pterodoxia

Grandes momentos do pensamento (oculto) heterodoxo

Bom exercício de criptografia da mente dos marshall-kabloqueados-pós-sei-lá-o-quê-neo-ricarditos-et-caterva. Sim, os mesmos que nos deram anos de planos de estabilização fracassados, além da retórica pitecantrópica que reina na aKademia. Com tantos grandes momentos (por quilômetro quadrado?), em breve, teremos que organizar um livro de pensamentos, como aqueles que existem para George Bush.

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Grandes momentos da heterodoxia brasileira

Este aqui merece registro para os anais dos heterodoxos (medidos em número de seus membros por quilômetro quadrado, se desejar, leitor):

O pacote anunciado ontem contraria o discurso oficial do governo, que durante toda a discussão sobre a CPMF prometia que não aumentaria impostos. Mas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, usou ontem um argumento “técnico” para negar que tenha havido quebra de palavra. “O compromisso do presidente Lula era de não promover alta de impostos em 2007. E de fato não o fez. Estamos fazendo em 2008, o que está dentro do programado”, afirmou. Em meados de dezembro, o próprio Mantega fora repreendido por Lula porque dissera, em entrevista ao Estado, que o governo aumentaria impostos. Pouco antes do Natal, o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), afirmou: “Teremos um final de ano tranqüilo, sem sobressaltos, sem pacote e sem medidas de corte. O empresariado pode aproveitar tranqüilo o Natal e o Ano-Novo.”

Entendeu? A sua vida, seus direitos, sua saúde, enfim, seu dinheiro, é tratado com o mesmo carinho que a equipe de Zélia Cardoso lhe devotou quando do infame sorteio do limite do confisco.

É assim que pensa um pterodoxo, em sua versão heterodoxa, a mais em voga no Brasil atual…

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Dívida por Quilômetro Quadrado?

Estou me preparando para ler “A volta do Idiota”. Como? Lendo o “Manual do Perfeito Idiota Latino-americano” [Mendoza, Montaner e Llosa (o filho)]. Não havia lido ainda porque não costumava ligar para “eles” (talvez por puro desleixo, reconheço). Acho que estou de saco cheio, a idiotice chegou a um limite insuportável (pode ser bobagem ou uma avaliação tardia, mas avaliação é minha, assumo as devidas responsabilidades).

 

Entre tantas explicações e características apontadas pelos autores sobre o “idiota” me defronto com uma interessantíssima. A bíblia do “idiota”: ao contrário do que muitos poderiam esperar – “O Capital” ou “O Manifesto” – a bíblia tem que ter a mesma origem do “idiota” (claro que influenciada por referências estapafúrdias como as citadas acima). Trata-se de “As Veias Abertas da América Latina” de Eduardo Galeano. A revisão feita por Mendoza, Montaner e Llosa no capítulo III do “Manual do Perfeito Idiota Latino-americano” sobre o texto de Galeano é realmente hilária, mas uma passagem me prendeu e não tenho como não relacioná-la às pérolas ditas recentemente pelo “PROFESSOR do IPEA”. Lembram? Sugeriu que ao invés de normalizarmos as variáveis macroeconômicas pelo PIB, deveríamos agora fazê-lo pela área. Alex já deu uma breve aula sobre isso. De onde ele [o PROFESSOR] teria tirado essa brilhante idéia?

 

Não sei, mas……..Transcrevo agora a passagem na qual Galeano afirma que a alta taxa de crescimento populacional da América Latina não é [era] alarmante:

 

“Na maior parte dos países latino-americanos não sobra gente: ao contrário, falta. O Brasil tem 38 vezes menos habitantes por quilômetro quadrado do que a Bélgica; o Paraguai, 49 vezes menos que a Inglaterra; Peru, 32 vezes menos que o Japão”. (p.18)

 

Vou dizer mais o quê?

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O ocaso do modelo regulatório da administração da Silva?

Esta matéria mostra a importância de se ter gente competente criando incentivos em casos como o da regulação do setor aéreo. É bom ler e pensar sobre o que se faz neste país quando uma lei tem brechas. Mas há mais do que isto. Há uma discussão mais profunda sobre o próprio sentido da existência da ANAC tal como desenhada na administração do sr. da Silva.

Discutir isto envolve não apenas gente que saiba Economia, mas também Direito (e seus meandros nacionais e internacionais), conhecimento de Economia Política Não-Pterodoxa (i.e., não é repetir Marx, Kalecki ou, como está mais em moda, os “neo-schumpeterianos”. Nada disto, falamos de Buchanan, Tullock, Tabellini, enfim, gente como esta).

Mais ainda, não é apenas ter gente séria – e aí o modelo de nomear político que perdeu eleição é uma besteira…de quem nomeia – mas também saber que a própria regulação em si é, ainda, uma polêmica na teoria Econômica.

Isto é o mais irônico da história, sabe? Pterodoxos adoram justificar suas medidas de política econômica fantasiosas com o argumento de que “não é só a teoria X (X = mainstream, ortodoxa, neoclássica) que importa, mas sim a visão Y (Y = qualquer outra coisa que o sujeito pense ser a panacéia ou “o que Keynes realmente quis dizer”)”. Fazem-no quase com fervor religioso. Mas eles nunca aceitam o argumento da não-regulamentação avançado por um subconjunto de Y, os austríacos ou, sei lá, o bom e velho George Stigler. Nestas horas, claro, só existe a teoria Y que justifica seus empregos como consultores ou seus 5 minutos de fama na TV.

Fala-se muito de pluralismo entre os pterodoxos (cuja correlação com os apoiadores do sr. da Silva é mais ou menos de 0.9871), mas, na prática, como diziam eles mesmos, a teoria é outra. Enquanto isto, leitores desinformados continuam a ser apenas bucha de canhão das loucuras desta gente. Eu seria mais curioso em minhas leituras e mais inquisidor. Deve-se sair da armadilha da doutrinação dos ensinos básico e médio, que prega uma única visão de história como sendo a correta afim de avançar os interesses de uma parte da sociedade. Seja crítico que já ajuda. Se você se transformar num clone do sr. da Silva, digo eu, pelo menos foi por meio de estudo sério. Se perceber que não é por aí, poderá ou não concordar comigo. Mas não cairá no papo dos discursos fáceis…

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Ainda o escândalo do leite

Um leitor deste blog fez um comentário indignado sobre as externalidades negativas causadas por esta gente. Vale a reprodução integral:

Fico impressionado com a falência dos órgãos públicos em cumprir com sua responsabilidade. O ministério da agricultura possui laboratórios para analisar alimentos, a ANVISA deveria fazer o papel de vigilância, enfim, no caso do leite há muito tempo que se observam abusos e que mostra que nada se faz a respeito.
A ANVISA ontem me causou espanto a declaração de uma infeliz que está ocupando um posto lá, pois afirmou que a única coisa certa é de que ninguém vai morrer por causa disto. Bem, partindo de uma pessoa normal, mostraria a ignorância no assunto, porém partindo de alguém que está “ocupando” um cargo de responsabilidade mostra o grau de ignorância e estupidez, pois vigilancia sanitária não pressupõe somente cuidar daquilo que mata e sim da integridade sanitária de qualquer produto e principalmente de evitar riscos à população. Adicionar soda caustica e agua oxigenada para matar bacterias e prolongar o leite longa vida é crime, pois não é necessário em empresas idoneas esta prática. Quantas pessoas passaram a ter problemas gastricos em função disto e sequer sabem o motivo, pior é que a sabedoria popular manda tomar “um copo de leite” pois é bom para o estomago.
Fico chateado em saber que não estamos somente tendo o apagão aéreo, o da dengue, o das estradas, o da educação, fico chateado em descobrir que estamos à mercê de tudo, sem que o estado cumpra o seu papel que não é somente o de arrecadar impostos e sim zelar pelo bem estar coletivo.
Infelizmente isto é o BRASIL

Eis uma boa pergunta: se pessoas passaram a ter problemas por conta disto, quem pagará a conta? Haverá tratamento para todas as pessoas que, comprovadamente, passaram a ter sua saúde afetada por conta da adulteração? Se sim, quem pagará e como? Mais do que um interesse teórico, creio que é uma questão humana bem séria.

Claro, a questão da regulação mal feita me faz perguntar outra coisa: com tantos apelos por parte de pterodoxos e porta-vozes do pensamento bolivariano (todos no governo?) que dizem que nosso governo é raquítico porque, ahn…, o gasto público por quilômetro quadrado é um dos menores do mundo, por que a ANVISA não detectou isto antes? Não há esta desculpa de “é tudo feito por amostragem”. Basta fazer a amostragem bem feita. Mais ainda: o governo vem crescendo initerruptamente há dois mandatos presidenciais, pelo menos. Não falta gente. Há muita gente no governo. Concursos públicos para agências regulatórias? Passe na banca mais próxima de sua casa e confira: o governo contrata sem parar. Não, gente, nenhum lugar do mundo tem 100% da PEA empregada no Estado. Minto, há Cuba e a Coréia do Norte, modelos bolivarianos perfeitos. Só que, lá, é bem possível que a adulteração de produtos tenha se tornado norma pública…

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História do Pensamento Econômico Brasileiro

Eu achava que estávamos em um estágio mais desenvolvido da academia brasileira. Para mim, pterodoxos eram minoria e as divergências eram mais bem trabalhadas. Mas eis que o Alexandre Schwartzman, citado aqui ontem, mostrou que há gente abusando da paciência de qualquer ser letrado e pensante com esta história de “estado-nanico-obtido-com-uma-medida-bizarra”.

Além disso, estava lendo dois textos sobre política industrial. Parti do pressuposto que ambos eram sérios mas um deles, realmente, abusa da minha paciência. Quanta imprecisão! Quanta falta de dados para corroborar afirmações quase religiosas. Quantos termos nunca definidos. Pior é o argumento implícito de textos como este: “este texto foi feito sem modelos porque o leitor médio não gosta de dificuldades, então, ele ficará mais simpático à minha causa, por mais louca que ela possa ser”. Graças a Deus o texto sério também não usa matemática (embora, ao contrário do outro, mostre tabelas e gráficos bem ilustrativos dos seus argumentos).

Refaço meu julgamento: nunca antes na história deste país a ciência econômica correu tantos riscos. Seus detratores estão soltos e querem desmoralizá-la a qualquer custo para implantarem a mediocridade analítica. Existe gente que realmente…

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Inteligência nanica

Trecho do (sensacional) texto:

Segundo artigo publicado recentemente nesta Folha o estado brasileiro é nanico, o que me trouxe uma revelação inesperada: “nanico”, seguindo as regras do duplipensar orwelliano, deve ser exatamente o contrário do que nos informam os dicionários (pequeno, acanhado), resolvendo o mistério milenar que cercava tão saboroso fruto.

No artigo o autor apresentou um trabalho empírico sólido para caracterizar a pequenez do Estado nacional: enquanto a Bélgica e a Holanda apresentam respectivamente 310 e 227 fiscais de impostos por 1.000 km2, o Brasil tem apenas 0,9. Por este raciocínio, o país deveria ter entre 1,9 e 2,6 milhões de fiscais de impostos, alguns dos quais responsáveis pelas áreas densamente povoadas da Reserva Raposa do Sol, garantindo que se respeite o sagrado direito dos ianomâmis pagarem impostos (mesmo porque os fiscais terão que ser pagos, não?).

Trata-se de uma revolução analítica: ao invés de normalizarmos as variáveis macroeconômicas (gasto, tributação, investimento) pelo PIB, passaremos agora a fazê-lo pela área. Graças a isto o Brasil, em vez de simplesmente ganhar o grau de investimento, passará direto à categoria AAA (mínimo risco) quando a dívida pública for medida com relação à extensão territorial.

Como se vê, a pterodoxia manipula dados e métricas igualzinho ao que criticavam nas – supostas (como gostam os jornalistas) – práticas dos governo militares. Alexandre tem razão: é triste. O mais incrível, para mim, é que jornalistas não percebam (ou fechem os olhos) para estas coisas quando fazem suas matérias. Falam muito mal de economistas – um dia li um que fazia beicinho porque “os economistas gostam de mandá-los ler livros ao invés de ensiná-los tudo de graça”.

Para gente assim, uma história do meu falecido professor de Hegel, o Baesse. Contava ele que estava no doutorado em Campinas quando, numa turma de doutorandos multidisciplinar, foram a um bar no qual um sujeito tocava piano.

Para azar dele, o sujeito era conhecido da doutoranda de Música (ou algo assim). Ao final da música, convidaram-no para a mesa. Foram-lhe apresentando um a um: “este aqui é fulano, doutorando em Física”, “este é beltrano, doutorando em Matemática”….até que chegaram no Baesse: “este é o Baesse, doutorando em Filosofia”.

Contava-nos o professor que os olhos do pianista brilharam. “Ah, filosofia? Que barato. Eu também curto filosofia. Adoro Lobsam Rampa (não tenho coragem de colocar um link para isto…). E você? Curte que filósofo?”

Baesse diz que se enfureceu, mas, educadamente, segurou e disse: “eu estudo Hegel”.

Mas as coisas ficaram piores. O sujeito soltou mais uma: “Hegel? Que legal? Qual é a do Hegel?”

Baesse, sem se aguentar, respondeu: “Meu amigo, estou aqui há cinco anos tentando entender o que Hegel disse. Não dá para explicar assim”.

O pianista, tal como o jornalista que fez beicinho porque o economista não lhe explicara o não-trivial de forma macacal, disse, em tom desafiador: “Se você for mesmo um bom filósofo, você me explica Hegel em 15 minutos!!!”

Aí veio a resposta de Baesse: “Façamos um trato. Eu lhe ensino Hegel em 15 minutos se você me ensinar tocar Bach no piano em 15 minutos!”

Conversa encerrada e o pianista não tocou mais no assunto. A moral da história é óbvia demais ou quer que faça um desenho? Isto me lembra algo importante: não é questão de se fazer uma pergunta absurda de forma educada (“por favor, senhorita transeunte, posso lhe estuprar?”). A questão é que tem perguntas que não se deve fazer e ponto final. O mesmo vale para observações idiotas.

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Países periféricos exploram países centrais

Para a série “falácias econômicas, pterodoxos felizes”, observe a notícia cujo trecho reproduzo abaixo.

Após captar R$ 453 milhões em abril deste ano com uma oferta de ações (IPO, na sigla em inglês), a empresa de refrigeração comercial Metalfrio anunciou ontem que está prestes a concluir sua segunda aquisição no exterior. O alvo da vez é a turca Senocak, líder na fabricação de aparelhos de refrigeração na Turquia, Ucrânia e Europa Oriental. Em maio, a Metalfrio comprou a mexicana Nieto por US$ 4,7 milhões.

Ok, a Turquia não é a Alemanha, mas vale o argumento: cadê a patota fanaticamente hipnotizada pelo “dualismo” entre “países centrais e periféricos” nestas horas?

É divertido ser sério com os conceitos. Você ri um bocado de quem acha que ciência é pura e simples criação de jargões para fins políticos (ou para se obter um cargo público).

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Bons motivos para seu pessimismo com a selva

Quem disse:

Vi um cartaz na faculdade hoje e achei interessante a proposta: os Feds regionais promovem, uma vez por ano, um concurso para estudantes de graduação onde estes, em última instância, simulam uma reunião completa do FOMC (o Copom deles). Os estudantes devem montar uma apresentação com uma exposição clara sobre a conjuntura do país, estabelecer os principais problemas e, por fim, dizer qual deve ser a trajetória dos juros que o Fed deveria escolher como consequência dos problemas apontados.

No Brasil, acho que o máximo que chegamos a ter foi o Concurso de Monografias, de 2003, e as ações do “BC e Universidade”, onde funcionários do Banco dão palestras sobre as principais funções de um Banco Central.

Imagino o dia em que chegaremos a ter uma promoção como esta, e… Não, na verdade, eu não imagino o dia em que chegaremos a ter algo neste sentido: do jeito que estão as universidades no país, vai aparecer uma meia dúzia de bobo-alegres, erguendo cartazes contra a privatização da Vale, dizendo que o BC dá dinheiro para os banqueiros, e apresentando, por fim, o trabalho como se fosse um jogral (alguém se lembra do significado disto, ou já ouviu esta palavra na vida? Quem conhece, sabe exatamente o que eu estou falando). Tudo para, no fim, dizerem que o resultado foi manipulado para dar o prêmio para alguma das grandes universidades em economia que fosse alinhada com o pensamento neo-liberal privatizante. No limite, chegaríamos a uma CPI… Deixa para lá.

Acertou. Foi ele.

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Irracionalidade Racional, o Mito da Eficiência da Democracia e uma Observação sobre a UCB

I. Overture

Quando eu li o “Mito do Fracasso da Democracia” (numa tradução algo sofrível), anos atrás, eu o fiz por causa do Byran Caplan. Depois, Caplan prosseguiu no desenvolvimento de sua tese da irracionalidade racional e eu fui ler outras coisas.

Pois aí eu abro meu computador, passeio pelo Google Reader e encontro isto. Nada mais interessante. Aliás, os textos do debate parecem estar disponíveis para leitura (UPDATE: veja isto também).

II. Andante ma no troppo (ou algo assim)

Mudando um pouco de assunto, ontem eu apresentei um artigo escrito com o Ari e o Jocka lá na UCB. Eu não conhecia a UCB, nunca havia visto o Adolfo Sachsida pessoalmente e, em resumo, eu digo o seguinte: os professores da pós são muito simpáticos e o debate que tivemos foi muito bacana. No meio da discussão, claro, tentei jogar uma piada mas, como sempre, ninguém me entendeu (o que nos leva a pensar sobre dois erros: “erro tipo I”- meu humor é muito sofisticado, mas ninguém entende; e “erro tipo II” – meu humor é muito ruim, mas todo mundo gosta).

O artigo, para quem (ainda) não sabe, tem lá um ranking de produtividade dos departamentos de economia brasileiros (não todos, apenas os que têm pós-graduação strictu sensu). A UCB ficou bem no ranking e, após as bem-humoradas colocações do Adolfo sobre meu potencial de criar inimigos com este artigo, concluí que há uma hipótese testável adicional: somente seremos convidados para expor o artigo nos departamentos melhores colocados. ^_^

Ah sim, a piada. A piadinha me foi dita pela primeira vez pelo meu ex-orientador, o Ronald Hillbrecht. Trata-se de uma paródia, por assim dizer, de um antigo texto inacreditavelmente celebrado pela pterodoxia nacional, o “Produção de Mercadorias por Meio de Mercadorias”, de um tal Sraffa. A piada, no contexto da produção acadêmica de artigos, é falar que existe uma função de produção de artigos que é a “Produção de Artigos por Meio de Artigos”. Claro, só entende a piada quem foi aluno de gente pterodoxa (aqueles que passam metade de suas aulas dizendo que o que ensinam não presta para nada, exceto quando a tonalidade política do item exposto lhes é favorável), o que, creio, não é o caso da S.W.A.T. que leciona na UCB.

Por falar no Adolfo e por falar em pterodoxia, eis um teste simples para você saber se existe ou não doutrinação pterodoxa em seu curso: cheque o que é efetivamente lecionado no total das cadeiras que normalmente tratam da História do Pensamento Econômico. Se elas não ultrapassam Marx, então há apenas as seguintes possibilidades: (i) seu professor é um ignorante e nunca estudou nada além do século XIX (e olhe lá), (ii) seu professor conseguiu transformar um curso de 60 horas em algo incrivelmente monótono, (iii) seu professor é, sim, um pterodoxo doutrinador.

Na verdade, eu acho que são somente duas possibilidades, mas eu concedo o benefício da preguiça (a hipótese (ii)) como opção entre a ignorância e a doutrinação deslavada.

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Desastre no IPEA (A Economia Política da Esquerda Brasileira)

A blogosfera chapa-branca não falou nada, mas o Duke apontou uma importante inflexão na maneira como se trata a independência de técnicos do governo na administração do sr. da Silva:

Pela milésima vez, falando de trocas no governo. Podem achar que é perseguição minha, mas os primeiros resultados já começam a aparecer. Primeiro saiu o Marcos Lisboa, depois saíram o Joaquim Levy, Murilo Portugal, Loyo, Afonso Bevilaqua, e não se falou mais nada. Substituindo estes, entre outros, estão Guido Mantega, Luciano Coutinho, Arno Augustin, Mangabeira Unger (responsável pelo IPEA agora), além de figuras efêmeras, como o Júlio Gomes de Almeida (que voltou para o IEDI, depois de passagem na Secretaria de Política Econômica). E não se fala nada! Aí, abro o jornal e leio a seguinte notícia (Painel – Folha de São Paulo – 7/9/2007):

“Não se sabe o que Mangabeira Unger fará no longo prazo, mas, de imediato, decidiu acabar com o Grupo de Conjuntura do Ipea, que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, desde sempre hostilizou por considerar repleto de tucanos. O grupo, no qual se destacam nomes como Fábio Giambiagi, existe há cerca de 30 anos no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, que em junho passado migrou do guarda-chuva do Ministério do Planejamento para o da recém-criada secretaria do professor de Harvard. Embora já tenha recebido aval do governo, Mangabeira enfrentará reação externa. Um dos que se movimentam na tentativa de salvar o Grupo de Conjuntura é o ex-ministro João Paulo dos Reis Velloso.”

Isto me lembra de um destes poemas que circulam na internet, de autoria que se tornou desconhecida (se alguém souber, favor enviar) que diz assim:

“Primeiro, eles vieram buscar os comunistas. Não disse nada, pois não era comunista; Depois, vieram buscar os judeus. Nada disse, pois não era judeu; Em seguida, foi a vez dos operários. Continuei em silêncio, pois não era sindicalizado; Mais tarde, levaram os católicos. Nem uma palavra pronunciei, pois não sou católico. Agora, eles vieram-me buscar a mim, e quando isso aconteceu, não havia mais ninguém para protestar.”

Bom, estamos chegando perto da hora em que não será mais possível protestar…

Eu simplesmente não acredito nas besteiras que ouço. Quer dizer que criar (mais) um canal de TV do governo não é tentativa de ideologização, mas implodir o grupo de conjuntura do IPEA é legítima decisão administrativa? Pelo amor de Deus. Só sendo blogueiro e/ou jornalista muito comprometido com causas estranhas (ou com algum dinheiro no bolso, ou privilégios em “furos” jornalísticos) para achar isto tão normal quanto a previsão de tempo.

Eis a economia política (as famosas “falhas de governo”) em ação, novamente, desta vez por conta do tal Mangabeira. O mais incrível é o motivo da extinção (não o anunciado, mas o verdadeiro, aquele subjacente e que o Duke revelou de forma clara aí em cima).

Meus pêsames ao pessoal sério do IPEA e aos eleitores-cidadãos. Talvez sobre uma Bolsa-Farinha-de-Mandioca ou, como diziam na época de Miguel Reale (ele mesmo dizia muito isto): “tem gente que ficará bem satisfeita com um prato de lentilhas”. O voto por um prato de lentilhas. Reale deve estar se revirando no caixão…

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Há PhD’s e PhBos…

Dani Rodrik, Princeton: “call me naive, but I also think that Mugabe would not have pursued his policies for this long if he had a better grasp of debt dynamics.”

Anil Hira: Simon Fraser University: “This article examines more carefully the oft-made hypotheses that (1) “technocrats” or politicians with an economics background are increasingly common and (2) that this “improvement” in qualifications will lead to improvements in economic policy….Using statistical analysis, the article finds that we cannot conclude that leadership training in economics leads to better economic outcomes.”

So I ask you ladies and gentlemen, who ya got??

O trecho acima é do Mungowitz/Angus. E o que podemos concluir do que foi dito acima? Basicamente, que em processos decisórios que não envolvem o mercado (como é o caso da burocracia), incentivos políticos são importantes. Enquanto no setor privado, o incentivo econômico seja o mais atuante (o incentivo político atua, mas uma perspectiva de prejuízo já muda um bocado a opinião do chefe), no setor público sua competência não é tão importante assim.

Agora, às qualificações.

Primeiro, é claro que muita gente insegura, cheia de medos, adora fazer concurso público porque não confia no diploma que acaba de adquirir e prefere um emprego estável com algum salário. Neste sentido, a estatização da economia também funciona como uma fonte de perpetuação dos problemas psicológicos de alguns carinhas.

Segundo, vamos admitir que a expertise de um economista seja sinônimo de bons conhecimentos técnicos (muito economista tem um diploma, mas não tem nada na cabeça). Suponhamos, para simplificar, que todos os economistas com diploma sejam, realmente, melhores do que os sem diploma. Dado que os incentivos políticos atuam, prejudicando o bom andamento da política econômica, o que seria melhor? Deixá-los no setor privado ou colocá-los no governo?

A resposta passa, provavelmente, pela vantagem comparativa dos economistas em relação às falhas de governo. Se as falhas forem tão fortes que não adianta colocar no governo um economista bom, a sociedade ganha mais com este economista no setor privado.

E isto nos leva à última observação que alguém provavelmente resumiria, após ler o último parágrafo, na seguinte e indignada frase: “- Mas, Claudio, isto é maldade com o povo”.

De fato, é maldade. Mas o povo elege representantes que, por sua vez, escolhem tanto burocratas como também o tamanho do governo. No exemplo simples acima, o povo poderia até desconfiar (já que todo economista inteligente diria que o tamanho do governo além do ponto ótimo não seria recomendável), mas no mundo real, no qual existem pterodoxos e economistas, as recomendações sérias podem ser expulsas do mercado das idéias pelas recomendações populistas (alguém poderia batizar isto, ironicamente, de Lei de Gresham da política econômica).

Na verdade, o que Mungowitz e Angus dizem não é algo tão novo assim. Os estudiosos de Escolha Pública se dedicam a isto desde, pelo menos, 1953, quando Arrow falou daquela incômoda impossibilidade…