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Bolsa-Família faz a turma ter mais filhos? Parece que…não. Isso mesmo.

Quantas vezes já ouvi isso? Pois bem. É uma preocupação legítima. Cechin, Carraro, Ribeiro & Fernandez (2015) explicam:

As regras do Programa determinam que a quantidade de recursos transferidos depende do número de filhos da família, ou seja, transfere mais renda para as famílias que têm mais filhos. Dessa forma, o Programa pode gerar um incentivo ao aumento da fecundidade de suas beneficiárias, tendo como consequência a multiplicação da população pobre. De acordo com Rocha (2009), a preocupação é que esses Programas possam gerar uma espécie de armadilha da pobreza.

Concordo. Eis um ponto a se estudar. O que os autores encontraram? Vejamos o resumo do texto do qual tirei o parágrafo acima.

Abstract
CECHIN, Luis Antonio Winck; CARRARO, André; RIBEIRO, Felipe Garcia and FERNANDEZ, Rodrigo Nobre. O Impacto das Regras do Programa Bolsa Família Sobre a Fecundidade das Beneficiárias. Rev. Bras. Econ. [online]. 2015, vol.69, n.3, pp. 303-329. ISSN 1806-9134. http://dx.doi.org/10.5935/0034-7140.20150014.

Este trabalho investiga um possível incentivo do Programa Bolsa Família ao aumento da fecundidade de suas beneficiárias em decorrência de suas regras, dado que a quantidade de recursos transferidos depende do número de filhos da família. O diferencial deste estudo reside na análise desse impacto em um maior período de exposição das beneficiárias aos efeitos do PBF. Aplica-se o algoritmo de seleção de covariadas proposto por Imbens (2014) e o método de Propensity Score Matching. Os resultados apontaram que o PBF gera pequeno incentivo à geração do segundo filho, sendo que as regiões Centro-Oeste e Nordeste apresentaram os maiores valores de impacto.

Ou seja, não parece haver um incentivo muito forte. Leia o artigo para ver mais detalhes. Claro, o assunto não está encerrado. O artigo, acredito, coloca é mais tempero na discussão.

Ah sim, antes que você saia por aí dizendo que o Bolsa-Família vai fazer as creches do país explodirem de novos eleitores, leia o artigo. Ou vá lá aprender um pouco de econometria e tente falsear as conclusões dos autores. É com ciência (notem o trocadilho) que se faz o bom combate, não com ideologia barata.

Fullscreen capture 9112015 63240 PM

p.s. que bela extensão do modelo de Becker, heim? Simples, elegante e bonita. Mereceu a foto.

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Cintos de segurança ajudam ou atrapalham? Análise econométrica da lei em um exemplo de livro-texto

Este artigo de 2003 é um dos melhores que já li sobre o tema. Pena que só o descobri agora. Nunca é tarde, não é? Recomendo sua leitura porque aquele que deseja trabalhar com econometria encontrará ali um texto muito bem escrito. O cuidado com os eventuais problemas econométricos é sempre citado e explicado de forma clara e detalhada no nível ótimo para o entendimento. Em especial, as duas primeiras seções do texto são um belo exemplo de como justificar seu modelo (e apontar possíveis correlações, ao menos em nível teórico) antes de partir para o enfrentamento com os dados.

Agora a parte legal da história. O livro de econometria do Stock e Watson [Stock, James H. & Watson, Mark W. (2012) Introduction to Econometrics (global edition), Pearson, 3rd edition, 827p] usa parte da base de dados deste artigo fazer um exercício de painel (o exercício empírico E10.2) que é bem interessante porque nos dá a chance de responder, com um exercício empírico, uma pergunta importante: quantas mortes foram evitadas pela adoção da lei de uso obrigatório de cinto de segurança?

Este é um exercício que vale a pena ser feito porque mostra a importância de usar efeitos fixos quando você tem um painel de dados. Claro, há outra discussão sobre se você deveria usar efeitos fixos ou variáveis (não tratada neste excelente livro-texto, infelizmente, pelo menos nesta edição que tenho) e há também a questão de endogeneidade que é muito bem detalhada no artigo original (e é alvo do cap.12 do livro-texto).

Como um incentivo ao leitor que gosta de econometria, desta vez, deixo o código para o exercício E10.2 (Stata). Com ele você resolve a parte quantitativa do exercício sem muita dificuldade. Entretanto, a compreensão do problema discutido não estará completa se você não der uma espiada no texto original que é o Einav, Liran & Cohen, Alma. The Effects of Mandatory Seat Belt Laws on Driving Behavior and Traffic Fatalities. The Review of Economics and Statistics, 2003, 85(4), p.828-843.

Vale lembrar: a leitura do texto, inclusive, aponta vários problemas importantes com os quais você deveria ser preocupar após terminar este exercício. Acho até que farei um estudo dirigido do mesmo para quem tiver interesse (ou mesmo como material de estudo para os alunos).

use “C:\seudiretorio\SeatBelts.dta”, clear
gen lincome=log(income)
sum fatalityrate sb_useage speed65 speed70 ba08 drinkage21 lincome age vmt
reg fatalityrate sb_useage speed65 speed70 ba08 drinkage21 lincome age
xtset fips
xtreg fatalityrate sb_useage speed65 speed70 ba08 drinkage21 lincome age, fe vce(cluster fips)
tab year, gen(year_dum)
areg fatalityrate sb_useage speed65 speed70 ba08 drinkage21 lincome age year_dum2 year_dum3 year_dum4 year_dum5 year_dum6 year_dum7 year_dum8 year_dum9 year_dum10 year_dum11 year_dum12 year_dum13 year_dum14 year_dum15, absorb(fips) r cluster(fips)
test year_dum2 year_dum3 year_dum4 year_dum5 year_dum6 year_dum7 year_dum8 year_dum9 year_dum10 year_dum11 year_dum12 year_dum13 year_dum14 year_dum15
areg sb_useage primary secondary speed65 speed70 ba08 drinkage21 lincome age year_dum2 year_dum3 year_dum4 year_dum5 year_dum6 year_dum7 year_dum8 year_dum9 year_dum10 year_dum11 year_dum12 year_dum13 year_dum14 year_dum15, absorb(fips) r cluster(fips)

* Adicionais

* para a letra e: 0.00372 x0.38 = 0.0014 mortes por “million traffic miles”.
* A média de million traffic miles na amostra (vimos lá no alto): 41447. Logo,
* para um estado médio, evita-se 0.0014 x 41447 = 58 mortes.

* letra g: similar. A mudança de lei nos dá 0.206 – 0.109 = 0.094 (9.4%).
* a reduçao de mortes estimada: 0.00372 x 0.094 = 0.00035 por million traffic miles.
* Olhando a base de dados, em 1997, 63000 million traffic miles. Este é o ano final
* do painel. Suponha, então, que este número seja o mesmo em 2000. Evitaram-se, neste
* caso, 0.00035 x 63000 = 22 mortes. Este seria o efeito da mudança da lei.

panel_seatbelts

Pois é. Muito legal, não é? Textos didáticos nos ajudam sempre. Fosse eu um aluno, faria o fichamento deste artigo. Ajuda a pensar em diversos problemas econométricos interessantes das aplicações cotidianas, sem falar no exercício do Stock & Watson (2012) que é um belo treino para alguém que não tenha medo de econometria.

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Taxistas não garantem sua segurança…e eu nunca fui agredido por um motorista de Uber. E você? Já quanto aos taxistas…

Após ler esta notícia – eu acompanhei a transmissão ao vivo e, sim, vi como alguns taxistas faziam pressão quase física sobre estudantes – vejo que um dos argumentos dos que desejam manter nosso transporte sob o controle de poucos está errado.

Dizem que “alguns motoristas de Uber são ex-criminosos (que belo preconceito contra a possibilidade de recuperação de um ex-detento, não? Nossos advogados dos direitos humanos deveriam ser mais contundentes nestas horas…) e que “não se pode ter segurança com o Uber”.

Entretanto, vejo que taxistas estão usando de veladas ameaças contra ativistas que simplesmente disseram que preferiam ter, à sua disposição, táxis e Uber. Prefeitos e vereadores que votam contra o Uber vão garantir a segurança dos cidadãos das cidades? Não, não vão. Dirão o contrário, mas sabemos que não vão.

Taxistas perdem meu respeito a cada dia. A classe inteira vai se desmoralizando por conta da atitude de um punhado – não tão pequeno assim – de profissionais que pensam ter o poder de ameaçar estudantes.

Quem diria. De vítimas de assaltos passaram a ser agressores. Será que seriam tão corajosos diante de uma massa de estudantes cercando seu carro? Pior ainda: será que temos que chegar a este nível de argumentação para o sujeito entender que não, ninguém, exceto o Estado, tem o monopólio do uso da força e, mesmo esta, não pode ser usada a bel-prazer do policial?

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Privadas salvam

Toilets Can Work: Short and Medium Run Health Impacts of Addressing Complementarities and Externalities in Water and Sanitation
Esther Duflo, Michael Greenstone, Raymond Guiteras, Thomas Clasen
NBER Working Paper No. 21521

Poor water quality and sanitation are leading causes of mortality and disease in developing countries. However, interventions providing toilets in rural areas have not substantially improved health, likely because of incomplete coverage and low usage. This paper estimates the impact of an integrated water and sanitation improvement program in rural India that provided household-level water connections, latrines, and bathing facilities to all households in approximately 100 villages. The estimates suggest that the intervention was effective, reducing treated diarrhea episodes by 30-50%. These results are evident in the short term and persist for 5 years or more. The annual cost is approximately US$60 per household.

Faz a conta: R$ 1.00 a mais gasto em esgoto e encanamentos vai nos ajudar mais ou menos na redução da pobreza do que R$ 1.00 gasto em uma Olimpíada?

toilet