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Emporiofobia, pobreza e instituições

Introduzindo a Emporiofobia

Há um perigo rondando os cursos das faculdades de ciências sociais: o entendimento incorreto acerca do papel dos mercados. Boa parte da culpa cabe aos inimigos do mercado, mas boa parte cabe a nós, professores de Economia, por não enfatizarmos de forma eficiente os benefícios do funcionamento de mercado.

Paul H. Rubin, em seu discurso presidencial na Southern Economic Association, chama a atenção para este problema sério. Em uma ótima passagem, diz:

Why are some people poor? The competitive metaphor says they are poor because they were outcompeted, and perhaps their wealth was expropriated by the rich. (The folk saying ‘‘The rich get richer and the poor get poorer’’ implies causality.) But economists know that this is not why people are poor. They are poor because they have little or nothing worthwhile to sell—no capital, no valuable marketable skills. That is, the poor are poor because they are unable to enter into cooperative relationships with others. We may feel sorry for someone who is poor, whether this is because they have lost in a competitive contest or because they are unwilling or unable to cooperate successfully with others. But if poverty is caused by an inability to cooperate, we do not look for villains who have caused the poverty through competition. There is no external agent to blame for poverty if the poverty is caused by a lack of things to sell, rather than by losing in a competitive contest. The solution to poverty caused by a lack of something to sell is to increase the human capital of the poor, generally through increased education. [Rubin, P.H. Emporiophobia (Fear of Markets): Cooperation or Competition?, Southern Economic Journal, v.80, n.4, Apr/2014, p.885]

Belo trecho, não? Nós, economistas, precisamos enfatizar mesmo o aspecto de cooperação inerente ao funcionamento dos mercados. Eu me lembro, na época de minha graduação, que alguns professores falavam sobre a visão distinta de Durkheim e Marx acerca da divisão do trabalho (o melhor amigo do homem, da mulher e do cachorro que, por sinal, é o melhor amigo dos dois primeiros, segundo o ditado…). Faz todo sentido. Enquanto Marx vê a divisão de trabalho sob uma ótica negativa, Durkheim destacava os aspectos positivos da cooperação (segundo dizia meu professor…).

Claro que o professor – de Sociologia – dava um salto e não falava de evidências empíricas, estudos, etc, mas tentava nos vender a idéia de que a divisão de trabalho era ruim porque há um filme, Tempos Modernos, de Charles Chaplin que diz isto. Bom, é um filme contra as evidências empíricas, mas a retórica do professor funcionava: ninguém ousava tomar partido de Durkheim depois disto.

Espera aí? Mas isto não é emporiofobia?

Usar um filme como evidência empírica e depois acusar os economistas de serem “frios e racionais” até combina, mas não é a forma correta de se investigar os efeitos da divisão do trabalho sobre a prosperidade humana. Aliás, a divisão do trabalho pode ter graus distintos conforme a estratégia de cada empresário e, note bem, aí entra o argumento de Rubin: diversos empresários competem pelo direito de cooperar com os consumidores.

O mundo não é cheio de anjos, mas isto nunca foi dito por economistas. Pelo contrário, sabemos que pessoas são auto-interessadas – podendo ser mais ou menos benevolentes com terceiros – mas um sistema econômico como o livre mercado não funciona se não existirem valores morais (Rubin, 2014).  Por que? Porque a troca voluntária – característica fulcral do livre mercado – só fará sentido se houver confiança entre as partes envolvidas.

Claro, em um capitalismo de compadres (crony capitalism), você também terá trocas, mas a intervenção do governo para favorecer alguns grupos destrói o efeito da confiança por meio de sua ação invasiva, unilateral e, muitas vezes, autoritária. Afinal, uma coisa é um contrato voluntário de aluguel e outra é uma lei que me obriga a alugar meu apartamento para um sem-teto rejeitado até pelo blogueiro progressista que fala de ostentação mas o recusa em sua casa (eu também o recusaria, é bom dizer, por motivos óbvios sendo a falta de confiança no desconhecido mendigo a maior delas).

A emporiofobia sustenta-se em diversos preconceitos (ou vieses) que trazemos da formação superficial que temos nas escolas. Veja bem, não é que as escolas deveriam ensinar tudo de tudo o tempo todo, mas se alguns professores fossem mais profissionais e menos políticos profissionais, ajudava muito. Trazemos dos bancos escolares este preconceito contra os mercados.

Evidências empíricas?

Já citei neste blog diversas evidências empíricas acerca da importância de instituições informais para o desenvolvimento econômico. São entendidas como instituições informais, no sentido aqui dado (devido aos trabalhos de Douglass North), aquelas regras não escritas que regem as sociedades. Pois muito bem. Há vários trabalhos empíricos destacando a importância destas instituições para o desenvolvimento econômico.

Quando iniciamos nossa investigação acerca de uma hipótese, fazemos visualizações de dados. Por exemplo, digamos que nosso objetivo seja testar a hipótese de que cooperação e mercados livres andam juntos. O primeiro passo é buscar variáveis que representem, separadamente, cada um destes conceitos.

Só para ilustrar, apresento algumas correlações. Na primeira delas, busco verificar a relação entre liberdade econômica (última edição do índice) e confiança (a variável é trust, descrita em outros artigos, por exemplo, neste). Os países estão marcados por um símbolo que é uma bolinha, cujo tamanho varia conforme o logaritmo do PIB per capita do país em 2000.

trust1

No próximo gráfico, a idéia é ver o próprio PIB per capita com a confiança. Para mim, até que tenhamos um indicador melhor, o PIB é a melhor proxy de prosperidade.

 

trust2

 

Finalmente, um último gráfico que mostra o índice de respeito aos direitos de propriedade com a confiança. Novamente, a relação é positiva.

trust4

 

 

Eu sei que você gostaria de ver mais do que correlações. Outros gostariam de ver a correlação com um índice de Gini, mas não o tenho aqui. Mesmo assim, não basta uma correlação, não é mesmo? São necessários mais estudos econométricos que nos ajudem a ver o papel da confiança no desempenho econômico das sociedades. É de se esperar que estudantes de Economia tenham interesse em pesquisar o tema (embora muitos deles apenas queiram uma nota média para serem aprovados). Mesmo assim, nós, professores, temos, conforme estes dados, algumas evidências interessantes para pensar.

Emporiofobia: os dados nos dizem que a semântica, em sala de aula, está errada?

Eu diria que sim. Como Rubin (2014) destacou em sua agradável e importante lecture, precisamos enfatizar mesmo o aspecto cooperativo do funcionamento dos mercados. Apresentei apenas três correlações, mas todas elas indicam que o ponto central de Rubin está correto: precisamos – e podemos, pois há (muita) evidência empírica – destacar os aspectos cooperativos do funcionamento dos mercados. Esta não é uma “bandeira” dos inimigos dos mercados. Não é, também, de sociólogos. Mas é estranho que não seja uma de nossas bandeiras.

A interação entre cooperação e competição está lá, sim, no velho Adam Smith, e reverbera em todos os livros-textos, de forma sutil e nem sempre clara. Na minha visão, a emporiofobia é um preconceito, um viés que só pode diminuir – em prol de toda a sociedade – com o ensino de Economia. Claro, há quem queira ver no ensino de Economia um alvo para sabotagem.

Há quem ache que o melhor para a humanidade é um mundo socialista e, portanto, o ensino de Economia deveria ser sabotado e substituído pelo marxismo, como se tenta fazer atualmente na Argentina. Caso esta seja, realmente, uma boa descrição do que ocorre nas faculdades brasileiras, então só nos resta lutar para que a o ensino de Economia não seja sabotado. Dadas as evidências empíricas, creio que o lema é: não à emporiofobia (com ou sem acento).

24 comentários em “Emporiofobia, pobreza e instituições

  1. Ótimo post.
    Quanto ao seu professor na graduação, apenas considero que abordar o conceito de alienação em Marx via filme do Chaplin é um acinte aos alunos, ao Marx e ao Chaplin.
    Aprendi com um grande professor que num curso sobre Marx não se estuda Marx. O certo, ele dizia, “era imitar Marx”. Num curso sobre Marx “seriam vistos Aristóteles, Hegel, Smith, Ricardo e etc”, pois ninguém opta por esta ou qualquer outra filosofia sem cuidadoso exame prévio. E arrematou com uma lição que aproveito até hoje: se desejávamos aprender marxismo precisaríamos antes nos “comunicar com os pensadores que definiram o campo teórico a partir do qual Marx refletiu”. Ou seja, antes de escrever “crítica da economia política” foi preciso conhecer a economia política. “Crítica”, ele nos lembrou, “é exame, seleção, partilha, análise.”
    Lendo o post, me veio á lembrança dois autores que trabalharam magistralmente o tema das trocas nos coletivos humanos: André Leroi-Gourhan e Elias Elias Canetti.
    Com o primeiro, um dos etnólogos mais importantes do século XX, aprendemos que a nossa humanização é um processo de face dupla: de um lado o que Gourhan conceitua como empréstimo e, do outro o que é conceituado como invenção.
    Emprestar instrumentos e saberes de um outro grupo humano e, ao mesmo tempo, inventar novos instrumentos e saberes não é algo contraditório. Ilusão é imaginar que um grupo humano possa viver apenas de empréstimo ou de invenção. Dados os diferentes constrangimentos aos quais estiveram e estão submetidos os coletivos humanos (e está se falando desde as nossas origens como espécie zoológica), os grupos não possuem, igualmente e ao mesmo tempo, todos os instrumentos e saberes. E até dentro de um mesmo grupo as formas e modos de utilização de instrumentos e saberes são diversificadas.
    Gourhan tem uma imensa e sólida base empírica de pesquisa arqueológica para sustentar os seus conceitos. E até hoje, sobretudo para quem trabalha com história das técnicas, o conceito dele de cadeias operatórias é de grande valia.
    Cannetti, em seu livro Massa e Poder, fala das mãos como o nosso principal instrumento. Liberadas e com o grande afastamento do polegar, elas adquiriram um trabalho novo. Puderam ser sincronizadas e fazer o mesmo tempo a mesma coisa, como alcançar um novo galho enquanto a outra segurava o que será deixado para trás. Pegar e soltar se sucedem. E não é isso, pergunta Cannetti, que confere aos macacos ”a leveza que tanto admiramos neles”?.
    A nossa espécie zoológica conservou essa nova propriedade das mãos de pegar e largar ao mesmo tempo. Canetti atribui a essa nova propriedade manipulativa o surgimento do comércio. Na troca comercial, uma mão segura um objeto, enquanto a uma outra é estendida até ele:
    “A alegria difundida e profunda que o homem encontra no comércio, em parte pode ser explicada porque perpetua uma de suas mais antigas configurações de movimento sob a forma de atitude psíquica. Em nada o homem ainda está tão próximo do macaco como no comércio”.(Cannetti. Fico devendo a página da citação)
    Abs

  2. Acho o tema importante e do texto teria muitos aspectos a ressaltar como o do processo alienante que um sistema industrial pode determinar quando a divisão do trabalho é levada a exaustão. Fez-se referência a Charles Chaplin e a Adam Smith. O que acrescentaria é que o próprio Smith, antevendo o caráter alienante da divisão do trabalho na área fabril, recomendou politica de educação aos trabalhadores – exatamente para se atenuar esse problema de alienação. Mas não é sobre pontos específicos que gostaria de dizer algo. É sobre a problemática da compreensão de uma economia de mercado.

    Concordo que, pela amostragem que conheço, os professores de economia em seus cursos introdutórios não têm dado ênfase às implicações de uma economia de mercado funcionando razoavelmente bem. O grande mérito de uma economia de mercado é sem dúvida o caráter alocativo. Mas não podemos deixar de observar que questões importantes como o da distribuição da renda não é tratado satisfatoriamente no contexto de uma economia de mercado – existe a possibilidade de uma alocação ser eficiente, mas injusta sob algum ponto de vista. Existem outros problemas que o próprio Smith tratou: o da importância da solidariedade numa sociedade. Gastou pena ao escrever o seu livro maçante: a teoria dos sentimentos morais. Poucos fazem referencia a esse livro que se complementa com o da Riqueza das Nações. Um prega o egoísmo como motor fundamental da dinâmica econômica e o outro prega a solidariedade como elemento fundamental para uma sociedade estável. Hoje bem sabemos que Instituições é a chave para induzir incentivos e restrições, de forma que uma sociedade harmônica possa vicejar, moldando condutas. Aí é que reside o nosso ponto crítico: instituições.

    Há muito ainda para avançarmos no entendimento completo do papel das instituições. Infelizmente (talvez???) a nossa ciência econômica não pode apresentar uma precisão tal qual ocorre com a física. Nesse sentido, para mim, a melhor conduta intelectual é a prudência que me leva a aceitar as visões de outras correntes ou até mesmo levar em consideração reflexão de artistas sobre a realidade circundante. Evidentemente, a escolha de um caminho político está sempre presente em nossas atitudes. A maneira como cada um entende o que deveria ser o mundo é algo a ser sempre respeitado e tenho certo isso está retratado no post. Mas o post me leva a outro ponto: o da economia politica. Essa é a economia dos interesses. E o meu interesse tanto quanto o seu (até aonde posso alcançar) é ressaltar o aspecto fundamental que uma economia de mercado impõe: a liberdade individual. Esse é o raio de luz que me ilumina quando analiso questões como a indicada no post. Onde fecham a porta da liberdade individual, vou querer abri-la.

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