A balconista que arredondava: o curioso caso do fio dental de R$ 9,19

Fui à farmácia comprar fio dental que, nos tempos de inflação e considerando milhares de características do mercado local, na supra-citada farmácia, conforme a etiqueta anexada no produto, custa R$ 9,19.
O diálogo a seguir se deu no caixa.
– Fio dental, R$ 9,20.
– A senhora quer dizer R$ 9,19?
A balconista me mostra a embalagem.
– O que o senhor achou que era? (sic)
– R$ 9,19.
– Ah sim, eu falo R$ 9,20, mas não posso lhe cobrar R$ 9,20 e sim R$ 9,19. O comércio não tem mais moedas de um centavo (como se eu não soubesse, mas tudo bem).
– Sendo assim, não seria melhor cobrar um preço já arredondado?
– Mas a matemática é exata. (outra frase que soou estranha para mim, mas…).
– Eu sei, mas porque não arredondar?
– Se o sistema (sempre há um “sistema” misterioso, tipo um cachorro atrás de uma criança…) permitisse…
Voltei para casa pensando em vários pontos deste diálogo.
Muita gente despreza o capitalismo ou o empreendedorismo porque já foi vítima de conversas desonestas. Talvez esta seja uma destas conversas, talvez não. Mas possui tanto cheiro de malandragem (ora é a matemática, ora é o sistema, como se fosse fácil confundir qualquer cliente…) que eu não tenho como não compartilhar deste desprezo. Mercados se baseiam em trocas voluntárias e as mesmas necessitam de um ingrediente essencial chamado (agora vou eu usar tom professoral, como a balconista ao citar a matemática) “reputação”. Malandragem quebra reputação como um elefante destrói um copo de plástico.
Talvez a conversa seja honesta, digo, talvez a balconista realmente seja um pouco confusa, mas honesta. Neste caso, parece que ela nunca teve contato com este imenso debate que não é só de boteco, mas também acadêmico, sobre preços como R$ 1,99 (ver, por exemplo, isto, notadamente a bibliografia e os links externos para começo de conversa).
Uma explicação é que os consumidores tenderiam a perceber R$ 1,99 como algo mais barato do que R$ 2,00 (ok, é mais barato, mas não tanto). Supondo que isso seja interessante para me atrair ao produto e decidir comprá-lo, por que uma balconista jogaria o preço para cima, como no meu caso, anulando o efeito (e me causando uma sensação de que tentaram me levar R$ 0,01)? Será que a balconista pensa que o desprezo por R$ 0,01 é tal que eu não deveria pensar em querer pagar R$ 1,98 ao invés de R$ 2,00, por exemplo? Ok, o argumento dos centavos seguiria, mas eu tenderia a caminhar para R$ 1,95.
Pesquisando rapidamente, descobri que, segundo Kinard, Capella & Bonner (2013), acredita-se que estes preços “quebrados” (chamados de odd prices) teriam sido criados para pegar empregados malandros:
Although odd pricing is believed to have begun nearly a century ago as an attempt to deter theft by employees who would be forced to make change during a sale (Gendall et al., 1997; Twedt, 1965), consumer behavior theory proposes that the practice of odd pricing continues today because of its ability to distort consumer’s perception of a good or service (Stiving and Winer, 1997).
 Mas o artigo cita diversos outros fatores para esta prática (leia-o aqui) e chama a atenção para o fato de que não existiriam evidências robustas de que a prática destes preços teria efeitos positivos sobre as vendas (os efeitos seriam mistos).
Agora, o que continua, mesmo, a me intrigar é a postura da balconista…
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UPDATE: Ainda sobre este tema, ao sair da farmácia eu peguei o catálogo de ofertas. Ele tem uma capa (com três produtos) e as seções “Higiene” (53 produtos), “Saúde” (25), “Infantil” (20), “Beleza” (29) e, na penúltima página, uma oferta única, totalizando 131 produtos anunciados.
O percentual de odd prices, por área, são:  “Higiene” (40%), “Saúde” (36,1%), “Infantil” (55%), “Beleza” (34,49%). Talvez isso não signifique muita coisa e o relevante é olhar o total. Neste caso, o percentual é de 41,22%. Em outras palavras, aproximadamente 41% (54 produtos de 131) em um catálogo de ofertas diz respeito a produtos com preços como R$ 12,99, R$ 4,49, R$ 21,46, R$ 30,67 ou R$ 9, 98, por exemplo.
Como não se consegue dar troco nestes casos, caso o vendedor seja desonesto e arredonde para cima, neste catálogo, considerando que se venda uma unidade de cada produto (para efeitos de simplificação), ele tiraria do consumidor o total de R$ 0,65. Obviamente, a conta correta não é esta porque a demanda não deve ser tão uniforme assim (pessoas demandam diferentes quantidades de produtos).
O mais curioso, para mim, é a proporção de produtos com preços quebrados no catálogo: 41% . Acho difícil acreditar na conversa da balconista. Parece-me, muito mais, uma estratégia de vendas.