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Correlação não é causalidade, mas vamos brincar com a ignorância

Tem um pun intended aí, claro. A notícia foi publicada no Gazeta do Povo, em 2015 (um ótimo jornal, lá de Curitiba). A pesquisa é esta. Já sabemos que brasileiro não vai bem em testes básicos de proficiência matemática e, portanto, eu não esperaria nada muito diferente. Ok, eu vou usar o ranking dos países (e sua leitura deve ser cuidadosa, já que a escala do ignorance diz respeito ao ranking). Vamos brincar um pouco.

ignorance_trust

Ok, países que se encontram nas primeiras colocações em ignorance (ou seja, estão, no eixo vertical, mais próximos do zero) também são países em que as pessoas confiam pouco umas nas outras (trust). Causalidade? Claro que não.

Outra divertida: a relação com o índice de crony capitalism (o famoso capitalismo de compadrio, ou seja, o capitalismo estragado pela corrupção e troca de favores, algo que, claro, conhecemos bem e muita gente confunde com livre mercado, um erro comum e de difícil correção).

ignorance_crony_2016

Temos aqui dois rankings. Assim, países que sofrem menos com o cronismo estão mais à direita no eixo horizontal e, você já sabe, países que estão mais perto da origem no eixo vertical são também os com maiores índices de ignorância. A correlação é positiva indicando que países com maior incidência de cronismo também são os que apresentam maior grau de ignorância.

Ah sim, eu não falei antes, mas a legenda à direita dos meus gráficos diz respeito ao tamanho das bolinhas que você vê nos gráficos. Elas aumentam de tamanho quanto maior o nível de capital humano dos países (a famosa base de dados de Barro & Lee).

Bem, se estas correlações nos dizem algo sobre causalidade? Claro que não. Você precisa sair do mundo das correlações e trabalhar com um pouco mais de rigor estatístico para poder pensar começar a falar algo (ufa!) sobre causalidades. Então, não se anime muito. A base de dados é pequena e o que ela nos diz é que, ironicamente, ser ignorante quanto à causalidade pode levar a diagnósticos desastrosos…

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A cultura e o cronismo – qual é mesmo a definição de “tigres asiáticos”?

tigres_asiaticos

As pessoas gostam de falar dos “tigres asiáticos” como se os mesmos fossem bons exemplos de países “heterodoxos” (melhor seria: “pterodoxos”). Mas será que a causa da pujança destes países está em regimes fortes, com gerentões na presidência, com políticas industriais que escolhem “perdedores” (você não pode escolher um “vencedor” sem escolher “perdedores”, certo?) e com a contabilidade criativa em ação? Talvez não.

Veja, por exemplo, o gráfico acima. Temos a posição do país no ranking de cronismo (rent-seeking) da The Economist no eixo horizontal. No eixo vertical, a variável de cultura que mostra valores compatíveis com sociedades que privilegiam a alocação de recursos por meio do sistema de mercado. Ah, ok, as escalas são logaritmicas.

Então, veja, quanto mais à direita, no eixo horizontal, menos sujeito ao cronismo é o país. Já no eixo vertical, quanto mais para cima, mais a cultura do país privilegia aspectos (valores) que favorecem as trocas voluntárias entre as pessoas (isto, apesar do discurso errado que você ouviu do militante, é exatamente o que define o mercado).

Observe, no gráfico, onde estão Japão, China e Coréia do Sul. Os “tigres” não são tão tigres assim, não é? Repare em Taiwan e Cingapura, por exemplo. O caso da Rússia e da Ucrânia é mais interessante – já que o Putin resolveu brincar de Hitler agora – e você vê que sociedades com capitalismo com menor ênfase no mercado – como é o caso destes dois países – também são países caracterizados por alto índice de cronismo. Quem já estudou os incentivos que operam no socialismo real sabe que este não é um resultado surpreendente (leia qualquer artigo/livro do Janos Kornai, por exemplo).

O Brasil, claro, mostra um índice de cultura muito baixo e minha observação anedótica me diz que isto dificulta a evolução do país em direção à construção de instituições que privilegiem trocas voluntárias: as pessoas gostam de um ditador ou um presidente gerentão, autoritário, que lhes diga o que fazer e lhes dê de comer. Troca voluntária é vista como jogo de soma-zero (um erro grosseiro, mas repetido goebellianamente por supostos professores todos os dias…).

Minha observação anedótica é que brasileiro adota ditadores como nomes de praças, avenidas, ruas e fundações, como é o caso de Getúlio Vargas, não protesta para mudar este nomes e nem chama o golpe de Getúlio de golpe, mas de “revolução”. Somente quando alguns grupos de interesse agem é que você vê alguma mudança, mas repare que esta só diz respeito a ditadores que estes grupos não curtem como os da revolução (ou golpe?) de 1964.

Pois é. Então, se há algum aspecto “tigre” nos países do sudeste asiático, ele passa pela adoção de valores pró-mercado nestas sociedades. Dá o que pensar? Creio que sim. E olha que nem comentei o capital humano, também presente no gráfico.

Antes que você me pergunte sobre os dados, lembro que já os usei diversas vezes aqui, neste blog, anteriormente. Então, a “cultura” vem de trabalhos da Claudia Williamson (que também usei com Pedro e Ari neste artigo) e o índice de cronismo vem da The Economist. O capital humano, obviamente, é da famosa base de dados de Barro & Lee. Faça sua pesquisa neste blog e encontre as fontes. Ou vá pelo google mesmo.

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Ainda o índice da The Economist e um pouco sobre como evitar o “wishful thinking” (breve Momento R do Dia)

Interessante aquele índice de cronismo (uma proxy de rent-seeking) criado pelo pessoal da The Economist, citado por aqui por estes dias.

Agora, vejamos a relação entre os valores da liberdade econômica (maior, mais livre) e a posição no ranking de cronismo (quanto maior, menos rent-seeking), mas com uma diferença: vou separar a amostra em países de código legal de origem britânica e os demais. Eu esperava ver o contrário do que vi.

cronismo_novamente

Poderia ser que países que já estão próximos ao seu nível ótimo de liberdade econômica (como é o caso dos amiguinhos azuis), aproximam-se também de uma sociedade na qual os grupos de interesse lutam com mais estabilidade para transferir rendas e, no caso dos outros países, ainda com instituições frágeis, a relação é tal que há espaço para melhoria institucional e, portanto, a relação seria positiva?

Em outras palavras, digamos que a figura acima seja uma boa representação da realidade (eu não creio nisto, mas é um bom exercício). Então, se estou em 2013 no Brasil, tenho baixa liberdade econômica e também tenho menos cronismo porque as más instituições nem permitem uma atividade mais intensa de rent-seeking. É algo contra-intuitivo, eu sei, porque dizemos que as más instituições existem justamente por conta do alto grau de rent-seeking na sociedade.

Bom, também o ajuste não é lá aquelas coisas (e seria ele linear?) e temos poucos países na amostra. Minha conclusão é temos mais uma evidência de que o índice de cronismo da The Economist ainda precisa ser bastante aperfeiçoado. Por exemplo, alguém, lá no livro de caras, falou do problema da corrupção. “- Justamente no PIB que “sumiu” é que está o cronismo”, disse ele. Tendo a concordar com o argumento.

Outra evidência, para dar esperança ao leitor(a):

cronismo_failed

O índice de falência dos estados pode ser pensado como um índice de (má) qualidade institucional. A diferença é que, para países de código legal de origem não-britânica, agora, temos uma relação mais inclinada entre as duas variáveis. Assim, digamos, andar uma posição a mais no índice de cronismo (galgar posições para o primeiro lugar) significa estar correlacionado com uma piora na qualidade do estado maior em países de códigos legais de origem não-britânica. Novamente: não é porque o resultado parece interessante que esta correlação se torna magicamente melhor que a anterior.

Ok, você já viu onde quero chegar, não? A análise de bases de dados como esta tem que ser feita com muita cautela. Uma correlação, sozinha, não nos diz muita coisa. Aliás, as duas, aqui, parecem algo contraditórias. E olha que nem falamos da questão de como estes dados são medidos.

Não tem jeito. Para se vacinar contra o wishful thinking, você tem que fazer uma análise estatística detalhada dos dados. Bem, isto fica para outro dia. Ah sim, os comandos em R.

fator <- factor(legor_uk,levels=c(0,1),
labels=c("Non-UK","UK"))

qplot(failed,crony_rank , geom=c("point", "smooth"),
method="lm", formula=y~x, color=fator,
main="Cronismo e Falência dos Estados (por origem do codigo legal)",
xlab="Failed States Index 2013", ylab="Crony Ranking")

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Cronismo…você sabe o que é isto?

Não??? Então você não deve estar morando no Brasil. Ok, você mora, mas não sabe do que se trata. Um livro que divulgou este conceito no Brasil é o do Lazzarini. Mas você pode aprender também sobre isto neste video. Este blogueiro (junto com o Leo Monasterio) já falava de rent-seeking no Brasil desde o final do século passado. A galera, contudo, custou a nos acompanhar na literatura. Ao longo destes primeiros 13 anos do século, vimos vários autores e artigos sobre o tema. Claro, tudo começou com o Jorge Vianna Monteiro (embora muita gente não pareça saber fazer pesquisa científica direito e, portanto, não faça a revisão da literatura corretamente).

O termo rent-seeking nunca saiu muito das conversas de economistas e alguns poucos cientistas políticos esclarecidos. Claro, havia também a competição dos marxistas, sempre receosos de perderem sua platéia para teorias concorrentes. Mas, aos poucos, as coisas mudaram. Aí alguém, acho que foi o Gary Becker, popularizou o termo capitalismo de compadres (ou de compadrio). Paralelamente, a mudança de gerações nas redações de jornais e a tecnologia ajudaram a popularizar as idéias de Tullock, Olson, Buchanan e outros. Mesmo assim, convenhamos, “capitalismo de compadres” não é um termo muito retórico, no sentido da McCloskey.

Aí, agora, veio este novo termo, o tal “cronismo”. No fundo, no fundo, fala-se do mesmo fenômeno. Mas parece que este termo está se popularizando com certa facilidade. Ajuda, claro, a corrupção desenfreada que assistimos no Brasil desde a primeira administração da Silva (agora também conhecido como “Lula”, “Lula da Rose”, “o Barba”, dentre outros divertidos apelidos). O desencanto dos eleitores não deixa de ter um impacto positivo: o aumento do ceticismo e do grau de exigência quanto às suas demandas políticas. Claro que isto não necessariamente melhora a qualidade do setor público ou diminui a corrupção, mas o realismo trazido pelo ceticismo é sempre saudável.