Liberalismo…qual liberalismo? (caderno de anotações aberto)

Nietzsche disse que apenas seres a-históricos permitem uma definição no verdadeiro sentido da palavra. Assim, o liberalismo, um fenômeno histórico com muitos aspectos, dificilmente pode ser definido. [Merquior, J.G. O liberalismo antigo e moderno, Editora Nova Fronteira, 1991, p.15]

Informando aos leitores: este breve post objetiva apenas marcar algumas anotações sobre liberalismo e temas correlatos. Motivação? O incômodo com algumas discussões non sense (na minha opinião) que vejo por aí. Não busque um texto concatenado neste post (quem sabe, no futuro?). Talvez eu consiga entender melhor o que pensam algumas correntes do ativismo liberal recente (e seus correlatos libertários e conservadores).

Vamos lá. Primeiro, um pouco do que penso ser o que guia – embora eles nunca explicitem – o pensamento do grupo de liberais ‘Livres’ (aliás, penso que muito do que vai a seguir poderá ser visto como a visão de mundo expressa aqui e ali pelo grupo):

Mas nós sabemos que o mercado, conquanto seja instrumento indubitavelmente necessário da criação de riqueza e do desenvolvimento econômico ‘intensivo’, nem por isso constitui uma condição suficiente da liberdade moderna, porque não é capaz de gerar, ‘por si só’, toda uma série de requisitos e oportunidades para o exercício mais pleno e mais significativo da individualidade de muitos. Se suprimir o mercado é ferir de morte o substrato material das liberdades modernas, deixar tudo entregue ao seu império é restringir significativamente o livre gozo dessas mesmas liberdades a minorias – e a minorias compostas de privilegiados pelo berço, e não só pelo mérito. [Merquior, J.G. O Argumento Liberal, Editora Nova Fronteira, 1983, 94-5]

Ainda:

Do comunismo, a ordem liberal só precisa temer a força, não o poder, tão desgastado, de persuasão. E, todavia, em nossas sociedades cada vez mais permissivas e reivindicatórias, ela não está completamente a salvo da perversão interna de seu próprio ânimo: o velho, nobre espírito de liberdade e igualdade. [idem, p.98]

Não encontro a mesma ênfase em Mises, por exemplo, embora, como não poderia deixar de ser, a abordagem seja parecida. Mas, para não passar em branco:

O liberalismo sempre teve em vista o bem de todos, e não o de qualquer grupo especial. Foi isso que os utilitários ingleses quiseram dizer – embora, é verdade, de modo não muito apropriado – com seus famoso preceito, ‘ a maior felicidade possível ao maior número possível de pessoas’. [Mises, L. Liberalismo, José Olympio Editora, 1987, p. 9]

Outra bela definição:

O liberalismo não se reduz a uma simples teoria política ou econômica. Antes disso, e primariamente, ele constitui certa forma de vida, modo peculiar de ser homem. Nessa perspectiva, a melhor definição do liberalismo é a de Ortega y Gasset: ‘O liberalismo, antes de ser questão de mais ou de menos política, é uma idéia radical sobre a vida: é crer que cada ser humano deve permanecer desimpedido para preencher seu individual e intransferível destino’. [Merquior, J.G., Paim, A. & Kujawski, G. de M. O liberalismo social: uma visão histórica. Massao Ohno Editor, 1998, p. 73]

Já sobre o libertarianismo, uma clara definição de Brennan:

Libertarianism is a political philosophy. Libertarians believe respect for individual liberty is the central requirement of justice. They believe human relationships should be based on mutual consent. Libertarians advocate a free society of cooperation, tolerance, and mutual respect. [Brennan, J. Libertarianism – what everyone needs to know. Oxford University Press, 2012, p.1]

Alguns confundem liberais, libertários e conservadores. Embora exista algo em comum entre os três, há diferenças. Hayek foi um que tentou estabelecer a linha demarcatória.

(…) por sua própria natureza, o conservadorismo não pode oferecer uma alternativa ao caminho que estamos seguindo. Por resistir às tendências atuais poderá frear desdobramentos indesejáveis, mas, como não indica outro caminho, não pode impedir sua evolução. Por esta razão, o destino do conservadorismo tem sido invariavelmente deixar-se arrastar por um caminho que não escolheu (…). Antes de mais nada, os liberais devem perguntar não a que velocidade estamos avançando, nem até onde iremos, mas para onde iremos. De fato, o liberal difere muito mais do coletivista radical dos nossos dias do que o conservador. Enquanto este geralmente representa uma versão moderada dos preconceitos de seu tempo, o liberal dos nossos dias deve opor-se, de maneira muito mais positiva, a alguns dos conceitos básicos que a maioria dos conservadores compartilha com os socialistas. [Hayek, F.A. Os fundamentos da liberdade, Visão, 1983, p.467-8]

Talvez João P. Coutinho em seu “As ideias conservadoras” de 2014 seja uma referência mais recente, mas não vi muitas diferenças entre o que ele diz no início do livro e o que diz Hayek no trecho anterior.

Uma conexão nem sempre notada entre alguns amigos liberais ou conservadores é aquela entre liberalismo/libertarianismo e dignidade. Vejamos o que diz Klein:

In preserving our own dignity (…) [we] oppose those who would use our being without due regard for our own story, our own meaning. In preserving dignity, we oppose those who would demean us by denying, disdaining, or belittling the (…) integrative moral force, of our being.

In acting so as to preserve the dignity of others, we presume that the individual is conducting his affairs as he sees fit, no matter how mad the method may seem. We respect his individuality. We do not dwell on, pity, or patronize someone’s apparent weakness or disadvantage. We do not attempt to rescue when no rescue has been sought. We do not judge or even draw attention to, except insofar as doing so is a part of the relationship the other has willfully entered into. We honor an ethic of MYOB – Mind Your Own Business. [Klein, D. 3 Libertarian Essays. FEE Occasional Paper, 1998, p.39]

Mas não se confunda a visão liberal de mundo com alguma defesa da liberdade irrestrita em quaisquer dimensões do espaço-tempo. Por exemplo, no campo da pesquisa científica, diz-nos Oliva:

Como a liberdade total pode levar a seu oposto, é importante reconhecer que a liberdade de pensar pressupõe levar em conta as orientações básicas da razão. Há métodos e métodos; uns promovem a criatividade em parceria com a razão, outros invocam ilegitimamente a razão apenas para propor normas infecundas. [Oliva, A. Anarquismo e Conhecimento, Jorge Zahar Editor, 2005, p.25]

Para não dizer que não terminei de bom humor…

O liberalismo oferece água de lavagem como elixir da vida. [Krause, K. Ditos e Desditos, Brasiliense, 1988, p.150]

FIM (?)

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