Preferências, escolhas e moralidade na opinião de um pavloviano

tchakhotine_573

A figura acima, retirada do livro “A mistificação das massas pela propaganda política”, de Serge Tchakhotine (Civilização Brasileira, 1967, p.573), mostra uma curiosa ordenação de preferências ou de valores morais.

A legenda é importante para se entender o que temos aí. Os impulsos são os seguintes: 1. Violência, 2. Vantagem material, 3. Amor, 4. Dever paternal. A linha cheia nos indica a intensidade e, a pontilhada, o valor moral do ponto de vista social (similar ao nosso “benefícios líquidos de bem-estar social”). Quanto mais à direita, mais moral (logo, quanto mais à esquerda…).

Para entender o diagrama de Tchakhotine, considere o indivíduo que escolhe o amor ao dever paternal (3 ao 4). A intensidade relativa é maior para 3, embora a moralidade relativa seja maior para 4. Assim, a escolha seria imoral. Nas palavras do autor, esta escolha “…é sempre do ponto de vista social, portanto biológico, imoral (comportamento de uma mãe desnaturada” (p.572).

Já a escolha de 3, relativamente a 2 seria “romantismo/idealismo”, e seria uma escolha mais “moral”.

Fica claro, destes exemplos, que Tchakhotine tem uma teoria incompleta pois não é capaz de explicar as escolhas dos indivíduos. Talvez isso seja derivado da dificuldade em se explicar escolhas com uma valoração moral exógena prévia (baseada nas opiniões do autor sobre os fundamentos biológicos da moral).

Segundo ele:

É evidente que os preceitos morais dizem respeito à atividade social do homem, isto é, a seu comportamento na vida social. A moral começa onde o comportamento do homem se caracteriza pela renúncia à satisfação de impulsos egoístas em benefício de outrem; encontra-se onde atua a inibição condicionada interna, em relação aos outros indivíduos ou coletividades, precisamente como expressão da constelação de engramas no seu Segundo sistema de sinalização. [p.571]

Vale dizer, baseado em uma teoria biológica (ou neurológica?), Tchakhotine achava ter um conceito de moral a partir do qual poderia estudar os impactos da propaganda política (é o que se vê nos primeiros cinco capítulos do livro). A concepção de psicologia como “ciência exata” pode não estar muito na moda, mas as neurociências têm ressuscitado vários destes conceitos, seja para refutar hipóteses derivadas de algumas teorias construídas a partir dos mesmos ou não.

O mais interessante, creio, é a discussão de fundamentos neuroeconômicos da “moral” (e mesmo a discussão de qual seja o conceito de “moral” que seja útil para trabalhos empíricos, digo, um conceito funcional).

Curioso mesmo é ver como funcionava a ideologia soviética que, apesar de encontrar em Tchakhotine um seguidor, proibiu seu livro justamente pela discussão de propaganda política que fazia. Ironias da história.

p.s. Fiquei morrendo de vontade de fazer uma paródia deste diagrama. Quem sabe…

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