Desigualdade e Eficiência

Sim, este é o tema central de todo capítulo inicial de livro-texto de Economia. Continua válido. Aí uns pesquisadores resolveram brincar com os dados. Eis o que relatam:

Theory and empirical data contest the direction of causality in the relationship between economic performance and income inequality – a relationship that is of great political importance. This column uses evidence from OECD countries to show that the relationship is not linear. While some countries can improve economic performance only at the cost of increasing economic inequality, other countries can improve both economic performance and equality without such a trade-off.

Honestamente? É um exercício legal para sala de aula, mas não me convenço muito deste resultado e o que me atrapalha a comprar esta conclusão é o fato de que não sei se esta é a melhor divisão amostral dos países que podemos ter. Sei que é uma questão um tanto quanto ad hoc: você divide os países em dois grupos de forma arbitrária – o que é um critério válido, como todo critério – e segue em frente.

Mas será que a conclusão de não-linearidade persiste, por exemplo, caso eu divida os países em, digamos, “latino-americanos” e “resto do mundo”? Ou entre “ex-colônias soviéticas” e “resto do mundo”? Ou entre: “países da Ásia”, “países da Europa”, “países da América”, etc?

Agora, ao lado interessante do artigo: os autores têm um ponto muito legal que é o de questionar se os países estão em alguma fronteira de possibilidades de produção ou se estão abaixo dela. Trata-se da velha pedra no sapato dos alunos de graduação: a diferença entre movimentos na curvamovimentos da curva. O trade-off só se verifica se você estiver na curva (veja a figura dos autores).

Aqui eles oferecem um ótimo conselho para se começar a discutir o trade-off:

This insight leaves one important message. In cross-country comparisons it is important to make a distinction between countries at (or close to) the frontier and countries well inside the frontier before drawing any conclusions on the relationship between economic performance and income equality available for policymakers. Essentially, differences in the distance to the frontier should be accounted for in the comparison.

Em seguida, os autores indicam o método que é conhecido por vários de nós, economistas: o da fronteira de produção estocástica (a irmã estocástica da famosa análise de dados em envelope ou, em inglês, data envelopment analysis).

O mais legal é pensar que esta pergunta continua a atrair estudantes. Há alguns anos, um ex-aluno, Rodrigo Silésio, procurou-me com pergunta similar. Queria saber se o trade-off entre desigualdade e eficiência existia entre os municípios de Minas Gerais. O resultado acabou se transformando em um artigo científico. As conclusões a que chegamos? Bem, veja o resumo do texto.

O artigo busca verificar a existência de trade-off entre políticas municipais voltadas para o bem-estar e desigualdade através do uso de programação linear, método conhecido como DEA (Data Envelopment Analysis) ou “Análise por Envoltória de Dados”. A análise foi feita num corte transversal com dados de 2000 e, para levar em conta especificidades regionais, foram consideradas as diferentes regiões de planejamento do estado, resultando na construção de dez fronteiras estocásticas de bem-estar (cuja proxy foi o IDHm) e dez fronteiras para a igualdade (cuja proxy foi construída a partir do índice de Gini). Os resultados sugerem a existência de trade-off.

Pois é. A pergunta continua e deve assombrar muitos e muitos alunos por muito tempo ainda.

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Uma resposta em “Desigualdade e Eficiência

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