Uncategorized

Política de conteúdo nacional…circa 1772-3 ou: “o nacional-desenvolvimentismo de Pombal e seus amigos monopolistas”

Sabe aquele papo de que exigência de conteúdo nacional é super-legal porque gera emprego no país e todos ficam mais ricos/a desigualdade cai/o sol brilha/existem pôneis coloridos? Pois é. Aí eu, economista, faço uma cara feia e me mandam estudar História. Bem, estudei.

A companhia privilegiada de comércio de Pernambuco e Paraíba, lá em 1772, resolveu….bem…vou citar.

Em 1772 a junta comunicava a criação da nova fábrica de Antas (sic, não é piada) e pedia para enviar para Lisboa a maior porção que fosse possível de peles de veado – salgadas, espichadas e secas. No ano seguinte a companhia trazia para os engenhos nordestinos 5 caldeiras e 18 taxos de ferro coado, feitos em Portugal. Esse material costumava vir de Inglaterra, e a remessa de fabricação portuguesa era de preço mais elevado, porém, assegurava a junta, era de qualidade superior. [Ribeiro Jr (2004), p.159]

Já ouviu isso antes, né? Então vamos terminar a história.

A experiência com esse tipo de material, no entanto, não surtiu efeitos positivos. As caldeiras e taxos de fabricação portuguesa tinham muitos buracos nos fundos, tapados com estanho ou chumbo. Por isso a nova encomenda colonial rejeitava os de fabricação nacional e pedia 50 caldeiras, 200 taxos e 150 tambores, provenientes da Inglaterra [Ribeiro Jr (2004), p.159]

Vejam só. O nacional-desenvolvimentismo tem raízes mais profundas do que você imaginava, não? Afinal, Brasil e Portugal eram um país só. Os pobres nordestinos tiveram que engolir preços altos e produtos de alto conteúdo nacional porque assim era a regra do jogo (no fundo, o nacional-desenvolvimentismo não é nada mais do que um mercantilismo com tablet e smartphone).

O livro? Já citei em dois textos aí abaixo.

Uncategorized

Teorema de Alchian-Allen na Pernambuco colonial: o caso dos escravos exportados

O Leo Monasterio é quem vai gostar deste trecho, do Colonização e Monopólio no Nordeste Brasileiro, de José Ribeiro Júnior (Hucitec, 2004):

Em 1766 a junta tomara a resolução de enviar para a Capital da colônia alguns escravos ‘dos milhores’ para lhes dar saída por melhor preço e a fim de evitar a despesa que se fazia no Recife ‘aonde tem decahido muito do seu valor’. O fato de deixar o pior escravo para Pernambuco provocaria a observação do governador José César de Menezes, dizendo que era preciso adquirir 10 escravos ruins para fazer o serviço de 8, tornando mais caro o custo de mão-de-obra na capitania servida pela sociedade mercantil, detentora do privilégio. [Ribeiro Jr (2004), p.129]

Não é que o monopolista – no caso, a Companhia de Comércio de Pernambuco e Paraíba – segue a lógica que foi exposta no famoso Teorema de Alchian-Allen?

Nunca ouviu falar do teorema? Alguns o chamam de Terceira Lei de Demanda. O Leo Monasterio explica aqui (incluindo o famoso vídeo do falecido Olavo Rocha). Eu também já tentei explicar o Teorema em outras ocasiões (como esta, inclusive, pensando em um exemplo hipotético sobre a escravidão).

Ironicamente, neste caso, aqueles que pensam em conspirações (a motivação básica de Alchian e de Allen era mostrar que devemos pensar na lógica econômica ao invés de apelarmos para explicações muito fantasiosas como conspirações…) podem se ver em uma situação em que o monopolista – geralmente criticado como um agente conspirador em onze de cada dez romances, não necessariamente sem base empírica… – também respeita a lógica econômica do teorema.

Uncategorized

O Marquês de Pombal explica o conceito de custo de oportunidade

Segundo narrativa citada em Ribeiro Jr (2004):

(…) se à sua sala concorrião Fidalgos e Negociantes para lhe falar em negócios, attendia primeiro a estes, dizendo, que o tempo lhes era muito precioso, e que geralmente fallando, vinhão trazer entretanto que aquelles vinhão commumente buscar, e tinhão pouco em que empregar o seu tempo. [Ribeiro Jr. Colonização e Monopólio no Nordeste Brasileiro, Hucitec, 2004, 2a ed., p.52, citando, obviamente, outro autor mais antigo]

Percebeu? Entre atender aos nobres (Fidalgos) e os homens de negócios, Pombal – que também tinha um custo de oportunidade com seu tempo – atendia primeiro aqueles que lhe tomavam menos tempo que eram, aliás, os que tinham o custo de oportunidade do uso do tempo mais elevado (relativamente aos nobres).

Sim, eu sei muito bem que o tempo tem uma utilidade e minimizo meus custos!