O café dos mestrandos: o bem público provido privadamente

O bem público é indivísivel (não-rival) e não-excludente. Seria o café da sala dos mestrados um bem público ou um bem privado ofertado de forma coletiva? Ou ainda um bem de clube (ou “toll good”)? Um bem de uso comum?

Vejamos os fatos.

P_20180227_102005_vHDR_Auto.jpgA sala de estudos dos mestrandos – onde supostamente estudam os mestrandos, como diriam nossos jornalistas atuais quando: (a) querem induzir um viés ideológico (“supostamente” roubou, mas eu não acho) ou (b) são medrosos (“melhor dizer suposto que levar um processo ou, pensando bem, vou me fingir de ideologicamente simpático como em (a)”), tinha lá uma cafeteira velha e umas bolachas do século passado.

Em algum momento, após uma animada conversa sobre o café no Brasil e o Convênio de Taubaté (eu acho), eu e um mestrando, Caio, resolvemos mudar isso. Comprei uns cafés e ele trouxe sua cafeteira elétrica. Inicialmente, ele fazia o café. Logo em seguida, falei do adoçante que acabava e a Raquel comprou um adoçante do próprio bolso.

Como se vê, tínhamos um bem provido coletivamente. Cobrava-se pelo café? Não. Além disso, qualquer um – professor ou aluno – poderia (e pode) invadir a sala e encher sua xícara.

Em seguida, por pura sorte do acaso, um dos mestrandos que, por coincidência também é barista, melhorou a tecnologia do preparo do café com instruções específicas de como preparar a bebida que nos ajuda na hora de estudar.

Claro, apareceram os problemas de ação coletiva porque a cafeteira é tal que é mais fácil derramar café na mesa (ou no chão) do que na xícara (como apontado pelo Caio: um interessante problema de engenharia do fabricante) e nem todos limpavam (eu mesmo tenho preguiça, mas tenho me esforçado para ser mais civilizado e ajudo a deixar o local mais limpo).

P_20180420_134010_vHDR_AutoPosteriormente, comprei uns cafés melhores da Ucoffee (propaganda gratuita) – pedi moído, mas vieram em grãos – e o nosso barista providenciou a moagem dos garotos. Até o momento, o modelo parece quase auto-sustentável. O café matinal pré-estudos e pré-dissertação-meu-Deus-do-céu-preciso-fazer-isso-logo parece ter se estabelecido como uma rotina que a todos agrada.

O café é um bem de uso comum ou um bem público? Eu diria que, no momento, temos não-rivalidade e não-excludência operando igualmente, o que o torna um bem público, fruto da ação coletiva de um professor e de vários alunos (no caso, aluno = estudante). De vez em quando nos esquecemos de limpar a sujeira no chão (resquícios de bem público sempre existem…), mas eu diria que o experimento é um sucesso.

Por que pessoas (essencialmente, “o setor privado” por excelência e definição do termo) ofertariam o bem público? Acho que a idéia de um café de boa qualidade a menos custo (gasta-se menos tempo fazendo-o na sala do que tendo que ir buscá-lo fora) é um fator importante. Os custos e benefícios de se fazer este café também não são tão distorcidos: dado o pequeno número de envolvidos, falar em dispersão de custos e benefícios concentrados (ou seu inverso) não parece fazer muito sentido. Melhor dizendo, os efeitos de eventuais desvinculações de custos e benefícios são pequenos e facilmente solúveis com barganhas de Coase.

Obviamente, nem sempre há café na máquina e nem todos podem fazer café porque o objetivo central é estudar, passar nas avaliações, escrever artigos e fazer dissertações. Por outro lado, nada disto é possível sem um bom café, o que ajuda a explicar parcialmente o mistério da mão invisível que opera este café público.

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