Não somos tão racistas assim

O título acima poderia ser reescrito como: somos, mas não tanto, comparativamente. Digo isto por conta das evidências usadas neste artigo interessante sobre os impactos do racismo sobre o desenvolvimento econômico. Na amostra utilizada – 94 países – o Brasil aparece na 85a colocação.

O artigo é basicamente empírico – o argumento teórico é apenas verbal – e testado econometricamente e envolve história econômica, instituições (logo, colonização). Vale a leitura do texto e, sim, eis a figura que todo mundo gosta de ver.

notsoracist

Colonização e História Econômica

A colonização se paga?

Colonial adventures in tropical agriculture: new estimates of returns to investment in the Netherlands Indies, 1919–1938

Frans Buelens and Ewout Frankema
Abstract
How profitable were foreign investments in plantation agriculture in the Netherlands Indies during the late colonial era? We use a new dataset of monthly quoted stock prices and dividends of international companies at the Brussels stock exchange to estimate the returns to investment in tropical agriculture (1919–1938). We adopt the Dimson–March–Staunton method to compute real geometric annual average rates of return and assess our estimates in an international comparative perspective. We find that returns to colonial FDI in the Netherlands Indies during 1919–1928 were impressive (14.3 %), being almost 3 percentage points higher than the world average. In the following decade 1929–1938 fortunes reversed, with a rate of return of −2.8 % compared to a world average of 2.2 %. Over the entire period the returns to colonial FDI (5.4 % in 1919–1938) were about a factor 2.5 higher than returns to investment in the Dutch domestic economy (2.1 % in 1920–1939). We argue that these returns should be interpreted in a colonial context of systematic labour repression, but that they may also partly reflect a higher risk-premium of investments in colonial commodities.

História econômica é legal, né?

Então a colonização não teve efeitos no tempo?

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Depois da publicação do livro do Acemoglu e co-autores é difícil para um estudante de Economia fugir da conversa sobre instituições e desenvolvimento econômico. Aquele meu antigo professor de História Econômica que zombava da Ciência Econômica, dizendo que a mesma era só Matemática – e que nunca respondeu o que era aquilo que  fazia… – deve estar todo amuadinho agora. Afinal, a história econômica e o desenvolvimento econômico voltaram a se encontrar como nos velhos tempos, mas em uma relação mais sofisticada. Eu diria que se trata de um casamento renovado.

A mais famosa correlação dele diz respeito ao logaritmo do PIB em 1995 para ex-colônias e o logaritmo da taxa de mortalidade dos colonizadores em 1500. Virou moda falar disto (mas há um debate na literatura sobre esta correlação no qual Acemoglu reagiu de maneira bem intempestiva, na minha opinião).

Como a moda é brincar de correlações aparentemente incomuns, então eu vou fazer minha parte falando de instituições.

Em artigo com o Pedro e o Ari (veja lá no Cato Journal), falávamos do impacto de alguma variáveis institucionais sobre a qualidade dos estados, medida pelo failed states index. Então, peguei a última edição do índice e fiz a correlação com a mortalidade em 1500, logaritmizada. Ou seja, troquei o PIB de 1995 pelo índice de falência dos estados.

Mas não fiz só isso. Eu resolvi investigar se esta correlação depende de uma instituição que é a origem do código legal do país (UK, se britânico, non-UK, caso contrário (c.c.) ). Não apenas fiz isto, como também pedi para o R gerar o gráfico mudando o tamanho do ponto que representa o par ordenado do país conforme o nível de capital humano do mesmo. Saiu o gráfico acima.

Não parece haver uma diferença significativa entre as relações – eu diria que a inclinação de ambas as retas é muito parecida – mas fica claro para mim que o capital humano insiste em permanecer no quadrante de baixa mortalidade dos colonizadores e também de baixo nível de falência estatal (= maior qualidade dos governos).

Claro, isto é só uma correlação, mas dá o que pensar, não dá? Não sei vocês, mas a economia Novo-Institucional ainda me parece o melhor conjunto de teorias para se estudar o desenvolvimento econômico, seja via estudos de casos, seja via estudos macroeconométricos (como o representado por este diagrama de dispersão).

De qualquer forma, talvez esta história da colonização e mortalidade (ressaltada pelo Caio Prado Jr, sem diálogo algum com a literatura internacional, nos anos 50 e por Engermann & Sokoloff, mais recentemente, como nos lembra o Marcos Fernandes (FGV-SP) em seu livro) parece fazer sentido. Aliás, esta história do Caio Prado e do Engermann & Sokoloff mostra o quão errado e infeliz é a estratégia de alguns pesquisadores de menosprezar a interação com acadêmicos em outros países. Caio Prado não fez isto, mas há um pessoal que parece achar que publicar em Pindorama é mais importante do que publicar na American Economic Review, por exemplo. Resultado? O mesmo de Santos Dumont com os irmãos Wright ou de Caio Prado Jr citado…

Momento R do Dia (não exatamente, mas confessando como o gráfico foi gerado)

Eu ia pedir par algum aluno fazer um gráfico destes em outro pacote econométrico, mas ia ser uma humilhação vê-lo sofrer tanto enquanto meus alunos – pelo menos os que já estudaram o R – fazerem gráficos como este ou melhores em tão pouco tempo.

Agora, o desafio é estudar estes dados. Ainda torço para que Lorena e Charline me enviem bons resultados empíricos logo, logo…