Economia Solidária, versão nazista

O SD sustenta posições demasiado dogmáticas, com a finalidade, nas palavras de seu próprio chefe, de inserir a economia ‘num contexto étnico’. Ohlendorf entende por isso a implantação de uma economia ‘societal’ (…), isto é, völkisch[,] uma economia em conformidade com o determinismo racial. Por mais absconso que possa parecer esse programa, ele encontrava uma materialização perfeita no debate econômico nazista. Contra o modelo tecnocrático produtivista de Speer, de um lado, e contra o que Ohlendorf chamva de ‘as correntes coletivistas do Partido’, de outro, este último defendia uma ‘linha favorável à classe média’, nas palavras de seus adversários, o SS-Sturmbannführer d’Alquen, redator-chefe de Das Schwarze Korps. [Ingrao, C. (2015) Crer & Destruir – os intelectuais na máquina de guerra da SS nazista, p.147]

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– É, eu queria uma economia mais solidária, de acordo com os preceitos do meu partido. Deu no que deu.

O trecho acima me fez lembrar de propagandistas políticos que sempre tentam dizer que sua proposta não é nem radicalmente individualista e nem radicalmente coletivista. Também me fez lembrar o conceito vazio de cabeça-de-planilha que se pretende uma ironia com a visão de cálculo econômico racional.

Além disso, o trecho me faz pensar que existem, independentemente do espaço e do tempo, sempre, indivíduos tentando justificar seu bem-estar (na forma de poder e influência, como no caso de Ohlendorf) com termos que sempre me remetem ao famoso teorema do eleitor mediano. Incrível como é (quase?) uma regularidade…

p.s. o livro é bem chatinho (algo no estilo do autor não me agradou, mas não sei bem descrever o que é), mas informativo.

O papel do indivíduo e a diversidade da realidade frente aos planos governamentais

Entrevistado pela Nabuco, Antônio Risério tem uma resposta interessante a uma pergunta que, resumidamente, deseja saber do entrevistado se ele pensa que cidades planejadas por governos não estimulariam a população à passividade, no Brasil.

Diz ele (vou reproduzir trechos):

“Não acredito, a menos que a gente generalize isso para toda a humanidade. Em primeiro lugar, cidades ‘ideais’, cidades planejadas (…) pelo poder, existem no mundo inteiro (…), não é uma especificidade brasileira. Em segundo lugar, mesmo que fosse, eu não conseguiria nunca ter uma visão assim determinista. A esse respeito, sempre dou o exemplo do frevo: tínhamos bandas de músicas e capoeiristas no Rio de Janeiro e em Salvador, assim como no Recife. Mas por que só no Recife a capoeira e música se fundiram na configuração do frevo (…)? Sociologismo nenhum dá conta disso. Como sempre digo, condições sociais, econômicas, políticas e culturais não são por si mesmas suficientes (…). Em terceiro lugar, no caso das cidades citadas (Salvador, Rio, São Luís do Maranhão), o modelo estatal foi simplesmente abandonado, recusado até, pela população (…)”. [Nabuco, n.4, Maio/2015, p.42]

Ótimo, não? Bem, não sei nada sobre o frevo, mas o exemplo, supondo que o autor esteja correto, é interessante: os mesmos elementos básicos, em distintos territórios geográficos (será?) de um mesmo país dão origem a diferentes resultados. O leitor que me conhece sabe que já fico pensando em como instituições (micro-instituições, já que no mesmo país) e dotações geográficas poderiam nos ajudar a entender este problema, né?

Não dá mesmo para não pensar em história. Aliás, sobre isso, o mesmo autor é bem crítico. Digo, ele é bem crítico do que se faz na história brasileira, principalmente nas escolas. Para ele, a antiga história oficial foi substituída por outra, tão ruim quanto. Vou reproduzir, novamente, breves trechos:

“A velha história é a que cristalizou um discurso celebratório da colonização portuguesa. (…) Em seu lugar, impera hoje uma nova história oficial do Brasil – nova, mas igualmente oficial. (…) Tomou de assalto as salas de aula de colégios públicos e particulares, onde hoje professores se dedicam a contestar a idéia de um ‘descobrimento’ do Brasil, ao mesmo tempo em que capricham na retórica para denunciar um suposto ‘genocídio’ dos índios no Brasil, coisa que nunca aconteceu por aqui – as pessoas parecem se esquecer que guerras não são sinônimo de ‘genodício’, que significa extermínio étnico, coisa que a coroa portuguesa jamais aceitou nem praticou. (…) Para dizer de modo sintético, substituímos mentiras antigas por mentiras novas, tratando agora a história brasileira como um filme de bandido e mocinho que nada pode ter a ver com a complexidade do real histórico”. [idem, p.47-8]

Como se vê, estamos diante de alguém que não se curva a maniqueísmos. Parece-me que professores de História de colégio continuam praticando os mesmos erros do passado, o que é péssimo porque, ao chegarem à faculdade, os alunos têm um trabalho duplo. Afinal, não é só estudar o material que lhes passamos, mas também são obrigados a se livrarem dos preconceitos que aprenderam.

Parte disso é assim mesmo: nem todo professor de colégio faz um mestrado ou doutorado (ou um mestrado e um doutorado de qualidade, tanto faz, embora não exatamente). Mas poderiam pelo menos facilitar a vida dos colegas das universidades/faculdades que se esforçaram um pouco mais para entender a realidade antes de sair por aí falando sobre ela.

Para encerrar: este é um dos motivos pelos quais eu acho que você deveria assinar a Nabuco. ^_^

Bárbaros e Romanos

O Filisteu, novamente (após um longo tempo), publica uma resenha de livro. Desta vez, ele se superou. Eu vou ter que me segurar para não comprar o Terry Jones’ Barbarians. Trechos da análise dele:

(…) os romanos tinham o conhecimento necessário para começar uma Revolução Industrial, mas nunca juntaram todas as peças do quebra-cabeças. Mas do ponto de vista de Barbarians, não é nenhum mistério: os romanos nunca juntavam as peças. Os gregos estavam criando motores a vapor e até metralhadoras rudimentares, mas os romanos não levaram nada adiante. E as tecnologias sociais também se perderam. Os piratas que capturaram o jovem Júlio César, por exemplo, emergiram depois que os romanos eliminaram as patrulhas gregas no Mediterrâneo. E a imobilidade social era tão grande — depois de algum tempo, em vários casos os filhos eram proibidos de não terem a mesma profissão que os pais — que a falta de inovação não pode ser surpresa.

E também:

O livro detalha os vários modos como a história ocidental foi distorcida pela dependência excessiva de fontes latinas e de historiados com pressupostos espúrias. Assim, artefatos e construções celtas foram datadas como romanas porque eram mais sofisticadas, logo posteriores, logo romanas. Isso inclui centenas de minas de ouro e prata e diversas estradas na França, Alemanha e Grã-Bretanha.

Muito interessante. O mais legal é ver como a própria história (análise histórica) evolui, passando de um claro viés pró-Roma para algo muito mais rico, no qual bárbaros são mais estudados. O resultado? Maior conhecimento sobre o passado desta terrível humanidade.

Contra o mito

Esta entrevista mostra que há um problema muito sério na África. Ou houve. Em Moçambique, durante seus anos bolivarianos (na época, apenas chamado de “socialismo”), houve campos de reeducação. Isto quer dizer que afro-africanos massacraram afro-africanos da maneira mais sórdida possível: por tentativas de lavagem cerebral, como no livro 1984 de George Orwell.

Será que isto será ensinado no Brasil?

ComCiência – Essa é uma história da África que deveria constar do ensino que se propõe para o Brasil?
Thomaz –
O ensino da história da África é obrigatório hoje no Brasil, em diferentes níveis de ensino o que exige um esforço historiográfico sério, o que implica incorporar o trabalho de autores africanos e africanistas que estão trabalhando seriamente para recuperar uma história recente. Acho que temos que tomar cuidado no sentido de tratar apenas de uma África mitológica. Podemos tratar disso também, e é legítimo que os movimentos negros reivindiquem uma África mitológica. Mas, existe uma lei que tem que ser levada a sério e isso quer dizer não tentar fazer uma história de mocinho e bandido. A história da África é complicada, como de qualquer outro contexto. E não tem uma história da África, são histórias da África, são histórias nacionais e também regionais.

História e Geografia: Japão no século XVII

Muito se aprende sobre os funcionamentos dos mercados de uma época quando se estuda a história e a geografia. Ok, chamamos isto de história econômica hoje em dia. O mais bacana é achar mapas e descrições antigas, hoje, disponíveis. 

Embora o foco principal do blogueiro não seja a economia, seu post vale muito a pena.

Himmler salvou sua vida a um pequeno custo ou “Estudos arqueológicos sobre o planejador supostamente benevolente”

Há algum tempo eu coloquei, neste blog, meus agradecimentos ao Filisteu, por me indicar um livro sobre o uso da ciência na Alemanha nazista. Eu não havia tido tempo de continuar minha leitura mas, hoje de manhã, ao retomá-la, eu me deparei com uma incrível história: a dos dispositivos de segurança noturna em bicicletas.

Como todo mundo já deve ter reparado, uma das formas de se minimizar acidentes de trânsito com ciclistas é colocar aqueles pedacinhos coloridos de plástico (ou algum outro material) nos pedais. Bacana, não? Evita acidentes e deixa todo mundo feliz.

Pois bem, este dispositivo foi inventado por Anton Loibl, um militante nazista que era um maquinista e também professor de direção (uma espécie de instrutor de auto-escola da época, se é que existiam tais escolas…). Na verdade, houve outro alemão teve idéia similar mas, como não era chegado ao partido nacional-socialista, teve sua patente anulada.

Você pode se perguntar: será a ideologia tão poderosa assim que as pessoas não agem racionalmente, mas cegas pela fé em um Hitler?

Longe disto.

Na verdade, o contexto histórico era o seguinte: Himmler estava em busca de fundos para sua fundação cujo objetivo formal era pesquisar as origens da raça “superior” alemã e não queria fundos que pagassem impostos ou que dependessem de inimigos políticos do amalucado líder nazista. O que ele fez? Fez o que todo grupo de interesse faz quando deseja ganhar às custas dos outros: inventou uma desculpa “socialmente” bonita e mandou ver. Reproduzo o trecho em inglês mesmo:

“…in 1938 Himmler used his supreme authority as the head of the German police to pass a new traffic law. This required all new German bicycles to be equipped with Loibl’s reflective pedal.

German manufactures suddenly had no choice but to use Loibl’s design and pay licensing fees to the company owned by the inventor and the SS”. [p.140]

Eu sei, eu sei, você sempre pode dizer que políticos não se preocupam com mais ninguém além deles mesmos. É verdade, mas há uma diferença: no caso de estados socialistas (ou nacional-socialistas, tanto faz), o poder de coerção destes caras é muito maior. Vejam só, neste caso, como a análise de custo-benefício é insana: você tem menos mortes na estrada, mas as licenças de patentes ajudam a financiar pesquisas fraudulentas que, inclusive, incentivam muitas mortes nos campos de extermínio. A carga tributária e o peso morto, na verdade, formam uma notável união: o peso mortífero.

Bens públicos podem advir de intenções egoístas? Podem. Tanto que o mercado provê vários deles. A diferença é que quando alguém tem o monopólio da coerção, ele também possui o monopólio da distorção econômica, do poder de destruir a economia e as ações coletivas locais e, eventualmente, faz isto com um discurso parecido com o de nossos políticos quando afirmam estar preocupados com a sua ou a minha saúde.

A história é muito interessante. Pena que é tão mal analisada por nossos doutrinadores de esquerda.

A cultura…

Outro que fala de coisas similares ao que eu disse aqui, outro dia.

Trecho:

Nosso desinteresse, acho, é mais fruto da ignorância, que leva à indiferença, do que propriamente algum tipo de reação psicológica de fundo histórico pela condição de colonizados. Basta que alguém num grupo de amigos saiba um pouco de história para, rapidamente, todos ficarem interessados. E é sintomático que um jornalista brasileiro como Eduardo Bueno tenha se tornado um bestseller com livros sobre a história Brasil/Portugal.

Voltando à vaca fria, ou seja, a mim mesmo, é gozado ouvir brasileiros falando de brasileiros, brasileiros falando de portugueses e portugueses falando de brasileiros (vou contando o que ouvi ao longo dos textos para o blogue). Porque dificilmente me reconheço nas características. E não vai aqui qualquer traço de esnobismo (está bem, está bem, mas só um pouquinho). O fato de ter morado em várias cidades brasileiras tirou-me as raízes, aquela sensação de pertencer a algum lugar.

O primeiro parágrafo é perfeito. Somente os doutrinadores (supostos professores) de colégio dizem que é o negócio é se revoltar contra os imperialistas desde 1500. A moçada ouve isto, fica com preguiça, tenta ler alguma coisa, mas só encontra livros que mais lembram a coleção MIR de “o que é o capitalismo” e lixos afins ou então se depara com livros muito avançados (de nível universitário…para cima).

Se história fosse mesmo estudada, vários mitos da historiografia nacional seriam derrubados. E não me refiro apenas às mentiras da pterodoxia, mas também a muitos supostos autores (supostos estudiosos) do tema cujas teses ensebadas com muito palavreado que parece saído de uma sentença de um daqueles juízes amantes do parnasianismo jurídico, estão, quase sempre, erradas. Digo “quase” porque, por absoluto acaso, pode ser que o sujeito acerte. Mesmo a ignorância, claro, é um fenômeno aleatório. O sujeito pode ser um imbecil, mas eventualmente falará algo correto, por puro acaso.

Interessante texto este do Bruno.

A propósito, falando em cultura, encontrei a verdadeira ontem (deveria ter tirado uma foto!) de forma quase-espontânea na apresentação dos meninos do COPOM. Philipe (do Matizes), Juliano (do Preço do Sistema) e Pedro (do Homo Econometricum) e eu (daqui) estivemos em uma mesa de bar por quase duas horas. Creio que era 100% da blogosfera de economia de Belo Horizonte. Ou algo próximo disto. Vale a pena consultar o blog desta patota toda. Creio que todos os links estão na barra lateral aí à direita da sua tela.

Isto sim, é cultura.

Evolução da Macroeconomia

Acabei de ler o belo texto do Mankiw: Macroeconomist as a Scientist And Engineer. Mankiw descreve uma interessante trajetória do estudo da macroeconomia, passando pelas escolas e entrando no debate que estamos acostumados a ouvir (neo-clássicos vs neo-keneysianos). Recomendo a leitura a todos estudantes e interessados no assunto.

No texto, percebemos a evolução teórica e a contribuição de cada escola. Além disso, ele fala que o macroeconomista tem duas funções: o de cientista (desenvolve a parte teórica) e o engenheiro (utiliza a teoria para desenvolver modelos e assim aplicá-los).

Apesar de todo o avanço teórico, muito pouca coisa tem alterado na prática, segundo o autor. O modelo utilizado pelo governo Bush para avaliar o impacto do corte de impostos em 2001 e 2003, por exemplo, é baseado nos modelos de Klein, Modigliani e Eckstein da década de 1960.

Assim, muito pouco da evolução teórica dos anos 80 e 90, por exemplo, foram aplicadas modelos.

Outro ponto de vista que achei interessante no texto é o que é passado para agente (alunos) em sala de aula. Se formos pensar bem, o modelo IS-LM (e algumas de suas variações como o IS-LM-BP) é a base de muita coisa que vimos na graduação. Muito das evoluções recentes na macroeconomia são ignoradas pelos professores.

Quantas pessoas já viram o modelo IS-MP, muito mais relevante para países com metas de inflação? Eu vi. Sou um privilegiado, creio.

Mankiw fala que a maioria dos alunos estão mais interessados em serem engenheiros macroeconômicos a cientistas. Acho que realmente isso é verdade, vide o número de alunos que querem ir para o mestrado e Ph.D. Sendo assim, a ênfase em estatística e econometria nas universidades brasileiras não seria pequena?

Apesar de ter visto o Modelo IS-MP em sala de aula, por exemplo, não vi o modelo aplicado, ou seja, não vi como estimá-lo econometricamente.

Essas questões chamaram a minha atenção. E vocês, o que acham?