Choques institucionais: a importância de 1808

Muita gente pensa em abertura dos portos quando se fala em 1808. Mas há outro ponto que poucos ressaltam e que Jorge Caldeira aponta: este é o ano a partir do qual se permite a abertura de empresas no Brasil.

Até a vinda da Corte os negócios na colônia eram todos informais, com base na prática do fiado. Essa não era apenas uma opção dos comerciantes, mas também consequência da legislação. Até 1808, só era autorizada a abertura de empresas na metrópole.

Claro que fiquei curioso para saber quantos dias se levaria para abrir uma empresa em Portugal no século XVII (mas não pesquisei muito sobre o tema).

O autor também destaca – e ele insiste bastante nisto ao longo do livro – a importância do fiado que se pode pensar como uma solução informal (instituição informal) para o problema da falta de um sistema monetário formal (nada tão estranho assim, já que existia no que hoje é os EUA).

Da mesma forma, a lei não permitia nem garantia as letras comerciais, instrumentos que viabilizavam a separação dos fluxos financeiros e materiais na atividade econômica. Por esse motivo, em termos puramente econômicos, havia equivalência no tamanho da produção brasileira e da norte-americana. Do ponto de vista financeiro, porém, o abismo entre as economias era gigantesco. No Brasil, a circulação da moeda e a concessão de crédito não contavam com nenhuma proteção jurídica – e dependiam do fiado e da informalidade. Já nos Estados Unidos a circulação financeira desde sempre foi garantida pela lei – em 1733, ainda nos tempos coloniais, funcionava um banco comercial cuja principal atividade era descontar esses títulos.

O fiado, como outras instituições informais que operavam no Brasil, segundo Caldeira, sofrem um choque com a chegada da Corte em 1808, o que parece ter gerado uma janela de oportunidade interessante (na nomenclatura da Institutional and Organizational Analysis). Interessante pensar que talvez algumas respostas para o How Brazil left behind (tema da tese do meu amigo Fernando Zanella) possam estar relacionadas a este período…

Os trechos vieram de: CALDEIRA, J. História da riqueza no Brasil: cinco séculos de pessoas, costumes e governos. Estação Brasil, 2017, p.200.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s