Max Weber não é tudo

Novamente eu com o assunto “religião”. Então você acreditava naquela história do Max Weber ter a ‘explicação definitiva’ sobre os determinantes do capitalismo, né? Bom, o tema já foi desconstruído aqui em vários posts mas um meio interessante de pensar nisto é imaginar: e se houver uma causalidade reversa?

Imagine que a religiosidade seja função da renda da pessoa e não o contrário. Pois é…

The Effect of Income on Religiousness

Buser, Thomas. 2015. “The Effect of Income on Religiousness.” American Economic Journal: Applied Economics, 7(3): 178-95.

Abstract

How does income affect religiousness? Using self-collected survey data, we estimate the effects of income on religious behavior. As a source of exogenous income variation we use a change in the eligibility criteria for a government cash transfer in Ecuador and apply a regression discontinuity strategy to estimate causal effects. We find significant effects of income on religiousness. Families that earn more go to church more often. Families that earn more are also more likely to be members of an Evangelical community rather than of the mainstream Catholic Church. (JEL D14, H23, J12, J31, O15, Z12)

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Causalidade e correlação

Tema comum aqui no blog é a questão da correlação com a causalidade. Como meus leitores nem sempre são economistas, tenho tido mais cuidado em falar sobre isto nos últimos textos que incluem algum gráfico com duas variáveis.

Isto tudo só para falar deste tópico no blog de causalidade da UCLA.

O brasileiro selvagem, o trânsito e a liberdade

Descia a rua com calma e, lá embaixo, outro motorista vira e entra na mão oposta. Ao lado dele, espaço para se acomodar. Do meu, nenhum. Vejo que não há muita folga na passagem dos dois carros e, assim, páro e vou lentamente para não arranhar meu carro e nem o do outro motorista. O mesmo não resiste: “- Folgado, heim”? O que este episódio nos ensina? Primeiro, que muitos brasileiros não entendem a educação no trânsito. Quem entra na via não tem a preferência sobre quem nela já está. Em segundo lugar, o episódio mostra que o brasileiro pode ser bem selvagem em situações do mais absoluto cotidiano.

Você deve se perguntar, imagino, sobre como eu vejo um Brasil mais liberal gerando mais prosperidade para todos já que o nível de educação de gente como este motorista beira à selvageria (sem ofensas aos que habitam as selvas). Você pode se perguntar mais: como é que o brasileiro viverá em sociedade se não tem, em média, um nível de educação decente? E o que dizer do nível de leitura: dois livros (contando ebooks) ao ano, segundo uma pesquisa divulgada há algum tempo, com surpreendente baixo nível de estardalhaço, na imprensa?

Geralmente, 90% dos meus amigos mais autoritários começam seu argumento desta forma. Quase posso enxergá-los dizendo: “- E agora, camarada? Este imbecil aí vai aprender o tal liberalismo”? Ou então: “- Eu não te disse? Brasileiro não sabe viver em sociedade. Não tem jeito mesmo”. Daí passam para todo tipo de solução (principalmente se a conversa ocorrer em um boteco…) como: “- Tem que botar este povo na linha com leis mais duras”! Ou: “- Este povo tem que ser obrigado a aprender no chicote. Precisamos de mais “militarismo”!

Os argumentos, digamos, brasilocêntricos, sempre fazem questão de enfatizar a estupidez do povo brasileiro. Por algum motivo mágico, os críticos, também brasileiros, escapam deste estado de burrice e alegam que isto é normal porque “- Eu tenho estudo, eu fiz faculdade”. Bem, infelizmente, muitos destes meus amigos são capazes de furar filas, dirigir como o imbecil acima, etc. Ou seja, não é tanto a educação formal a causa do problema, embora ela seja importante.

Por que brasilocêntrico? Bem, porque não é verdade que comportamentos assim não ocorram em outros países. Por exemplo, os suíços podem portar armas e não saem por aí matando gente em escolas. Logo, dizer que desarmar as pessoas soluciona o problema da violência no Brasil não é uma afirmação lá muito sólida. Outro exemplo interessante e triste é o do estupro de mulheres. Nenhuma lei impediu, até hoje, que o fenômeno terminasse em qualquer lugar do mundo. Entretanto, parece ser correto dizer que – voltando à Suiça – haja menos estupros neste pequeno país europeu do que no Brasil (mesmo que façamos as costumeiras normalizações como “estupros por 10 mil habitantes”). Então, nada de brasilocentrismo (ou jabuticabismo).

Sabemos, graças a pesquisas as mais diversas, que há algumas características impressas em nosso DNA por conta do processo evolutivo (e lembre-se que macacos podem ser tão ou mais violentos que os seres humanos). Por outro lado, nossa evolução também nos faz criar instituições que prolonguem nossa sobrevivência. Tais fatos valem para brasileiros e não-brasileiros, claro. Não é difícil se aceitar que nossa sobrevivência tenha uma relação positiva e forte com a renda per capita (ou da renda familiar), o que nos leva, para a tristeza dos que odeiam a economia, à inevitável necessidade de entender que tipo de instituições geram mais ou menos renda per capita (e, eventualmente, que instituições geram sociedades menos desiguais).

Sobre esta questão, os economistas têm trabalhado um bocado e, claro, sabemos pouco ainda. Nosso conhecimento parece indicar alguns fatos surpreendentes e outros nem tanto. Por exemplo, sabemos que algumas instituições geram maior renda para as famílias do que outras porque estas instituições foram moldadas (geralmente por ninguém em particular ou como resultado inesperado de alguma medida tomada por alguém, no governo ou não) de maneira a incentivar as trocas voluntárias entre pessoas.

Sabemos também que há ambientes que poderíamos chamar de “cultural”, no sentido de certos valores que alguém poderia chamar de “base moral” que levam ao desenvolvimento. Por exemplo, sabemos que pessoas que valorizam matar outras pessoas não são lá muito propensas a trocas voluntárias e preferem o roubo. Este não é um bom valor em termos das trocas voluntárias mas, surpreendentemente, pode ocorrer de o roubo gerar, de forma não-intencional, instituições pró-desenvolvimento. É possível imaginar que a abundância de terras em um vasto continente norte-americano no início de sua colonização tenha gerado pouca demanda por direitos de propriedade privados. Não-intencionalmente, o crescimento demográfico torna a terra mais escassa e, portanto, esta demanda pode mudar.

Que valores são os “melhores” para gerar uma sociedade próspera e pacífica é algo que não sabemos responder ainda. Por outro lado, parece mais interessante pensar que sua descoberta é um processo de tentativa e erro que pode acertar seu alvo se não for tolhido por instituições ruins. Por exemplo, ao proibir os moradores de um bairro de passearem com seus filhos numa praça, estará o governo gerando pessoas enclausuradas com todas as consequências que daí advém (boas ou más).

grafico_mortes_liberdade

O tema é, sem dúvida, polêmico e cheio de arapucas ao longo do caminho. Entretanto, percebo que até mesmo o pobre motorista sem noção de educação básica pode aprender a dirigir melhor em uma sociedade mais liberal do que em uma sociedade autoritária. Aliás, países mais livres (tomando apenas a dimensão econômica) também parecem ser países com menos fatalidades no trânsito (veja o gráfico acima). Pura correlação ou há uma conexão causal? Será que a liberdade econômica gera infra-estrutura melhor e, portanto menos acidentes? Ou será que a liberdade econômica é compatível com uma atitude menos violenta e, portanto, há menos acidentes?

Não tenho a resposta, mas imagino que o leitor tem muito a ganhar se pensar neste problema e, claro, cuidado com o trânsito: motoristas mal-educados e violentos ainda não são a exceção neste país…

Fonte dos dados: Wikipedia (verbete: List of countries by traffic-related death rate) e http://www.freetheworld.com.

Pesquisas pouco explicadas (ou explicativas)

Veja só esta, sobre educação e reeleição. Resumo: o jornalista diz que se encontrou o seguinte resultado: gastos em educação não garante a reeleição. Cá para nós, o que isto nos diz? Nada.

Exemplo: o presidente da Silva, em 2002, disse que manteria a política ortodoxa do presidente Cardoso. Resultado? Cardoso não reelegeu o sucessor.

Assim, das duas uma: ou a matéria está incompleta ou a pesquisa é muito primária. Quem souber mais sobre ela e quiser nos ajudar, agradecemos.

Por que a correlação não importa

Veja esta notícia. Após cinco parágrafos onde se fala dos possíveis efeitos da TV – em termos de programas como O.C. ou The Bachelor –  na atitude dos adolescentes, no último e derradeiro parágrafo (1/6 do texto), o blogueiro finalmente fala sério:

The research was correlational, so as the researchers acknowledged, rather than TV shows affecting teenagers’ attitudes, it’s perfectly plausible that teenagers with traditional attitudes toward gender roles simply tend to favour watching shows like the O.C.

Quantas vezes já não li na imprensa nacional um monte de traduções de matérias curtinhas que falam de resultados “científicos” baseados em uma única correlação? O que diriam estes tradutores-jornalistas-editores se alguém lhes disesse que há uma correlação entre “escolher jornalismo” e “assistir filmes pornôs em excesso”? Telhado de vidro, né? Por isto é bom sempre lembrar que uma correlação não importa.

Note bem, leitor, a história não pára nas pitorescas histórias envolvendo preconceitos de psicólogos contra a televisão. Há muita matéria de economia que parece ser escrita por alguém que parou o curso de estatística na correlação. Há de se ter cuidado ao ler estas coisas…

Correlação ou Causalidade?

Agora é o outro jornal de São Paulo que diz algo similar ao que foi publicado no Estadão há umas duas semanas: o Bolsa-Família e a votação do presidente da Silva têm correlação positiva. A notícia só não é idêntica porque o pessoal não analisou o desempenho escolar (veja também esta notícia, sobre uma possível manipulação em ano eleitoral).

Obviamente, todo mundo que passa por uma notícia como esta se pergunta: então o governo usou a Bolsa-Família como moeda de troca eleitoral? É possível. Mas existe uma segunda pergunta que não se confunde com a primeira, embora seja -lhe uma decorrência natural. Trata-se de: uma vez que o Bolsa-Família existe, ele gerou votos adicionais ao presidente da Silva?

Para esta pergunta, veja bem, não basta uma correlação simples, como os jornalistas têm feito. É preciso um pouco mais de trato estatístico com os dados. Qual a diferença entre correlação e causalidade? De forma resumida, eu diria que é o grau de sujeição de seu argumento sobre a causalidade à terrível coincidência. Pode ser que, simplesmente, coincidiu de as variáveis X e Y serem correlacionadas positiva, neutra ou negativamente. A explicação causal necessita um pouco mais. Uma sugestão óbvia é uma regressão múltipla, envolvendo mais variáveis. Eu diria mais. Acho que um bom meio de se iniciar esta análise é aplicar variáveis instrumentais aos dados, sob um arcabouço teórico específico.

Em outras palavras, se eu fosse um jornalista realmente obcecado pelo tema, correria para um pacote econométrico qualquer, importaria os dados, e tentaria provar a causalidade entre Bolsa-Família e votos. Vai que ela existe mesmo…