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A Curva de Phillips vai bem, obrigado

Blanchard em artigo curto e interessante, aqui.

Eis o resumo:

This paper reexamines the behavior of inflation and unemployment and reaches four conclusions: 1) The U.S. Phillips curve is alive and well (at least as well as in the past). 2) Inflation expectations however have become steadily more anchored. 3) The slope of the curve has substantially declined. But the decline dates back to the 1980s rather than to the crisis. 4) The standard error of the residual in the relation is large, especially in comparison to the low level of inflation. Each of the four conclusions presents challenges for the conduct of monetary policy.

Ok?

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Curva de Phillips, sempre.

Dizem Machado & Portugal (2014):

This paper estimates reduced-form Phillips curves for Brazil with a framework of time series with unobserved components, in the spirit of Harvey (2011). However, we allow for expectations to play a key role using data from the Central Bank of Brazil’s Focus survey. Besides GDP, we also use industrial capacity utilization rate and IBC-Br, as measures of economic activity. Our findings support the view that Brazilian inflation targeting has been successful in reducing the variance of both the seasonality and level of the inflation rate, at least until the beginning of the subprime crisis, when there was a dramatic drop in activity. Furthermore, inflation in Brazil seems to have responded gradually less to measures of economic activity in recent years. This provides some evidence of a flattening of the Phillips curve in Brazil, a trend previously shown by recent studies for other countries.

Então, é mais ou menos assim: (1) meta de inflação funciona (para o desespero dos pterodoxos); (2) a curva de Phillips tá ficando horizontalzinha (o trade-off está mudando, mas não vou especular sobre os motivos).

Será que vemos uma mudança estrutural em nossa economia, fruto das políticas econômicas dos últimos anos? Liberamos o câmbio, mantivemos – até o segundo governo Lula – o sistema de metas e redistribuimos renda. Entretanto, a abertura econômica não é lá aquelas coisas (e, se não estou enganado, isso também poderia impactar no trade-off ilustrado pela curva mais famosa do debate do café entre economistas).

Estabilizou mesmo?
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A escassez de séries de tempo políticas no Brasil…e a (óbvia) relação entre desemprego, inflação e popularidade dos políticos

Estava procurando uma base de dados de popularidade presidencial para fazer um exemplo para meus alunos de Microeconomia III (isso mesmo, você não leu nada errado). Não deu outra: em português, quase nada. Em inglês, descobre-se quem tem alguma coisa.

Então descobri uma dissertação de mestrado em Ciência Política na qual o autor constrói a série. Infelizmente, ele não disponibilizou os dados e, assim, não posso sequer replicar seu estudo. Claro, uma opção é pedir-lhe a base, mas há um outro ponto a se destacar: a escassez de séries de tempo em Ciência Política no Brasil é um sintoma sério de que ainda é preciso muito trabalho para se entender os fenômenos sociais por aqui.

O trabalho do autor é muito interessante. Não é todo dia que vejo alguém da Ciência Política brasileira tentar tratar dados de maneira adequada, usando, por exemplo, testes de raiz unitária. Há alguns, eu sei, mas não os conheço (sequer conheço o autor desta dissertação, por exemplo).

Mas o melhor, para mim, foi constatar que minha tentativa de procurar a série certamente fazia todo sentido. Por que? Bem, veja o que ele conclui:

Quanto aos resultados, encontrou-se que a opinião pública brasileira avalia o trabalho do Presidente a partir do bom desempenho da inflação e do desemprego, sob influencia extraordinária do cenário político. Eventos como mensalão e o apagão tiveram efeitos destacados.

Exatamente. Eu queria fazer um exemplo simples relacionando inflação, desemprego e alguma medida de bem-estar. Como sabemos, isto não é tão fácil. Então eu, pensando naquela idéia antiga e simples de curvas de isovoto, pensei em fazer um exercício que vi, certa vez, na revista Conjuntura Econômica, construindo uma função de utilidade simples. Claro que meu medo era de que as variáveis não tivessem um ajuste bom. Bem, o autor resolveu meu problema. Eu só queria mesmo, agora, era ter acesso aos dados para fazer o exemplo, mas fica para outra vez.

Curiosamente, a dissertação não menciona se houve ou não tentativa de se construir um modelo dinâmico para se medir impactos de curto e longo prazo entre as variáveis (na tradição do VAR com cointegração). Imagino que o tema deve ter sido citado na defesa.

Agora, vejam só, o insight da curva de Phillips – que o ex-presidente negou e depois desmentiu que negou (errar é humano, errar como ex-presidente famoso é menos humano: pega mal, né?) – está lá, bonitinho, bonitinho. Tá tudo lá: desemprego, inflação e popularidade. Quem diria, heim?

p.s. enquanto isto, nos EUA…

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Curva de Phillips, a crise mundial e você

Introdução (com vaselina)

Já ouvi professor – na minha juventude, claro – dizer que “não acredita em curva de Phillips”. De fato, é uma colocação inédita porque a curva nunca disse que deveria ser “acreditada”. De qualquer forma, o fato é que, como na história econômica, chegou ao governo, olhou os dados, qualquer sujeito inteligente passa a acreditar na curva. Pode, isto sim, questionar a maior ou menor relevância da mesma o que não é a mesma coisa de “acreditar” porque se a curva não existe, não há como discutir sua relevância, certo?

Deixando de lado a ignorância voluntária (uma típica característica de economias que funcionam com expectativas racionais e burrice acadêmica no que eu chamaria de “Teoria (minha, claro) dos Ciclos Reais de Economistas Burros”), eu tentava obter o artigo interessante neste link mas só consegui obtê-lo sem falhas aqui. A discussão me parece bem mais interessante do que aquela da ignorância voluntária (cuja correlação com o wishful thinking ideológico é próxima de 1 para a Torre, mas pode ser também próxima de -1, como o leitor vê neste meu pequeno texto).

Vejamos um pouco da conclusão:

Our estimates suggest that there has also been a flattening in this “structural” model, that is, there has been a change in the pricesetting behaviour of firms. In particular, it appears that the duration between price resetting may have lengthened. Many of the common explanations for changes in the price-setting behaviour of firms are related to globalisation. While globalisation may alter the relationship between the output gap and marginal costs, it is unclear why it would alter the link between marginal costs and inflation in a way that corresponds to a flattening of the Phillips curve. In a structural model the deep parameters in the Phillips curve should be invariant to changes in the conduct of monetary policy. However, one potential explanation is that lower trend inflation resulting from the improved conduct of monetary policy may account for the more infrequent price resetting and hence the flattening Phillips curve, a possibility which is not accommodated in the benchmark new-Keynesian model. In all, it appears that after 50 years there is still considerable work to be done in order to fully understand the relationship between aggregate activity and inflation.

Repare bem, leitor, na importância da inteligência do economista – como eu disse antes – na conclusão. Uma prática de política monetária só melhora se o sujeito, ao invés da ignorância voluntária, discute a relevância (e as causas das mudanças na relevância, claro!) da curva de Phillips, não descartando-a de maneira irresponsável.

Eu sei que a discussão já vem lá da questão da relação entre abertura e inflação – algo já explorado por muita gente como, por exemplo, o Sachsida, mas, novamente aproveito para ressaltar: a curva de Phillips está mais próxima de você do que comumente se imagina.

Implicações para o ensino de Economia

a) Cursos universitários que se vendem como “com ênfase em Finanças” não terão futuro se não ensinarem boa teoria econômica. A crise global acabou de mostrar a todos este óbvio fato. Assim, por exemplo, como um robozinho que replica modelos no Eviews sem entender a relação do mesmo com a economia reage ao observar diversos arranjos institucionais sendo criados para lhe tributar em prol do bailout? Ele não reage porque não entende o que se passa. Eu, Laurini e Selva, sem dúvida, concordamos com este ponto. Qual o bom profissional necessário no mercado, neste momento? Resposta simples: aquele que entende de incentivos e, incentivos bem desenhados, só em Economia, com o perdão dos colegas das Humanas (e os humanóides que nos assombram).

b) O estudo de História Econômica sem um bom arcabouço econométrico é lixo, vamos dizer com todas as letras. Em um momento como este, vários “supostos” experts (na verdade, verdadeiros espertinhos) se vendem com histórias bacanas sobre a crise de 1929 sem nunca terem lido o clássico de Milton Friedman e Anna Schwartz. Analogias irresponsáveis pululam da boca desta gente para os bloquinhos mal rascunhados dos apressados jornalistas e param nos jornais sob manchetes pomposas ou barulhentas. Ninguém se esforça para explicar, de fato, o que ocorreu. Uma nova geração de historiadores econômicos existe (eis aí o Renato Colistete, o Renato Leite Marcondes ou o Fábio Pesavento, que eventual e raramente aparecem nos comentários deste blog) para nos salvar…espero.

c) Tudo o que eu falei em (a) e (b) certamente não afeta a vida de muita gente. Eu sei que você pode, por um bom preço, comprar seu diploma em uma graduação aqui, ou uma pós-graduação da esquina ali. Sem problemas. Mas a acumulação de capital humano no país não é igual ao número de diplomas expedidos pelo MEC. Aliás, nem o MEC sabe bem o que é capital humano. No caso do economista, no Brasil, há uma discussão sem sentido entre o que é ou não teoria econômica em algumas manjedouras que bem podem ser localizadas por aquele povo de economia regional com suas colméias de Lösch (o amigo do Mário Lösch, claro!). A irrelevância da discussão é proporcional à luta pelo poder nas burocracias municipal, estadual e federal. Alia-se à falta do que fazer uma pesquisa de má qualidade e você tem como resultado o atraso no conhecimento científico. Atraso de anos, é bom lembrar. Um programa de pesquisa deve ter relevância para a sociedade se for financiado com fundos públicos. Nada contra a sociedade financiar discussões de economistas sobre o que realmente disse Groucho Marx ou sobre o verdadeiro significado do charuto na boca de Freud. Mas é imoral não dizer à mesma sociedade que a discussão financiada é esta (tudo isto não se aplica a financiamentos privados, cuja honestidade e transparência no pedido é sempre um pré-requisito).

Retorno ao exemplo do Sachsida: naquele artigo entendeu-se mais sobre o impacto da inflação na economia. O começo de tudo está na curva de Phillips, aliás, alvo deste longo comentário. Perguntas óbvias: em uma crise desta, o custo social de um pacote Paulson-Bernanke para a economia norte-americana é alto ou baixo? Gera inflação? Tem a ver com a inclinação da curva de Phillips? Como? Todas estas perguntas têm as mesmas respostas na economia brasileira? Por que?

Acho que salvei uns duzentos leitores sérios que procuravam temas de monografia. Os demais (não-sérios), como sempre, deixarão aqueles comentários imbecis (= mal-educados + pouco ilustrados) que, solenemente, ignorarei para honrar suas progenitoras que, aliás, são apenas culpadas involuntariamente em 95% dos casos (estimativa segundo o Datachute).

Bom domingo!