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Domingo Legal (?) vem aí e…a ordem de votação importa?

Eu e meus alunos de Microeconomia III vimos, outro dia, este exemplo, do ótimo livro do James Morrow [famoso Morrow (1995), para os íntimos] que é usado para explicar o chamado mecanismo da indução retroativa (backwards induction) usado para solucionar um jogo na forma extensiva com informação perfeita.

Vou resumir a história, adaptando-a, ok? Suponha que existam três políticos em uma assembléia, votando uma medida altamente impopular, mas bem agradável para eles: o aumento de salário…dos políticos. Calma, é só um caso hipotético!

Digamos que o aumento de salário dá, a cada um, um benefício “b”, mas a aprovação do mesmo vai se dar a um custo “c” eleitoral (eleitores irão para as ruas, farão campanha contra eles, etc). A votação é televisionada e sequencial, o que tornam “b” e “c” informações conhecidas dos políticos e também dos eleitores.

Ok, está meio óbvio que o político ficará feliz se b-c > 0, certo? Dizemos que seu benefício líquido será positivo, neste caso. Este benefício líquido só existirá se o aumento de salário for aprovado e, como bons economistas (ou como cientistas políticos sem medo de álgebra), sabemos que a regra do jogo importa. Bem, neste exemplo, a regra de aprovação é a da maioria simples. Como temos três políticos, basta que dois sejam a favor e os salários deles aumentará.

Agora que você já sabe o contexto do jogo, veja a figura a seguir (gerada no Gambit), que ilustra o jogo sequencial dos três políticos. Para facilitar, fiz b = 3 e c = 1. Caso três políticos votem contra o aumento, o mesmo não ocorrerá e tudo fica como antes. Cada um ganhará “0” (que é o mesmo que dizer que não há mudança).

Caso dois deles votem a favor, o aumento ocorrerá mas, quem votou a favor terá um custo eleitoral e quem não votou a favor terá apenas o benefício. Isto ocorre, por exemplo, no topo da árvore, na sequência em que os dois primeiros políticos votam “Sim” e o terceiro vota “Não”. Repare nos ganhos dos respectivos: 2 (=3 – 1), 2(=3 – 1) e 3 (= 3 – 0). Dê uma olhada nos casos em que isto ocorre. Outra possibilidade é que dois votem contra e um vote a favor. Neste caso, os que votarem contra ganharão “0” e o que votou a favor, “-1”. Acho que já deu para ter uma idéia do que acontece (e você pode se certificar disto analisando os outros resultados).

jogodopolitico_voto

Pergunto: digamos que você é um dos três políticos. O que é melhor para você: votar no início ou no fim? Pense bem antes de responder (uma dica para você está aqui).

Moral da história (espero que você tenha acertado a resposta): (a) regras do jogo importam (a votação é aberta? É secreta? É simultânea? É sequencial?, a regra de votação é maioria simples? Não? Qual é?); (b) políticos que pensam em seu próprio interesse terão chances de obterem maiores ganhos quanto mais entenderem o jogo em que estão inseridos; (c) falar de “democracia” pode ser algo estúpido ou inteligente (pare de repetir jargões e vá estudar a ciência que explica as falhas de governo, ou nunca sairemos da discussão rasteira).

Divagação pouco elaborada (embora o título seja pomposo e grande, ainda mais com este parênteses) sobre a formação do economista em tempos de impeachment

Lembrando do trabalho do meu amigo Regis, pioneiro de uma interessantíssima discussão que agora se disseminou nas redes sociais, vejo para você, meu amigo leitor (ou leitora) que curte Ciências Econômicas um bom material para refletir. Como a Ciência Econômica estuda a alocação de recursos escassos em como disse Armen Alchian, as questões não são apenas estas “de engenheiro” sobre “o que, como e para quem produzir” (várias gerações de economistas foram educadas neste paradigma…eu inclusive), mas sim sobre quais são os problemas e quais as instituições envolvidas (algo muito mais interessante, convenhamos), o jogo acima nos mostra que nosso treinamento deve(ria), teoricamente, privilegiar as motivações das ações dos indivíduos e, empiricamente, fornecer ao estudante ferramentas estatísticas para o tratamento de dados derivados das ações das pessoas (a famosa preferência revelada) (*).

Por agora é só. Abraços.

(*) Notem como não estou idolatrando ou maltratando o excelente Paul Samuelson neste último parágrafo. Estamos fazendo ciência, não caçando bruxas(os).

p.s. a resposta é: o melhor é votar primeiro. O Equilíbrio de Nash Perfeito em Subjogos deste jogo é (Não, Sim, Sim)

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Poesias em Economia?

Todos os alunos participaram e o resultado foi…este aqui. Foi um desafio que meus alunos superaram de forma variada e interessante. Ficou tão bom que fiz a coletânea, editei, fiz um texto introdutório e, quem sabe, fica como sugestão para outros professores.

Dei-lhe o nome de: “A poesia que é a Economia na visão de vinte autores-estudantes” e sinto-me satisfeito com o resultado. Parabenizo a turma dedicando esta coletânea e eles, aos seus, ao coordenador do curso de Engenharia (que certamente não esperava por esta minha iniciativa) e, sim, antes de mais nada, leia a introdução para entender tudo (inclusive, porque abreviei parcialmente os nomes dos novos poetas).

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O antigo Centro de Estudos de Finanças Públicas

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Os anos 90 foram muito interessantes. Os ex-alunos mais antigos vão se lembrar do CEFIP (Centro de Estudos de Finanças Públicas) tocado a todo vapor por mim, Daniel, Carlos, Fabrício e Lízia, inicialmente. Depois, alguns nos deixaram e outros vieram.

Chegamos a ter seis sete textos para discussão (e alguns boletins). Os textos estão guardados comigo até hoje. Servirão de prova em julgamentos da História (e que histórias tínhamos…). O primeiro texto é de autoria de Lízia de Figueiredo (Tributação em Adam Smith) e ganhou a capa verde. O segundo texto é de Claudio Burian Wanderley (A Economia de Custos de Transação). O terceiro, de Carlos A. de Resende Jr e Larissa N. Fonseca foi sobre a estabilização da economia (O Plano Real). A seguir, Fabrício A. de Oliveira fazia a crítica ao governo federal (A Proposta de Reforma Tributária do Governo: alcance e limites). O quinto texto pertence a três autores: eu, Rodrigo Godinho e Roseli da Silva (A Influência da Taxa de Juros sobre a Demanda Agregada). O penúltimo texto é de Luiz F. O. de Araujo (Centralização e Descentralização das Negociações Coletivas – Um Estudo de Custos e Benefícios). Finalmente, o Emanuel A. R. Ornelas falava de modelos de equilíbrio geral computáveis (Análise da Sensibilidade do Rendimento dos Fatores em um Modelo 2×2 de Equilíbrio Geral).

Fui nomeado, na época, para cuidar das burocráticas normas que a faculdade exigia para os textos. As variações nas capas, cores, sim, tudo isso rendia horas e horas de reuniões com um simpático pró-reitor. Mas, por mais simpático que ele fosse, era sempre chocante enfrentar tanta burocracia para fazer os textos. Foram anos interessantes.

O CEFIP não sobreviveu, mas guardo, até hoje, sua produção (completa) como lembrança (ou como prova, he, he, he…). Quem sabe, algum dia destes, eu não resolva entregar minhas memórias a algum editor? Muita gente vai tremer. Nem o Petrolão rendeu tanta polêmica… ^_^

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Ah, a convexidade…(bee’s edition)

maruCiri410A convexidade forte, naqueles problemas de otimização, mostra que diversidade é sempre interessante. Bom, é mais ou menos isto. Agora, repare que isto mostra o quanto economistas – ao contrário do que dizem os maus sociólogos e outros que não estudaram Economia porque estavam fazendo politicagem na faculdade – são os que mais gostam de diversidade por motivos óbvios.

Quem já estudou Teoria da Produção sabe que há uma grande diversidade (pun intended) de funções de produção e também que economistas adoram funções de produção bem gerais que incluem casos extremos como seus casos particulares (como a boa e velha CES, por exemplo).

Esta história de que diversidade (convexidade) é bom não se restringe aos manuais por um motivo simples e frequentemente esquecido: buscamos descrever como funciona a realidade, não como ela deveria funcionar. Trata-se de uma análise positiva, não normativa.

Eis, portanto, o exemplo de hoje. Pesquisadores descobriram que a diversidade de abelhas gera ganhos de bem-estar para fazendeiros. Eu sei, eu sei, a gente poderia falar de externalidades aqui – e o exemplo até cabe para um texto sobre o assunto – mas repare que o estudo não é de economistas, mas de entomologistas. Mesmo assim, eles fazem um experimento interessante e um cálculo econômico simples. Segue o trecho:

Using the price the farmers’ set per pound for their blueberries, the authors found that if two different species of bee pollinated the blueberries, a farm would see a $311 crop yield per acre; for three bee species, it would be $622; for four, $933, and so on. Since the scientists only observed five distinct species, they can’t speculate on the effect of biodiversity beyond five—but they assume that eventually the relationship would flatline (and added species would no longer mean bigger berries), but they didn’t reach that threshold naturally in the study. All told, Burrack and her colleagues calculated that for every additional species, the North Carolina blueberry industry could expect an additional $1.4 million in yield increase.

Legal mesmo, vou repetir, é que os autores se preocuparam em fazer uma estimativa – ainda que simples – do ganho de bem-estar. A diversidade, portanto, taria um ganho de US$ 1.4 milhões para a indústria de blueberry da Carolina do Norte. Não é só uma conversa de entomólogos ou de ambientalistas. Aliás, eis aí o incentivo para que pessoas defendam a diversidade de abelhas: todos ganham com isto e o ganho está quantificado.

Eis um bom exemplo de interdisciplinaridade que raramente vemos defendido pelos auto-denominados “defensores do pluralismo metodológico”. Eles só querem pluralismo com soft sciences ou com grupos com os quais tenham afinidade ideológica. Eles são pouco pluralistas, na verdade. Nada de conversar com o pessoal das Ciências Naturais, Estatística ou Computação. Ironicamente, são muito menos pluralistas do que nós, do mainline da economia. Viva as abelhas!

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Aula de economia para economistas e leigos

Excelente texto. Cito um longo trecho:

Um dos grandes desafios para um economista é explicar o que ele faz da vida. As pessoas entendem que uma das coisas que um professor de economia faz é ensinar economia. Mas o que seria isso, exatamente? A maioria presume que seja algo que tenha a ver com investimentos e administração financeira. Certa vez, conversando dentro de um avião, disse a uma senhora que eu era economista. Ela respondeu, ‘que vergonha, meu marido ama o mercado de ações’. Hmm… Eu não contei para ela que, com a exceção das vantagens dos fundos mútuos e indexados de investimento, não sei nada sobre o mercado de ação.

Minha companheira de viagem poderia ter se beneficiado da leitura de Alfred Marshall, que chamou a economia de “o estudo da humanidade na condução de seus negócios cotidianos”. Essa foi a tarefa de Marshall, de Adam Smith, de Friedrich Hayek e Milton Friedman: eles tentaram entender o que as pessoas faziam e as implicações de seu comportamento para a sociedade como um todo.

Porém, minha definição de economia favorita é uma variante da de Marshall. Ela vem de um estudante que a ouviu de outro professor: a economia é o estudo de como se extrair o máximo da vida. Eu gosto dessa definição porque ela chega ao verdadeiro coração da economia – as escolhas feitas por nós, dado que não podemos ter tudo o que queremos. A economia é o estudo dos desejos infinitos e dos meios finitos, o estudo das escolhas limitadas.

Excelente, excelente. Se alguém não sabia o que era economia…agora não tem jeito.

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Conheça a George Mason University

Não sei como a faculdade ainda não tem convênio com um departamento tão genial como este. Eis um parágrafo para se pensar:

Adjunct professor Arnold Kling offered a terser précis of the GMU way. “My simple way of describing it is that at Chicago they say, ‘Markets work; let’s use markets.’ At Harvard and MIT they say, ‘Markets fail; let’s use government.’ And at George Mason, we say, ‘Markets fail; let’s use markets.’” This seeming paradox means, that GMU sees plenty of deviations from the “perfect neoclassical paradigm,” which requires “perfect information, perfect competition,” but that unlike Harvard or MIT, they do not automatically “ring a bell and say, ‘We need more government.’ Markets come up with solutions to problems of information.”

Há várias outras observações interessantes e, eu diria, cuidado com o parágrafo acima. Fugir do paradigma neoclássico, aqui, não significa ser pterodoxo, como na selva (embora, sim, este seja o caminho mais fácil). Prova: não existe um único economista brasileiro que se diga não-ortodoxo e siga a linha de pensamento da GMU. Aqui não, jacaré. O pluralismo pterodoxo é um só…