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Cerveja em casa x Cerveja fora de casa: edição pandemia

Exercício que gostava de fazer em sala de aula era a comparação dos números-índices de subitens do IPCA. Um deles, claro, refere-se ao título deste post.

Suponha que, na pandemia, a quantidade demandada (= ofertada), no equilíbrio, de cerveja em casa tenha aumentado mais que a de cerveja fora de casa. Isso pode ter acontecido por movimentos das curvas de demanda e oferta.

Um possível exemplo: a demanda de cerveja no supermercado aumentou mais que a demanda por cerveja nos bares, ceteris paribus as respectivas curvas de oferta. Ou isso aconteceu e as curvas de oferta não se deslocaram tanto (as de bares devem ter até recuado e as dos supermercados devem ter permanecido, em média, no mesmo lugar).

Bem, não sei como as curvas se deslocaram, mas olhando o índice relativo entre cerveja no domicílio e fora dele, o ano de 2020 apresenta um padrão misto para as regiões metropolitanas e também para o Brasil.

Belém, Recife e Salvador parecem ter apresentado um aumento relativo maior no preço da cerveja comprada em supermercados na maior parte do ano de 2020. Já Belo Horizonte, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Fortaleza, Curitiba e Porto Alegre apresentam oscilações mais variadas ao longo do ano.

Eu não sei como funciona a coleta de preços do IBGE diante de fenômenos como as entregas em domicílio por aplicativos de celular mas, caso isso já esteja sendo computado, os movimentos de preços do IPCA acima podem ser considerados mais fidedignos do cenário atual do comércio em que os aplicativos têm sido usados com uma frequência maior nos últimos tempos.

Ainda pensando que os aplicativos de compra por celular estejam no cômputo do índice, então existe a possibilidade de os gráficos acima estejam nos dando algum indício – ainda que indireto – sobre a presença de pessoas nos bares durante a pandemia.

Ou pode ser que a coleta de dados tenha diminuído consideravelmente por conta do bares fechados em relação aos supermercados, o que causa um problema na coleta dos dados e complica um pouco mais a análise.

De qualquer modo, quando se considera um período mais longo, fica clara a tendência de longo prazo decrescente em quase todas as regiões metropolitanas com a marcante exceção de Belém. Em outras palavras, no longo prazo, o índice de preço relativo da cerveja do supermercado em relação à do boteco vem em queda.

Ah sim, excluí das análises a Grande Vitória porque seus dados começam um pouco depois de 2012, mas o leitor pode se divertir pesquisando toda a base lá na página do Banco de Dados Sidra, no website do IBGE.

Humor · pandemia

Como sabemos, o mercado é uma doença: a culpa é do neoliberalismo

Vi muita gente esquecer o alfabeto e a matemática básicas – sem falar na cortesia – e passar a semana passada toda xingando um tal de neoliberalismo cuja definição, ao longo dos anos, tem sido alterada conforme o gosto do acusador.

Pensando nestas almas perdidas, resolvi estudar profundamente (?) a relação entre atividade econômica (trocas, mais-valia, exploração do trabalho, fora Temer) e Covid-19. Obviamente, deve haver uma relação.

Usando a econometria de séries de tempo burguesa, analisei dois estados neoliberais: MG e RS. Claro que tive o cuidado de usar as diferenças dos logaritmos porque o neoliberalismo engana muita gente com uma tal tendência que pode ser determinista ou estocástica segundo a econometria burguesa.

Existe um detalhe pouco importante, exagerado pela economia burguesa (portanto neoliberal) relativo ao baixo número de observações, mas não se engane: é tudo uma tramóia da burguesia que se auto-transmuta em aristocracia cafeeira ou burguesia industrial de forma aleatória.

As variáveis? Ora, os IBCR do Banco Capitalista do Brasil (BCB) medidos para os respectivos estados (dessazonalizados por algum método imperialista que bem poderia ter sido desenvolvido por algum brasileiro competente) e uns indicadores da pandemia.

O que os dados nos mostram?

No caso de MG, as correlações entre atividade econômica (o índice neoliberal do Banco Central) claramente pretendem enganar a classe trabalhadora. Note que só é forte – negativa com indicadores do número médio de novas morte e mortes acumuladas. Ou seja, mais atividade econômica, menos mortes. Não se deixe enganar: isso provavelmente é resultado do auxílio-emergencial keynesiano (logo, socialista) que ajuda a diminuir mortes. Mas nada se vê quanto aos novos casos.

Mas o caso do RS neoliberal é marcante: a atividade econômica não se relaciona fortemente com nenhum dos indicadores, o que, claramente, é fruto da luta entre patrões e empregados gaúchos contra a pandemia: a intensidade da luta anula as forças pró e contra o socialismo causando estas correlações fracas que, inclusive, são contraditórias (dialética!) no que diz respeito a casos e mortes.

O resultado líquido dos dois casos é claro: a luta contra o neoliberalismo segue forte (é preciso queimar pneus, principalmente se seu grupo socialista não tiver CNPJ). Em MG, graças ao auxílio keynesiano (um aliado momentâneo da luta que descartaremos assim que a vitória do proletariado estiver certa), o socialismo ganha uma sobrevida contra o mercado demoníaco (e pandêmico). No RS, a luta pelo socialismo não logrou gerar a correlação politicamente (e historicamente) correta – que é a positiva – entre a Covid-19 e a atividade (exploradora) econômica.

Como se percebe, o neoliberalismo segue como o culpado de nossa crise.