Exercício de Redação – uma bela crônica de Cecília Meireles

Cecília Meireles tem esta bela crônica que tentei encontrar na internet. Não achei. Vou reproduzir aqui. Caso haja algum problema de direito autoral, basta me avisar. Mas a mensagem desta curta estória é tão bonita que não resisti a compartilhá-la com vocês. Ela se encontra esparramada entre as páginas 141 e 143 de Melhores Crônicas de Cecília Meireles/seleção e prefácio de Leodegário A. de Azevedo Filho – São Paulo: Global, 2003 – Coleção Melhores Crônicas/direção Edla van Steen.

Exercício de Redação

Cecília Meireles

Mariazinha fez sete anos e foi matriculada na escola.

A escola fica bastante longe de casa, e Mariazinha faz uma longa caminhada, todas as manhãs, carregando uma ardósia, um lápis, uma cartilha e um caderno.

O único defeito de Mariazinha é ser muito pobre (isso é defeito, professora?).

Por ser muito pobre, Mariazinha recebe merenda e uniforme da escola. Se a escola pudesse, dava-lhe um par de sapatos, porque os seus estão muito velhos.

A professora gosta muito de Mariazinha. Ela tem lindos olhos castanhos, cabelos crespos, e está mudando os dentes, o que a torna muito engraçada.

Os pais de Mariazinha também gostam muito da escola e da professora, porque, além de ganhar uniforme e merenda, a menina aprendeu várias letras em três meses e está na lista dos que vão ser alfabetizados este ano.

Está, não – estava: porque aconteceu uma coisa muito triste.

Ontem, Mariazinha foi para a escola, como de costume, acompanhada por uma vizinha que leva, todos os dias, várias crianças.

Mariazinha estava muito animada. Fez um exercício muito caprichado.

Apenas uma coisa a incomodava: é que a presilha do sapato estava descosida e o sapato caía do pé.

A professora ainda disse: “Você vai ganhar um par de sapatos, Mariazinha”. E ela sorriu, encantada (um par de sapatos custa trinta cruzeiros).

Quando Mariazinha saiu da escola, as outras crianças, suas companheiras, foram andando com o portador; mas como o sapato saía do pé, Mariazinha abaixou-se à porta da escola para ver se consertava ainda uma vez a presilha.

Foi quando o policial apitou. O automóvel não pôde parar, deu uma volta pela rua, apanhou Mariazinha, jogou-lhe para longe a ardósia, o lápis, o caderno e a cartilha. Mariazinha morreu no hospital.

O motorista disse que a culpa foi do guarda, qeu apitou quando o automóvel já vinha perto demais.

O guarda disse que a culpa foi do motorista, porque vinha com excesso de velocidade.

Os vizinhos disseram que a culpa foi da rua, porque não tem sinal de parada, que se aviste de longe.

As outras crianças disseram que a culpa foi de Mariazinha, porque ficou sentada na pedra, em lugar de ir logo para casa.

Os pais de Mariazinha não disseram nada, porque ficaram como loucos, sem entender como é que a menina podia estar morta.

A professora de Mariazinha achou que a culpa foi da presilha do sapato, que estava descosida, e não a deixava andar. E dizia, inconsolável: “Por que não lhe dei logo um par de sapatos? Por que não consertei aquela presilha? Por que não temos uma agulha grossa, para dar um ponto no sapato? Por que não acreditamos que as pequenas coisas podem ter grandes efeitos?”

Mas houve outras pessoas que acharam que o que tem de acontecer tem muita força, e que o sapato tinha de estar descosido, para Mariazinha morrer daquela maneira.

A escola é muito pobre. Não pode distribuir calçado.

As crianças levaram flores para Mariazinha morta.

Custaram cinquenta cruzeiros.

Mariazinha e nós – observações esparsas

1. A narrativa de Cecília, em certo momento, faz-me lembrar do conto “Dentro do Bosque (藪の中)” de Ryounosuke Akutagawa, parte do famoso “Rashomon e outros contos” (e também tema do filme “Rashomon” de Akira Kurosawa). Lá, naquele conto, também existe o tema das várias versões para um fato, no caso, um suposto assassinato. No caso, para ficar muito parecido, faltaria a autora incluir o depoimento da falecida Mariazinha explicando a causa de sua morte

1.1. Ah sim, o conto pode ser encontrado em pelo menos duas edições em português de livros de contos de Akutagawa. A primeira, comprada na saudosa “Feira de livros” que acontecia em BH, geralmente no segundo semestre é: Akutagawa, R. Contos. Civilização Brasileir ae Massao Ohno Editores, sem data. A segunda, mais recente, é: Akutagawa, R. Kappa e o Levante Imaginário. Estação Liberdade, 2010.

2. Como sempre, esta história tão singela quanto triste é útil para introduzir alguns conceitos ao aluno de Economia: incerteza, custo de oportunidade, por exemplo. Há também a complexa discussão sobre quem deveria fornecer sapatos para Mariazinha. Afinal, é um bem privado, não um bem público mas, lembre-se, a caridade privada nunca foi esquecida por Adam Smith ou qualquer outro economista sério sobre o qual você já deve ter ouvido falar. Lembre-se, por exemplo, do ótimo livro de Russ Roberts sobre Adam Smith, já citado aqui.

3. No final da redação, a mestra das letras, Cecília Meireles (realmente acho-a uma gigante…) dá-nos aquela estocada no coração: gastou-se um punhado de dinheiro com flores para o enterro de Mariazinha, cinquenta cruzeiros, enquanto um par de sapatos novos teria custado apenas trinta cruzeiros. Uma terrível forma de se aprender sobre escolhas, custo de oportunidade, preço de reserva, etc.

4. A visão de Mariazinha sendo atropelada tem um impacto muito grande em mim. Certa vez, em viagem pelo estado do Rio de Janeiro, vi uma menina sentada na beira da estrada esperando seu transporte escolar. Lembro que aquilo me emocionou. Sei que meus pais só tiveram educação de forma similar (se pegavam transporte escolar, não sei), ali, em escolas parecidas com esta de Mariazinha. É meio chocante ver Mariazinha morrendo por um motivo besta.

5. Este texto mostra como alguns pseudo-educadores erram (pseudo por opção ou por ignorância, não importa) ao tentar dar cores ideológicas a textos. Consigo imaginar um destes professores esquerdistas falando que a culpa da morte de Mariazinha é do capitalismo selvagem e também consigo visualizar um destes maoístas que se dizem liberais dizerem que Mariazinha é a culpada por não ter comprado seu próprio par de sapatos com seu trabalho. Ora bolas, minha gente, Mariazinha morreu porque esta é a crônica. Percebe-se a angústia de Cecília em determinar as causas na diversidade de visões dos poucos personagens citados. Interpretação de textos não é assim, algo simples, como querem fazer alguns, só por preguiça de estudar (ou de corrigir).

6. Acho este um texto muito bonito. Muito emocionante também. Não sei explicar, mas é uma narrativa singela e ao mesmo tempo muito pesada. Coisas que só autores bons conseguem provocar nos leitores. Ou então eu sou um leitor particularmente viesado a crônicas como as de Cecília Meireles.

Finalmente…

Espero que tenham gostado mais da crônica do que minhas observações esparsas. Não entendo nada de Literatura ou de Arte. Mas gosto de ler. É a vida. Ninguém é perfeito.

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