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Por que a assistência técnica da sua TV/geladeira/fogão é tão ruim? Algumas reflexões irresponsáveis

Eu me lembro que, nos anos 90, o CADE – e a política de defesa da concorrência – viraram heróis entre os brasileiros. Havia uma sensação de que, naquele momento, o consumidor seria mais respeitado. Neste aspecto, até funcionários públicos passaram a abusar menos dos cidadãos. Houve um certo recuo na arrogância de oligopolistas e funcionários públicos.

Sindicatos, outrora poderosos extratores de renda, perderam um pouco de apelo porque o público passou a enxergar a dinâmica econômica de forma mais civilizada. Emblemático talvez seja o fato de todos que foram “fiscais do Sarney” terem mudado de opinião: ninguém mais culpava empresário pela inflação.

Aí mudou o governo e o sr. da Silva resolveu que marco regulatório desagradava os seus amigos do partido. Para não ser deposto pelo voto popular, abraçou, meio sem fé, o tripé macroeconômico. Parece que sentia o mesmo prazer de um homossexual enrustido ao beijar a Gisele Bundchen na boca.

Assim, devagar, mas de forma perseverante, nosso marco regulatório foi sendo esfacelado, nomeações políticas feitas com gente do segundo escalão do time (para derrubar a meritocracia, comum a todos os países civilizados), ainda que se acusasse uns políticos de serem “do baixo clero”.

Hipocrisias à parte, pensemos nos eleitores-pagadores-de-impostos. Estes começaram a viajar para fora do país. Viram a civilização e voltaram. Tanto consumidores como empreendedores passaram a imaginar um país diferente. A economia mundial não atrapalhava: ajudava. Crescimento econômico mundial, clima ajudando (e olha que já se falava de “aquecimento global”, etc, mas não vi apagão depois de 2001), etc.

Mas aí é que, em algum momento, alguns fundamentos microeconômicos esfacelados cobraram seu preço. O consumidor, que viveu alguns anos como um cidadão de primeira classe, sendo bem tratado em repartições públicas e no mercado, lentamente voltou a “saber com quem estava falando”. Sindicatos de funcionários públicos se sentiam o próprio Eike Batista e a concorrência e a meritocracia deram lugar ao discurso do “BNDES que escolhe campeões”. Voltou-se à era Geisel, por assim dizer.

Claro que não podemos nos esquecer dos pobres. E os pobres? Ué, os pobres ganharam bolsa e alguns melhoraram de vida com o crescimento econômico. Entretanto, encontraram um sistema educacional enrijecido no qual não importa muito saber matemática e português (porque isto é coisa de “burguês”). Sem falar nas tentativas de se destruir a meritocracia.

Resultado? Uma força de trabalho ansiosa para viajar para Miami nas férias e louca para ganhar uns trocados. Ao mesmo tempo, infelizmente, uma mão-de-obra pouco preparada.

Obviamente, as coisas não acontecem de forma homogênea e com a mesma velocidade. Mudanças tecnológicas atenuaram alguns destes efeitos e resultados de reformas feitas nos governos anteriores apareceram (ainda que sob intenso fogo inimigo). Por bem ou por mal, o país caminhou, mas nunca em seu potencial e olha que nem incluí aqui as reformas que não foram feitas, embora todos os bons economistas alertassem por 12 anos em artigos, blogs, conversas de boteco e seminários de pesquisa (mas não na TV, porque, afinal, a concessão pública tem um preço…).

Falta de competição somada a um marco regulatório quebrado (e pisoteado pela política de “escolha dos vencedores” ou, alternativa e talvez mais correta, “escolha dos perdedores”) e uma força de trabalho que não escreve direito, não faz contas algébricas simples, embora saiba fazer o upload de um vídeo na internet (ainda que não saiba fazê-lo se você chamar de upload) são os elementos que, para mim, explicam a má qualidade dos serviços no Brasil contemporâneo.

Obviamente, o buraco é mais embaixo e explicar estas relações envolve um pouco mais de rigor na investigação das relações causais envolvidas aqui (ou em bons contra-argumentos). Não fui atrás de dados que pudessem ser usados de forma cautelosa para investigar os efeitos quantitativos que a teoria (que também não elaborei rigorosamente) prevê. Mas acho que é por aí.

Não afirmo que este texto seja inédito, original ou profundo. Apenas uma coleção de insights. Uma coleção surgida de sucessivas decepções.

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