Tensões liberais/libertárias (ainda o caderno de anotações aberto)

Eu seguiria Daniel Klein e usaria o termo liberal sem ambiguidades, mas o leitor brasileiro geralmente se confunde com as traduções erradas dos jornais (erradas, de má fé ou não). Então, prefiro o uso de liberais/libertárias e, caso você tenha alguma dúvida, veja este pequeno artigo do mesmo Klein.

De qualquer forma, novamente, eis as tensões (quem acompanha o blog perceberá que estou ainda na sequência disto). Primeiro, este trecho de Antônio Paim:

(…) verifica-se que os liberais sociais deram uma notável contribuição para a evolução da doutrina liberal, tornando-a apta a dar respostas concretas aos problemas que o curso histórico veio a suscitar. Contudo, deve ser creditado aos conservadores o alerta quanto à necessidade de avaliar-se corajosamente a eficácia das políticas sociais. [Paim, A. “O liberalismo social” in: Merquior, J.G., Paim, A. & Kujawski, G. de Mello, O liberalismo social: uma visão histórica. Massao Ohon Editor, 1998, p. 60]

Note-se, portanto, que, na concepção de Paim, o liberalismo/libertarianismo não é e nunca foi, exclusivamente, um conjunto de concepções exclusivamente econômicas (embora, ok, possamos discutir isso sob uma ótica Beckeriana em outra oportunidade). Kujaswki também fará coro a este discurso seguindo Ortega y Gasset mais à frente (p.73 do mesmo livro).

Destaque também para o importante papel do conservadorismo (já citado no outro post que fiz aqui). A discussão do conservadorismo bem poderia ser feita em relação à path dependence, mas isso fica para outra oportunidade. De certa forma, a teoria de North (veja, em especial, a versão de Pereira, Alston e Mueller ilustrada para o Brasil recente) pode servir para se entender estes momentos de tensão (matematicamente falando – e divagando – lembro da teoria da catástrofe) entre conservadores e liberais/libertários ao longo da história.

Outro ponto de tensão entre conservadores e liberais e que, na minha opinião, torna este termo left-lib algo sem sentido (para mim é algo como socialismo e liberdade) diz respeito aos aspectos não-econômicos do liberalismo. Por exemplo:

Libertarians advocate equal protection for homosexuals, and thus support same-sex marriage and oppose the US military’s former restrictions on homosexuality.

Libertarians advocate women’s reproductive freedom, including the rights to abortion, to birth control, and to have sex with other consenting adults. [Brennan, J. Libertarianism – what everyone needs to know. Oxford University Press, 2012, p.83]

Mas, o mais importante, na mesma página (obviamente, do mesmo livro):

The libertarian view of civil liberty is just one view among many, and there’s no reason why libertarians should get to impose their expansive view of civil liberties on other people if most of them favor a less expansive view.

Aliás, o artigo citado do prof. Klein, serve como alerta aqui.

The principle of liberty has its holes, gray areas, and exceptions; it does not speak to all important issues of government; and it is not self-justifying. Despite the limitations, however, it remains cogent and gives backbone to libertarian and classical liberal thought.

Outro ponto interessante do liberalismo – pouco divulgado – é o da liberdade religiosa. Neste sentido, um breve depoimento desta militante do Livres é esclarecedor.

Diga-se de passagem, tudo o que foi dito aqui não é exatamente uma novidade. Basta você se lembrar do índice de liberdade humana e de suas dimensões que vão além da econômica (no qual, aliás, a sociedade brasileira piorou ultimamente).

Concluindo esta segunda parte das anotações, parece-me que a definição de left-lib – desde John Stuart Mill pelo menos – não faz o menor sentido. Os conservadores têm o legítimo direito de discordar de algumas posições liberais, mas o termo left-lib é tão sólido quanto o socialismo e liberdade. Não faz sentido, exceto para fins de propaganda e, no caso dos liberais, a propaganda é pejorativa e usada contra os liberais.

Por outro lado, é importante que os liberais mais jovens, estes que enfatizam bandeiras não-econômicas, esforcem-se para fundamentar melhor suas posições, afim de se diferenciarem dos, estes sim, leftists.

Por enquanto, é isso.

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