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Ele quer cometer suicídio ritual em nosso jardim…deixamos ou não?

HARA-KIRI -Death of a SamuraiDescobri o que me agrada neste filme (comentei aqui ontem): tem um jogo de reputação, central em toda a trama. Em resumo muito rápido, no início do filme vemos um jovem samurai sem senhor (o tal “Rounin”), pobre, que se apresenta na casa de um outro senhor feudal pedindo para usar o pátio para se suicidar (mais sobre o filme nos links do post anterior sobre o tema).

O problema é que outros – em situação similar – faziam o mesmo com os senhores feudais, mas claramente jogando com a piedade. Ou seja, o objetivo era fingir se suicidar para ganhar uns trocados ou, com sorte, um emprego.

Lembra, exatamente, o clássico jogo do sequestrador quando ensinamos equilíbrio perfeito em subjogos para os alunos, né? Pois é. A situação, no início do filme, é exatamente esta.

Caso você não conheça o jogo, aí vai uma sinopse: o sequestrador ameaça explodir uma bomba se o piloto do avião não desviar o vôo, digamos, de New York para Havana. O piloto, sabendo disso, tem que decidir se desvia ou não. Sabendo que a morte do sequestrador não o ajuda a chegar em Cuba, o equilíbrio de Nash, neste caso, é o equilíbrio perfeito em subjogos que é não desviar: trata-se de um blefe.

É por isto que um economista diria para você não negociar com terroristas. Mas como este filme não feito por economistas, a trama tem um desenrolar diferente, apelando para outros aspectos humanitário do espectador. Muito cuidado para não cair no golpe do “coração mole” e tentar jogar a teoria econômica fora por causa do filme.

Aliás, antes que você diga que não vai assistir o filme porque você curte teoria econômica, pense também em outro aspecto do roteiro. Ocorre que o pobre coitado, que tenta blefar, leva uma espada que, na verdade, é de bambu, o que é extremamente ofensivo aos que lhe oferecem o pátio para o suicídio.

Assim, ao contrário do problema simples do sequestrador, neste há um elemento adicional que torna a história mais dramática: há uma quebra de decoro imperdoável para os padrões sociais da época. Isto reforça o ódio dos vassalos que, praticamente, forçam-no a cometer o suicídio e é um elemento que não aparece na modelagem do jogo (uma curiosidade que me ocorre agora é: como será que poderíamos modelar este jogo desta outra forma?).

Claro, o drama é terrível e a história é contada de uma forma magistral, mas quem gosta de Teoria dos Jogos deveria dar uma olhada, também por conta desta curiosidade antecipação do famoso exemplo.

p.s.1. O remake de 2011 não é tão bom, há modificações na narrativa, mas vale a pena.

p.s.2. Olha, caso você goste deste tipo de conversa, sobre jogos e filmes, experimente ler um livro chamado Biblical Games, do Steven Brams. É bem divertido, mas você tem que ter algum conhecimento básico de Teoria dos Jogos o que, no Brasil, significa que você, não-economista, tem que ter cursado o mesmo curso de um economista, e não aqueles simulacros de cursos que a gente vê por aí, no qual o sujeito finge que ensina teoria dos jogos, só com lero-lero e as pessoas fingem que aprendem (e também fingem que “é muito difícil” para poder dar um tom dramático ao circo todo).

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