Falhas de Governo: o dia em que Getúlio Vargas destruiu a primeira bibioteca infantil do Brasil

Cecília Meireles: empreendedora da leitura

Vem deste blog a narrativa sobre a primeira biblioteca infantil brasileira que foi fundada e administrada por Cecília Meireles. Reproduzo porque esta foi, para mim, surpreendentemente, o melhor exemplo de falhas de governo. Vejam só:

Cecília exerceu, com destaque, a função de educadora ao organizar e dirigir a primeira biblioteca infantil brasileira. A biblioteca funcionou no Pavilhão Mourisco, enseada do Botafogo, no período de 1934 a 1937. Por sua amplitude, passou a denominar-se Centro de Cultura Infantil.

Jussara Pimenta, no ensaio “Leitura e Encantamento: A Biblioteca Infantil do Pavilhão Mourisco” (In: Poética da Educação, 2001) afirma que o Pavilhão Mourisco, um prédio em estilo neopersa, foi criado para servir de café concerto e tornou-se um bar restaurante muito frequentado pela sociedade carioca. Estava um pouco abandonado na época em que Anísio Teixeira, diretor do Departamento de Educação, resolveu transformá-lo em biblioteca infantil.

A inauguração aconteceu no dia 15 de agosto de 1934 e foi muito prestigiada. Contou com a presença de Pedro Ernesto, prefeito do Rio de Janeiro, e do Diretor do Departamento de Educação.

 

Pavilhão MouriscoOk, Cecília convence o governo a gerar uma belo bem público na figura da primeira biblioteca infantil brasileira. Não há como não ficar emocionado, ainda mais que não existem evidências de que Cecília Meireles agisse em prol de grupos de interesse. Parece uma genuína preocupação com a educação. Sabemos que não existem anjos, mas o fato é que a poetisa fez o que eu chamo, hoje em dia, de…gol da Alemanha!

Getúlio Vargas: pai dos pobres e analfabetizador de crianças

Mas, claro, estamos falando de um país com instituições muito pouco inclusivas – no sentido moderno que lhes dão os economistas (Acemoglu, Robinson, Bergstron, Persson, etc) – e, portanto, você já adivinha o que vem.

Nada dura para sempre. Em 19 de outubro de 1937, sob a vigência do Estado Novo, a biblioteca infantil foi invadida pelo interventor do Distrito Federal e teve as portas cerradas com a justificativa: “em seu acervo abrigava um livro de conotações comunistas”. O livro era “As aventuras de Tom Sawyer”, do escritor americano Mark Twain.

A diretora protestou pelo fechamento da biblioteca e a falsa acusação de ter no acervo um livro comunista. Era um absurdo! Os jornais da Europa e Estados Unidos deram destaque à medida arbitrária e descabida do governo de Getúlio Vargas. Tudo foi inútil. A biblioteca foi fechada e serviu depois para um ponto de coleta de impostos. Arrecadar dinheiro é mais importante do que a educar.

A blogueira, então, arremata a breve história da biblioteca com tristeza. Não é para menos. Vejam o que o governo, este bondoso Leviatã que deveria corrigir externalidades, fez. Invadiu e fechou a biblioteca com uma justificativa, no mínimo, grotesca e, não obstante, mostrou a que veio: transformou o local em um ponto de coleta de impostos.

Provavelmente o discurso do governo deve ter sido o de que os impostos serviriam para gerar bens públicos para a população ou para corrigir externalidades (tudo isto dito de alguma forma diferente, com palavras como “progresso”, “estatais”, “tudo pelo social”, etc). É realmente tragicômica a história deste país. Nem as crianças escapam da fúria arrecadatória do governo.

A gente ouve que o discurso oficial era de que Getúlio foi o “pai dos pobres”. Bom, como o capital humano (educação) é o que tira a gente da pobreza, esta ação do ditador – homenageado em praças, ruas e avenidas pelo Brasil afora – mostra que, sim, ele foi o pai dos pobres, mas em um sentido mais diabólico.

Finalmente…

Muita gente fala de exemplos de rent-seeking usando exemplos norte-americanos. É verdade que na falta de tempo, a gente importa exemplos de lá. Entretanto, não é preciso ir muito longe. Basta pesquisar um pouco nossa história e a gente descobre muitos exemplos. Um dia destes ainda escrevo um livro de Economia Política na História Brasileira e procuro um editor que tenha interesse em perder dinheiro comigo. Nestes últimos dez anos tenho feito acumular uma pilha de exemplos de como nosso governo mantém-se ineficiente ao longo das eras. No final do dia, Mancur Olson, James Buchanan e Gordon Tullock são muito mais úteis para explicar nossa realidade do que outros autores. Pelo menos é assim que vejo.

Como deve ter sido triste para as crianças perder uma biblioteca infantil e, claro, como deve ter sido triste para alguns pais ver a máquina coletora de impostos do Leviatã brasileiro crescer. Mas assim é como deve funcionar o governo brasileiro, na visão de alguns, não? Devem escolher vencedores o que é a mesma coisa de escolher…perdedores. Perdeu a sociedade como todo, ganharam o governo e os favorecidos com a coleta de impostos. Educação, claro, para poucos. Certamente não dá para chamar de gol da Alemanha

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