Não deixe um economista te receitar uma dieta (exceto se você for um escravo)!

Em 1945, George Stigler, em um artigo interessante, aplicou o princípio simples da minimização de custos para resolver o seguinte problema: qual a quantidade de nutrientes diária necessária para o ser humano? Como esperado, a dieta obtida foi bem desagradável, como se vê no trecho abaixo, extraído de seu artigo.

dietas_stigler

Terrível, não? Bem, até que dá para comer farinha de panqueca com espinafre, mas é uma dieta baseada apenas na minimização de custos, não olha muito para o lado da demanda.

O tema foi retomado, em 1985, por Eugene Silberberg (autor de um ótimo manual intermediário de Microeconomia), atacando, justamente o problema da demanda. Tal como Stigler, Silberberg supõe que os nutrientes seguem a lei dos rendimentos decrescentes (isto é, eles te beneficiam, mas a cada dose adicional de um nutriente, o benefício obtido é menor, até zerar, em algum ponto. Em português: não tome megadoses!). Teoricamente, temos:

Since the marginal products of nutrient elements fall as consumption of these inputs increases, we should expect a corresponding fall in consumers’ marginal values of vitamins and minerals. More specifically, as nutrient intakes increase, the marginal values of tastiness, aroma, texture, and so forth, that is, the qualities of goods relating to palatability, should rise relative to the marginal values of inputs to pure nutrition. We should therefore expect that, as income rises, consumers will spend a decreasing fraction of their food budget on pure nourishment. As income increases, consumers will defer relatively more toward the pleasurable aspects of eating and relatively less toward the production of nourishment.[Silberberg, E. Nutrition and the Demand for Tastes. Journal of Political Economy, Vol. 93, No. 5 (Oct., 1985), p.882]

Para quem já estudou programação linear, é exatamente o que Silberberg faz. Ele minimiza o gasto do consumidor de uma classe de renda sujeito à restrição de que a quantidade de nutrientes nos alimentos tem que ser, no mínimo, igual ou maior do que a quantidade de nutrientes demandada.

Os resultados de Silberberg? Prepare-se:

The minimum-cost diets presented in this paper are the kinds of diets that would be provided to slaves, although the calorie level might be elevated. In fact the diet of American slaves in the antebellum South resembled these solutions. [Silberberg, E. Nutrition and the Demand for Tastes. Journal of Political Economy, Vol. 93, No. 5 (Oct., 1985), p.897]

Pois é por este motivo que somos economistas, não nutricionistas. ^_^

p.s. a referência do artigo de Stigler é: Stigler, George J. The Cost of Subsistence. Journal of Farm Economics, Vol. 27, No. 2 (May, 1945), pp. 303-314

UPDATE: p.s.2. Para a dieta dos escravos, uma abrangente resenha é esta. Esqueça boa parte do que leu em blogs porque há muita coisa estranha por aí. O artigo em questão faz um bom resumo dos problemas encontrados por pesquisadores na investigação do tema.

É, faltou um gostinho…

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