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A União Européia não acabou e nossa imprensa carece de boas análises: assim, vamos divulgar um comentário sensato sobre o tema!

Lucas Mafaldo é um amigo muito querido e inteligente e a página dele está bem bacana agora (embora me pareça desatualizada…).

Os leitores que acham que tenho preconceito contra não-economistas – acho que ninguém que passou por aqui pensa assim, mas não custa avisar – vão se supreender. Ah sim, como o texto é longo, ao invés de usar o modo de citação deste WordPress, usarei o itálico. Deguste!

Ninguém duvida que a votação de ontem foi histórica. Porém, minha impressão é que a mídia brasileira está — como sempre — espantada demais. Parece que a cultura brasileira realmente virou uma grande torcida organizada, onde o importante é escolher o lado certo ao invés de explicar o que está acontecendo.

Primeiro, vamos aos motivos para ter calma: nada maluco demais vai acontecer. O Reino Unido já dominava a arte de fazer acordos antes do Brasil existir. Além disso, o RU nunca esteve dentro demais da UE. Ele tem a própria moeda, o próprio exército, um sistema político forte e participa da economia global. Sem falar que a saída da UE irá durar DOIS ANOS contados após a formalização do pedido — que ainda não aconteceu — de modo que será uma pequena mudança feita com calma.

A saída também não é nada misteriosa. Todo mecanismo internacional segue uma trilha perigosa: ele é apenas um fórum para nações soberanas ou um novo poder que controla efetivamente seus membros? Na medida em que a UE foi se transformando no segundo, cada país se viu diante de um dilema: vale a pena perder a soberania para participar de uma unidade política maior?

Essa questão não tem nada de radical. É questão que passava pela cabeça de Isócrates, na Atenas do período clássico. É a questão das colônias americanas após a independência. O tamanho das “politéias” mudam e diminuem com o tempo. Parte da resposta está em cálculo simples de custo-benefício (“o quanto ganho e quanto perco com essa aliança?”) misturado com insondáveis motivos psicológicos (“qual é minha IDENTIDADE? será que eu realmente SOU parte desse povo?”). A votação de ontem entra no ciclo histórico de dilatação e contração das unidades políticas.

No lado psicológico-cultural, há realmente um fenômeno histórico interessante: o retorno do nacionalismo. Mas é um erro identificá-lo com xenofobia ou racismo. Nações construídas em torno de identidades subjetivas — sejam governadas de modo independente sejam como parte de impérios maiores — sempre existiram. Aliás, desclassificar todo instinto nacionalista como imoral apenas torna o debate mais violento. O nacionalismo pode ser o prenúncio de governos autoritários, mas pode também ser um saudável desejo de auto-governo contra a subjugação de um poder estrangeiro.

Porém, tudo indica que o pesou mesmo nessa votação foi o cálculo utilitário: o quanto o Reino Unido ganha em participar da União Européia? O que é outro modo de dizer: será que o parlamento inglês consegue tomar decisões melhores do que o parlamento europeu? Eles acham que sim.

As grandes questões são proteção das fronteiras e acordos comerciais. Ausência de fronteiras para quem quer trabalhar é ótimo, mas para quem quer cometer crimes é péssimo. Depois da crise dos refugiados, dos ataques terroristas e da possível entrada de novos países na UE, o UK começou a pensar que faria um trabalho melhor sozinho.

Acordos comerciais são um assunto mais complicado. Não vivemos realmente na era do livre-comércio, mas na era dos complicadíssimos acordos comerciais entre governos. Alguns esperavam que a UE acabasse com a burocracia, mas ela se tornou ela mesmo uma super-burocracia. Porém, sair é difícil: o Reino Unido terá que renegociar uma quantidade gigantesca de acordos nos próximos anos. A dúvida sobre sua capacidade de fazê-lo vai causar bastante instabilidade nos mercados nos próximos meses.

Em certo sentido, os efeitos dessa decisão sobre a Europa me parecem maiores do que sobre a própria Inglaterra. Os ingleses possuem um sistema de governo tão eficiente que, me parece, vão aproveitar os próximos dois anos para construir acordos melhores do que os atuais.

Porém, isso vai enviar um sinal pesado para a União Européia: foi um voto de não-confiança. Se ela não conseguir se reformar rapidamente, pode ser o começo de uma debandada.

Pronto. Nada como divulgar um texto de qualidade para os cinco leitores deste blog. Como já sabemos, existem economistas que falam muita bobagem por aí e há filósofos que não seguem a tradição de papo furado que lhes traz uma triste fama.

Espero que tenha gostado.