitos positivos no crescimento econômico. Os resultados mostram indícios de gastos públicos ineficientes e de efeitos negativos da tributação local no crescimento econômico das cidades.

Promissor, não? Bem, os autores escolheram um belo tema e a abordagem da Nova Geografia Econômica está (mais) em moda desde o Nobel ganho por Paul Krugman.  Entretanto, alguns problemas: qualquer impacto que se queira medir, neste caso, restringe-se a uma amostra que parou em 2000. Na verdade, os dados são de dois segmentos de tempo: 1991 e 2000 (o famoso atlas do IDH…). É uma fonte legítima, mas as conclusões para depois de 2000 são sempre complicadas.  Eu seria menos otimista nas conclusões do que os autores, mas vamos lá.

Outro ponto é que a proxy utilizada diz respeito ao crescimento do salário médio em uma cidade. Embora haja um modelo teórico no texto que dá respaldo ao uso desta variável, eu não diria que há uma microfundamentação tal que se possa interpretar o salário como produtividade. Por exemplo, não se considera, nem teoricamente, nem no modelo empírico, a ação de sindicatos locais que, certamente podem impactar no salário médio de uma região.

Finalmente, embora os autores apresentem as seis regressões, senti falta da interpretação que, para mim, é a mais útil em termos de políticas públicas: qual o tamanho do multiplicador? Se os coeficientes estimados mostram algum impacto, tome-se, no artigo, o coeficiente do FPM na equação 6 da tabela 1: 0,0256. Se isto é uma elasticidade, é baixíssima, se não o é, também não é um multiplicador tão forte.  Mesmo com a separação de gastos produtivos e improdutivos (equações 3 e 4), não há muita diferença: o impacto no aumento de salário médio de um aumento do gasto do governo fica em torno de 0,02 (e não está claro que unidade de medida é esta).

Assim, eu gostei mais do título do artigo e de sua introdução do que dos resultados alcançados. Também senti falta de uma revisão da literatura que incluísse artigos publicados anteriormente para o Brasil sobre o tema. O próprio Jacinto, o meu colega Paulo Jacinto, tem artigo anterior sobre o tema. Isto sem falar em alguns textos que o leitor mais atento poderá encontrar nos links deste texto.

Louvável esforço, contudo. Mais um artigo em busca dos multiplicadores tão festejados pelos economistas do governo (lógico…), mas jamais encontrado com facilidade em artigos de quem faz pesquisa e não apenas discurso para a platéia. Novamente, se alguém tiver dicas de artigos sobre o tema, para o Brasil, pode depositar aí na caixinha de comentários.

p.s. a melhor leitura para se entender o que é o tal multiplicador é esta aqui.

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Banco Central pelo país, autoridade fiscal contra

Alex resumiu bem um debate que, na imprensa e blogosfera brasileira, geralmente toma tons ideológicos, religiosos e, portanto, inúteis para o entendimento da realidade: o debate sobre as políticas fiscal e monetária. Recomendo fortemente a leitura. Aqui, em diversos momentos, citei o problema da política fiscal e de como alguns interesses se faziam ecoar na imprensa por meio de críticas quase infantis à atuação do Banco Central brasileiro (“patinando”, “complô”, “anti-social”, etc).

É curioso lembrar que, justamente pela política monetária recente, temos uma situação menos perigosa do que a que teríamos se estivéssemos sob o arranjo monetário do governo Geisel, Sarney ou Collor, para citar apenas alguns. O criticado sistema de metas ainda nos mantém em situação melhor do que no resto do mundo. 

Verdade é que, lá fora, critica-se o sistema de metas. Gente de calibre muito maior do que muitos de nossos críticos debate melhorias no sistema enquanto, aqui, ainda é muito forte o vício da autoridade do jornalista (blogueiro) que nem sempre lê (ou entende o que lê) artigos científicos. Cabe ao leitor, claro, escolher o que é ou não artigo de qualidade por conta própria e, claro, com ajuda de gente boa.

Este blog não tem pretensões religiosas e nem recebe patrocínio do Banco Central. Mas também não concorda com críticas infantis.

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Artigo apropriado para o momento

Strategic Interactions between an Independent Central Bank and a Myopic Governmentwith Government Debt

Resumo:

We analyse optimal discretionary games between a benevolent central bank and a myopic government in a New Keynesian model. First, when lump-sum taxes are available and public debt is absent, we show that a Nash game results in too much government spending and excessively high interest rates, while fiscal leadership reinstates the cooperative outcome under discretion. Second, we show that this familiar result breaks down when lump-sum taxes are unavailable. With government debt, the Nash equilibrium still entails too much public spending but leads to lower interest rates than the cooperative policy, because debt has to be adjusted back to its pre-shock level to ensure time consistency. A setup of fiscal leadership does not avoid this socially costly outcome. Imposing a debt penalty onto the myopic government under either Nash or fiscal leadership raises welfare substantially, while appointing a conservative central bank is less effective.