John Galt cartola e o horizonte de planejamento

320px-atlas_new_york

“- Ao menos poderia ser uma bola de futebol…”.

A função social do empreendedor, padarias e tudo aquilo

Acho que foi Armen Alchian que disse que a função social do empreendedor é conseguira fazer previsão de demanda para que você, leitor, encontre na padaria, de manhã, o que precisa para seu café da manhã.

Não só na padaria, mas também no supermercado, etc. Claro, fica fácil entender a importância de métodos de controles de estoque tão populares entre o pessoal que estuda Administração ou Contabilidade.

Um dos componentes essencias a um bom planejamento diz respeito ao cenário legal com o qual se trabalha. Imagine o dono de uma padaria, por exemplo. Preocupado em não terminar o dia devendo até suas mãos para credores e sabendo que a demanda é aleatória (mas não totalmente), ele busca prever o quanto precisará de ingredientes, produtos e funcionários para uma média diária (ou semanal, mensal, etc). É uma tarefa fácil? Não.

Claro, ele conta com uma razoável estabilidade legal. Razoável porque, claro, imprevistos ocorrem. A bem da verdade, ele trabalha com uma margem de erro nesta estabilidade: um ou outro imprevisto pode ocorrer no que diz respeito a alguma legislação tributária e ele pode ter que pagar um imposto maior amanhã.

O bom empreendedor tem que pensar nisto tudo e, mesmo que seja competente e bem-intencionado (honesto), ainda assim poderá ter sua vida dificultada com mudanças de regras repentinas.

Creio que isso não é algo difícil de se entender. Sempre que há uma situação, no mundo real, em que alguém oferta algo que é percebido como “de valor” (valoroso) por alguém, sob um marco legal específico (por exemplo: “é proibido roubar para se conseguir algo”), a chance de que ocorram trocas é muito grande. Claro, havendo trocas, sabemos todos, há papel para a Ciência Econômica atuar.

De padarias para clubes de futebol

Dito isso, não é estranho que exista uma área chamada de Economia dos Esportes e, dentro dela, o estudo da Economia dos Esportes Profissionais. Afinal, há por aí um contingente nada desprezível de pessoas que desejam ver seu time ganhar campeonatos.

Do outro lado, clubes profissionais buscam gerenciar seus recursos (setor administrativo, marketing, departamento de futebol, etc) para ofertar aos torcedores não apenas belos espetáculos (como os proporcionados pela seleção de Telê, em 1982), mas também vitórias (conquistas). É óbvio, né?

Pois bem, como em qualquer cenário econômico, existem torcedores e torcedores tanto quanto existem clubes e clubes. Alguns, com menos recursos, trabalham com menos graus de liberdade (assim como uma padaria pequena tem mais dificuldades do que uma padaria maior, com várias filiais) para seu planejamento. A demanda destes times é composta de torcedores que, claro, reclamam de tudo, independente de se têm ou não razão (no sentido de conhecerem as realidades financeiras de seus clubes).

A demanda, como se vê, é tão aleatória quanto a de uma padaria. Talvez até mais, já que ninguém é muito fanático por uma padaria, embora possa até ter alguma ligação emocional com a mesma (padarias também buscam se diferenciar). Mas e quanto à oferta? Como já disse, existem clubes de tamanhos diferentes. No caso do futebol, o que existe é um cartel que, diferentemente do que ocorre em outros setores da economia, é visto de maneira menos negativa.

Este cartel é a liga ou, na configuração institucional brasileira, é a CBF ou a CBF e suas federações estaduais. Dada a estrutura específica do mercado de futebol, geralmente se pensa – entre economistas – que a liga é uma solução interessante, mas não necessariamente perfeita.

Tome-se como exemplo uma federação de futebol. Espera-se da mesma que organize campeonatos criando condições para que os clubes gerem espetáculos que atraiam público para os estádios. Quando existem várias divisões – como é no caso brasileiro (e não é isso uma exclusividade nossa) – o trabalho da federação é mais difícil, pois tem que lidar com regras de acesso e também com o fato de que os clubes podem ter maiores ou menores dificuldades financeiras.

Exemplo de problemas no gerenciamento de clubes em dificuldades financeiras

Eis um exemplo interessante de um problema comum para clubes que estão na segunda divisão. Trata-se do Esporte Clube Pelotas, o popular Lobão, que se encontra há alguns anos na segunda divisão, com algumas dificuldades financeiras. A notícia, em resumo, diz que o clube se planejou com uma expectativa de calendário que não se concretizou.

A Federação Gaúcha de Futebol (FGF) sugeriu inicialmente a data de 4 fevereiro e abriu espaço para a opinião dos clubes. Segundo o diretor de futebol do Pelotas, Manoel Nunes, cerca de 90% dos times foram favoráveis a data apresentada pela entidade. Mesmo assim surgiu a hipótese de o campeonato ser adiado para março. Essa é, por sinal, o calendário defendido agora pelo presidente da FGF, Francisco Novelletto.

Será que a FGF sempre foi uma federação rigorosa nas datas e nas regras? Será que 90% dos clubes queriam algo que a FGF resolveu mudar? Este último caso parece improvável (é claro que se 90% dos clubes quer X, não faria sentido a liga lhes oferecer não-X, exceto por imposição). Parece mais um caso de expectativa formulada com muito mais ruídos do que sinal.

Isso não seria um problema se o clube estivesse em uma situação confortável (mais um dos infinitos exemplos que eu poderia dar sobre a importância de que clubes tenham protocolos de responsabilidade fiscal para que não se endividem insustentavelmente).

Como em uma padaria, o empreendedor tem sua margem de erro mais ampla quando possui mais recursos. No primeiro caso, não existem sócios-torcedores. No segundo, este é um contingente cada vez mais importante. Principalmente no Brasil, onde a falta de receita de transmissões pela TV complica a vida de muita gente.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s