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Bônus para alunos: resolve? Revisitando o tema com tia Cecília (Meireles)

Poetisas e bônus

Cecília Meireles, em 1941, achava que não. Por que? Vamos começar com uma contextualização. A grande escritora, preocupada com a educação básica, comentava em um espaço de jornal (o clássico A Manhã) a proposta de um padre, que, segundo ela:

“(…) imaginou um sistema de distribuição de bônus, com os quais seriam premiadas as crianças mais assíduas. Esses bônus, convertidos em dinheiro, permitiriam a aquisição de pequenas coisas úteis, e assegurariam a presença constante da criança na escola, e, quem sabe, a sua permanência até o fim do curso”. [Meireles, C. (2001) [1941], Crônicas de Educação, vol. 5, Ed. Nova Fronteira, p.183]

A autora, então, manifesta-se contra este bônus. Para ela, o problema é que as crianças passariam a desejar o acúmulo puro e simples de bônus para, obviamente, aumentar o valor que teriam para comprar as miudezas. Outro ponto, contrário ao primeiro, é que o incentivo poderia ter um efeito de curto prazo:

Depois de algum tempo, os meninos dirão entre si: ‘Não, amanhã faço gazeta, pois já tenho vinte bônus, e posso comprar um bodoque.’ E o outro, respondendo: ‘Que maçada, eu ainda tenho de ir a semana toda, porque estou juntando bônus para comprar uma bola-pneu.’ [idem, p.184]

Repare que o ponto central de Cecília é tão somente o de se a criança responderá ao incentivo de forma genuína. Em outras palavras, para ela, o incentivo ideal é aquele que faz com que o garoto vá à escola porque a escola lhe parece interessante (ela desenvolve este argumento em uma coluna subsequente no mesmo jornal).

Incentivos em si ou apenas incentivos? 

O argumento de Cecília Meireles me lembra a discussão que foi feita pelo economista Bruno Frey, há uns 20 anos, acerca da motivação intrínseca e extrínseca dos incentivos. Geralmente, dizia ele, o economista se preocupa apenas com a última. Em outras palavras, se o bônus aumenta a assiduidade, tudo bem.

Entretanto, ele argumentou em seu pequeno livro Not just for the money, que poderíamos observar indivíduos que se importam com o tipo de incentivos. Em outras palavras: há gente que reage diferente ao incentivo e há gente que não concorda em reagir ao incentivo por achá-lo, por exemplo, repugnante. Por exemplo: podemos oferecer R$ 40.00 a um sujeito pelo seu sangue – para ajudar nos bancos de sangue – e não conseguirmos sucesso porque o sujeito, embora ache R$ 40.00 uma boa grana, ache repugnante a idéia de vender sangue.

A nossa grande poetisa teve a mesma intuição em sua crítica do sistema de bônus proposto pelo padre, mas eu me pergunto se a idéia era realmente ruim. Digo isto porque, sem recorrer a Bruno Frey (ou a Alvin Roth, que cunhou o termo “economia repugnante” para trocas que, muitas vezes, até salvam vidas…), podemos analisar o efeito dos bônus sobre a assiduidade das crianças usando a teoria econômica básica: o bônus nada mais é do que um dinheiro carimbado (uma transferência condicionada).

Seu objetivo não é mais ambicioso do que se propõe: manter a criança assídua na escola. Obviamente, se os pais e os professores não deixam claro isso ao moleque, sim, ele pode se preocupar apenas em acumular os bônus, como na crítica de Meireles. Mas há também a questão de como se desenha este bônus. Pense por exemplo nas seguintes perguntas: ele acumula indefinidamente? Que tipo de bens ele compra?

Eis aí um exercício simples para um aluno de economia: como obter uma solução que agrade tanto ao padre Bruno Teixeira quanto à Cecília Meireles? Eu diria o seguinte: preferências pelas escolas são muito mais difíceis de se mudar, com bônus ou não. A autora chama a atenção para isto em sua outra crônica (“Da evasão escolar”, na mesma coletânea). Este é um trabalho que envolve background de pais, por exemplo, na geração de valor da escola na cabeça (ou, como provavelmente diria a poetisa: no coração) da criança.

Conclusões Nada Poéticas

O bônus tem este problema de ser pensado em si, como aponta a escritora (o mesmo problema do sujeito que cumpre os Dez Mandamentos porque isto lhe dá “bônus” no céu, não por legítima fé). O que se pode fazer é criar um sistema de bônus com regras claras e que leve em conta esta possibilidade. Ora, o bônus pode ser ganho, por exemplo, no final do período escolar, computando a assiduidade líquida (presenças menos ausências). Isto evitaria o problema levantado pela autora.

Agora, um ponto no qual discordo da poetisa é quando ela critica o bônus dizendo algo como: “premiar uma criança é sempre despremiar outra” (p.184), dando-lhe uma conotação negativa. Nem toda criança deve ser premiada e aqueles que o são não estão subtraindo nada de terceiros. Esta visão estereotipada da premiação faz-nos crer que o mérito de alguém é o demérito de outrem. Retoricamente, pode ser. Afinal, se, digamos, alguém chegou em primeiro, os demais chegaram em segundo. Mas assim também o é para quem chegou em segundo, e assim vai. A idéia do bônus, em si, não premia despremiando, exceto se você construir o incentivo desta forma (por exemplo: se eu disser que o bônus vai ser subtraído dos que faltaram).

O que é legal na leitura destas coisas é perceber que o ser humano sempre foi inovador. Para quem acha que a Ciência Econômica é apenas um monte de proposições a-históricas jogadas em um livro-texto, nada mais iluminador do que perceber que a mesma está espalhada em nossa realidade, inseparável de cada aspecto de nossas vidas. É algo mais vibrante e presente do que muitos pensam e, como se vê, ocupou até mesmo as preocupações dos poetas. Como hoje é sábado…

Dia claro,
vento sereno,
roda, meu carro,
que o mundo é pequeno.

Quem veio para esta vida,
tem de ir sempre de aventura:
uma vez para a alegria,
três vezes para a amargura.

[Canção do carreiro (primeiras estrofes). In: Meireles, C. (1942) Vaga Música]

Um comentário em “Bônus para alunos: resolve? Revisitando o tema com tia Cecília (Meireles)

  1. Apesar de o texto não defender a ideia de que se deve distribuir bônus em ambientes escolares, gostaria de reiterar que há certas coisas que tem um valor intrínseco e devem ser assimiladas como tais e a educação assim como valores morais são exemplo disso. Não deveria precisar de céu ou inferno para que as pessoas se respeitem ou de sistema penal para que um não mate o outro. Quando não existirem bônus para que um estudante leia um livro fora do contexto escolar, estude um outro idioma ou faça algum curso à parte, será que ele se sentirá estimulado?

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