Domingo é dia de ir ao cinema

Pois é. E que filme eu gostaria de assistir? Não sei. Mas desconfio que cinema é um bom assunto para um post de economia aplicada (com, sim, dicas de R). Com a ajuda da MPPAJ, eu descobri algumas coisas interessantes sobre o cinema…no Japão.

new new celular3Sou de uma época em que filmes eram vistos, primeiro, no cinema e, muito tempo depois, na televisão. Aí veio o vídeo-cassete e, depois, o DVD (e o Blu-Ray) que diversificaram as opções da indústria de filmes (há filmes que, mesmo que não consigam uma sala para exibição, podem aparecer em DVD e, claro, há as produções exclusivas para a televisão como, por exemplo, o Battlestar Galactica Razor que nunca foi ao cinema).

Aliás, repare como é o processo de mercado (valhei-me, São Hayek!): originalmente, a indústria não tinha uma noção tão precisa de se o vídeo-cassete e o cinema seriam complementares ou substitutos. Claro que a tecnologia era usada para facilitar a vida de quem produzia programas de TV, mas os impactos do vídeo-cassete sobre o cinema não podem ser analisados de forma isolada. Bem, a história da tecnologia dos meios de comunicação nos diz que, penso eu, este é um dos setores mais imprevisíveis.

Na minha época, achávamos, por exemplo, que o vídeo-cassete era uma opção segura de assistir filmes em uma sociedade em que a violência nas ruas começava a aparecer como um problema para os nossos pais.

Você não estava lá…mas eu estava (exceto que era o Brasil, não o Japão)!

Como disse acima, quando surgiram estas inovações – começando com o vídeo-cassete – como é de se imaginar, o mercado de distribuição de filmes sofreu uma boa chacoalhada. Ainda era verdade que filmes saíam primeiro nos cinemas e, só muito depois, em fita. Mas aqueles mais pacientes intertemporalmente podiam escolher consumir o filme depois. Isto foi lá na primeira metade da década dos 80. Sim, leitor(es/as), a taxa de desconto intertemporal é uma variável importante! Em outras palavras, há pessoas mais impacientes (querem consumir logo!) e os pacientes. Aliás, nos EUA, editoras ganham um bom dinheiro lançando livros-texto de capa dura rapidamente e os de capa comum, com algum lapso de tempo: há quem pague mais para ter o livro em capa dura, creia-me.

Mas, voltando aos filmes – hoje é domingo, dia de cinema, não de estudar (para mim, tanto faz, mas…) – claro, o mercado no qual a mudança ocorreu primeiro foi o japonês (onde você acha que inventaram esta história de vídeo-cassete?). Vejamos o que dizem os dados do número de salas de cinema no Japão desde o pós-guerra.

moviesjapan

Percebe-se que a tendência foi de queda – não sem oscilações marcantes – desde o pós-guerra até mais ou menos a década dos 70. Com a chegada do VHS, a tendência de queda não parece ter se alterado, exceto que a queda ficou mais regular (no sentido de não apresentarem oscilações tão fortes). Será que a TV já concorria com o cinema? Duvido um pouco disto porque se há uma relação entre cinema e TV ela não é tão fortemente substituta (lançamentos de filmes não concorrem com a novela das oito ou com filmes antigos). Bom, mas vamos em frente.

O movimento de queda parece sofrer uma reversão nos anos 90. Muitos achavam que o cinema tinha morrido – este era o discurso dos meus amigos, aqui no Brasil – e os mais pessimistas vislumbravam um mundo de pessoas isoladas, vendo filmes em casa até que, ironicamente, surgiu a internet e o suposto “isolamento” foi solapado pelas “ameaças desconhecidas aos nossos filhos” que o novo meio de comunicação trouxe. Em outras palavras, ninguém mais temia o isolamento. Muitos antes pelo contrário. Assim, percebe-se no gráfico um ressurgimento das salas de cinema na terra de Akira Kurosawa. Parece legal, não? Godzilla ressurge?

Mais TV, menos filhos?

Não se esqueça que, além do vídeo-cassete, há que se considerar o público destas salas: por que abrir salas se não há público? Ou seja, como andou a população japonesa no período? Desde o pós-Meiji (era Taishou – 大正) até o período mais recente, você observa uma progressiva diminuição no crescimento da densidade populacional e isto não é porque japoneses estão emigrando: é porque a natalidade está estacionando, se não diminuindo). Veja só o gráfico da densidade…(caso ele não carregue, eis o link)

Densidade populacional

…e o da população (variação anual).

japao_pop

Queda livre depois da década dos 70, não? Em termos de ingressos vendidos, temos o seguinte gráfico:

ingressos

Bem, podemos ver que os dias gloriosos do cinema japonês são passado. O que temos é um renascimento bem mais modesto. Claro, eu não poderia falar destes gráficos sem citar o preço do ingresso e a a MPPAJ tem uma variável que é o “preço médio do ingresso”. Senta que lá vem gráfico!

ingresso

O comportamento do preço médio é de estabilização, não? Eu não deflacionei os dados (hoje é dia de ir ao cinema, né?), mas imagino que a figura geral de estabilização da média do preço não vai mudar muito. Além disso, em uma economia com população em “queda livre”, garantir a audiência do cinema não é algo que se consiga com aumento no preço do ingresso.

Bem, já faz uma hora que estou por aqui e nem sou especialista em mercado cinematográfico. Então, vamos fazer algumas poucas observações finais.

Econometria? Todo cuidado é pouco, e não me refiro à internet ou à TV!

Muito cuidado para não cair na tentação de fazer um diagrama de dispersão entre os ingressos vendidos e o preço médio. Isto não vai te dar uma curva de oferta ou uma curva de demanda. Por que? Porque o número de ingressos vendidos é exatamente o número de ingressos de equilíbrio. Assim, o que temos aí em cima são dados de equilíbrio.

Claro, seria possível tentar obter uma destas curvas indiretamente, usando alguma variável instrumental, mas isto é tema para outro dia.

Conclusão

Ok, eu poderia dizer que os interessados poderiam procurar um pouco de dados de cinema e encontrar alguma coisa para os EUA, mas aí já é ser muito cinéfilo (e eu não sou). Outro tema interessante é verificar a evolução dos filmes japoneses no Brasil. Nos anos 50 (até minha infância cujo período não revelarei…), havia cinemas exclusivos para a colônia lá em São Paulo. Há um bom livro sobre o tema e, bem, talvez eu analise alguns dados daquele livro para ilustrar outro aspecto do R ou da Econometria aqui mas…tudo a seu tempo.

Apêndice – Usando o R

Bom, quanto aos gráficos, vocês notaram que eu mudei o estilo dos mesmos. Usei o R (na verdade, eu praticamente migrei para o RStudio), como sempre. Só para você ter uma idéia dos comandos, eis alguns deles. Os pacotes usados foram lattice latticeExtra. Os dados foram copiados do Excel e colados no RStudio por meio dos seguintes comandos:

base <- read.table(file = “clipboard”, sep = “\t”, header=TRUE)

populacao<-read.table(file=”clipboard”, sep= “\t”, header=TRUE)

Como minha base não estava completa originalmente, você nota que tive que copiar partes da mesma e montá-la em meu ambiente de trabalho (eu tinha os dados de cinema, mas não a população). Segue um exemplo de como converter dados em série de tempo, usando a população.

pop<-ts(populacao,start=(1950),freq=1)
delta_pop<-pop[,2]
delta_male<-pop[,3]
delta_female<-pop[,4]

Para os dados de filmes e ingressos, fiz a mesma coisa:

series <- ts(base, start=c(1955), freq=1)
release_jap<-series[,3]
release_imp<-series[,4]
movie_screens<-series[,2]
total_release<-series[,5]
admissions_thousands<-series[,6]
boxoffice_million_yen<-series[,7]
admission_fee_yen<-series[,8]
jap_distrib_income_million<-series[,9]
non_jap_distrib_income_million<-series[,10]
jap_share<-series[,11]
non_jap_share<-series[,12]

Em seguida, com as bibliotecas citadas, usamos o comando asTheEconomist que gera gráficos como os da revista The Economist (obviamente…). Veja, por exemplo, nosso último gráfico.

asTheEconomist(xyplot(window(admission_fee_yen, start = 1970),
main = “Preço médio do ingresso (Yen)”, sub = “Ano”))

UPDATE

É terrível! Eu abro a caixa de emails e aí encontro uma notícia sobre um dos melhores diretores de cinema japonês…após publicar o post. Bom, já falei dele aqui.

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