A divisão do trabalho funciona e ainda promove interações sociais (in)esperadas: o caso do arroz

When Tsutomu Murashima opened his restaurant in 1963, he left the main cooking chores to his wife so he could focus on his specialty, fixing the rice. The method he developed produced a soft-textured rice that was so good it earned him a reputation in the business as a “wizard of rice.”

Outro ótimo trecho:

But he found “the Chinese people place accompanying dishes on top of the rice to season it. Their preference with regard to sticky rice is different from the Japanese.”

Sem falar que, agora, até os chineses querem saber como ele cozinha. Leia lá na notícia.

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A especialização é um mal ou um bem? Um teste simples!

Todo mundo que assiste ao filme “Tempos Modernos” sai por aí falando mal de Adam Smith, da divisão do trabalho e da especialização. Eis um bom teste para ver até onde você mantém esta crença irracional (no sentido que lhe dá Bryan Caplan): você gostaria de se tratar com um médico como o do anúncio abaixo…

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…ou prefereria algo mais parecido com o catálogo de especializações do seu plano de saúde? Pode supor a mesma tecnologia de hoje, sem problemas, mas digamos que você está com problemas urinários. Prefere o urologista ou alguém que faz de tudo um pouco? Boa sorte com sua escolha!

p.s. sim, o anúncio está na Hemeroteca Digital e o jornal é o Radical Paulistano (10/05/1869) e agradeço ao Renato Colistete por me fazer voltar a este site ótimo após tanto tempo.

Lógica dos mercados ou lógica das pessoas – A Divisão do Trabalho e a Tecnologia

Os meus quatro leitores devem estar se lembrando, entre umas e outras biritas carnavalescas, deste artigo no qual busquei explicar a lógica das pessoas. O final daquele texto mencionava a divisão do trabalho. Ao contrário do que alguns pensam, não existe Terra Plana, serpentes no oceano ou conspiração judaico-cristã que tenha criado a divisão do trabalho. Ela surgiu simplesmente, para o desespero dos neuróticos que enxergam fantasmas em guardanapos de papel.

Ter surgido naturalmente significa que é a melhor forma de se fazer as coisas? Sim e não. Sim, porque o resultado da cooperação (alguém pegue o dicionário: cooperação = voluntária) social, não sendo fruto de coerção de alguns por outros, não enfrenta resistências significativas por parte da sociedade. Claro, sempre existirá, digamos, um escravocrata que gostaria de ver outra divisão do trabalho, ainda que seja o único em um grupo.

O problema da divisão do trabalho, como o de qualquer instituição humana, é que a mesma pode estar, em determinado momento do tempo, sendo corrompida por métodos coercitivos. O mesmo escravocrata, no poder, pode criar uma divisão de trabalho que diminua a liberdade de trocas na sociedade. Alguém poderia dizer que uma divisão de trabalho coercitiva poderia ser “boa”. Por exemplo, pode-se propor que a escravidão seja proibida legalmente.

Sendo um pouco realista, é difícil acreditar que uma canetada vá terminar com os incentivos que criam a escravidão. Assim como a canetada não substituiu o socialismo soviético por uma sociedade capitalista, não há porque acreditarmos em milagres quanto à escravidão. Talvez alguém possa tentar, mas a história da humanidade está repleta de ditadores que tentaram provar que “desta vez havia a vontade política necessária” e as histórias nunca terminaram bem para boa parte da população.

Um fator que pode alterar a divisão do trabalho é a tecnologia. Sabemos que uma queda de custos gerada por ganhos de produtividade pode alterar preços relativos tornando a escravidão, por exemplo, custosa economicamente. Não é nenhuma desonra – e muito menos uma mentira – que a queda dos preços de eletrodomésticos ajudou a liberar a mulher do seu rotineiro e monótono trabalho doméstico. Tyler Cowen, em seu ótimo In Praise of Commercial Culture, cita o exemplo da queda de custos dos insumos relacionados à arte e o surgimento de excepcionais pintoras (sim, mulheres pintoras) na época do Renascimento.

Embora a mudança de preços relativos não seja o único fator a explicar a queda de hábitos preconceituosos na sociedade, também não é verdade que não tenha sido importante. Entretanto, muitos de nós, vaidosos, com pouco conhecimento histórico e ideologicamente viesados, gostamos de pensar que mudanças tecnológicas só ocorrem por vontade de alguns iluminados (e, no caso do viés ideológico, só vale a iluminação que não gera conflito com a mente do reprodutor dos conceitos ideológicos em questão).

Obviamente, a mudança tecnológica pode vir das mais diversas fontes. Desde experimentos cruéis como os promovidos por cientistas nacional-socialistas ou por gente claramente comprometida com o extermínio de pessoas até os resultados imprevisíveis (e imprevistos) de algumas experiências voltadas para a descoberta de remédios ou substâncias (com fins de obtenção de lucro ou não), o fato é que a tecnologia avança a cada momento da humanidade. Pode-se perguntar se a tecnologia evolui da mesma forma sob os mais diversos arranjos institucionais (formais e/ou informais). As descobertas de anos e anos de pesquisas parecem mostrar que há importantes incentivos que não podem ser desconsiderados para que o avanço tecnológico ocorra de forma mais acelerada.

Que incentivos são estes? Eles nos garantem que não haverá uso de cobaias humanas? Eles sempre nos darão avanços exponenciais? Ou lineares? Eles podem ser reproduzidos por um super-burocrata altruísta? Estas são apenas algumas perguntas que se fazem quando nos defrontamos com a fascinante história da tecnologia. A notícia desoladora é que nem sempre avanços tecnológicos nos garantirão “o melhor dos mundos” (para quem?). A parte boa da história é que há algumas pistas sobre que instituições precisamos para ver a tecnologia aumentar a produtividade e continuar gerando queda da pobreza e da fome no mundo. Finalmente, a outra parte desoladora é que os incentivos políticos nem sempre fazem com que governos adotem estas últimas instituições (veja, por exemplo, o que eu disse sobre a obsolescência planejada da democracia).

Um dia destes voltaremos a este tema.