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Custou-me os olhos da cara! – Breve texto sobre o valor dos olhos

O famoso folclorista, Luís da Câmara Cascudo, em seu Locuções Tradicionais do Brasil (1986), na edição da USP/Itatiaia, lá na página 87, explica o significado desta famosa expressão popular. Vejamos o que nos diz o autor:

109. Custar os olhos da cara! – Objeto ou vitória de alto preço. (…) A interpretação comum é aludir ao suplício bárbaro de arrancar os olhos aos prisioneiros de guerra, soberanos depostos, príncipes e fidalgos perigosos à estabilidade do Reino. (…) Marcus Accius Plautus (250-184 antes de Cristo), que tão bem conhecia a velha Roma republicana, é abundante nesses registros populares: – meus oceluus, oceluss aureus, oculitus te amo, oculissimus, suficientemente expressivos para considerar os olhos como as jóias mais preciosas. Cousa com eles adquirida seria superior às demais, existentes no Mundo (…). [Cascudo, L. C. de (1986), p.87]

Surpreso? Eu sei, a expressão não é tão difícil de se entender. Afinal, imagine-se cego? O estudo da origem do termo nos dá mais informações sobre o porquê de os olhos serem tão valiosos na antiguidade. Repare que, na descrição de Cascudo, os olhos seriam utilizados para fins basicamente políticos: são os fidalgos, reis ou príncipes os principais alvos do bárbaro castigo. Eu não sou dos que assistem Game of Thrones, mas intrigas palacianas são sempre criadas ou alimentadas por conta da espionagem que, na época, usava apenas a tecnologia do olhar. Neste sentido, realmente é caro perder os olhos, certo?

Agora, isto não significa que os olhos sejam sempre a mesma coisa para todos em todos os lugares. Como aprendemos com Adam Smith, um copo de água não é a mesma coisa na sua casa ou no deserto após dias de viagem. Não, isto não é só teoria, leitor(a)! O exemplo acima sugeriu que os olhos são caros e eu lhe dei uma interpretação razoável do porquê disto. Agora, considere os olhos, os mesmíssimos olhos em outra atividade, a pirataria.

No blog do Freakonomics há a menção a um livro sobre pirataria que nos traz dados interessantes sobre contratos de seguro em navios piratas. Quanto valia um olho, relativamente a um braço ou uma perna em um destes navios?

The most extraordinary clauses in the [ship’s constitution] were the ones addressing the “recompense and reward each one ought to have that is either wounded or maimed in his body, suffering the loss of any limb, by that voyage.” Each eventuality was priced out:

Loss of a right arm: 600 pieces of eight
Left arm: 500
Right leg: 500
Left leg: 400
Eye: 100
Finger: 100

Some articles even awarded damages for the loss of a pegleg. Prostheses were so hard to come by in the West Indies that a good wooden leg was worth as much as a real one.

Claro, um olho vale menos na atividade de pirataria do que um braço ou uma perna. Olhos, no palácio, são muito úteis para intrigas, claro. Mas com um olho a menos você ainda tem dois braços para lutar na hora de invadir o barco inimigo.

Então, sim, os olhos são os mesmos, mas é seu valor de uso é que importa para pensar no seu preço. Pode ser que o valor seja alto, ou seja baixo: depende do mercado analisado.

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