Inflação estrutural: um conceito em busca de um sentido (mas com muita platéia)

Gustavo Franco, hoje, no Estadão, fala sobre a malandragem conhecida como “inflação estrutural”. Alguém poderia querer levar isto a sério e, para estas pessoas, eu indico sempre o estudo do Fernando Holanda Barbosa: A inflação brasileira no pós-guerra: monetarismo versus estruturalismo, publicado pelo falecido PNPE junto ao IPEA, em 1983. Poucos estruturalistas leram o livro (basta ver que ele nunca é citado nos supostos debates “plurais” promovidos pela patotinha) e há fortes indícios de que isto se deva ao fato de eles acharem econometria um instrumento maligno, de tons neoliberais.

Sobre o texto de Franco, temos esta importante constatação:

O legado mais duradouro e popular da “teoria da inflação estrutural” era tão simples quanto devastador: a (suposta) inutilidade das políticas de estabilização convencionais, argumento que ainda soa como poesia para os amigos da inflação.

Poucos se dão conta da importância e da contundência desse drible dado pelos “estruturalistas”: nunca se fazia uma defesa aberta da inflação, mas um ataque às políticas monetárias ortodoxas e à austeridade. Em retrospecto, deveria ser claro que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” e os “estruturalistas” estavam trabalhando a favor da inflação, às vezes admitindo “expropriar os rentistas” ou “tributar a riqueza ociosa”, um argumento que frequentemente se associava a lord Keynes.

Não há como negar. Alguém que se dê ao trabalho de ler os argumentos verá que a descrição de Franco está correta. Aliás, um estruturalista sincero não negará que sempre foi contra as assim chamadas políticas monetárias ortodoxas. Junte-se a isto o debate sobre a existência da curva de Phillips (salvo engano, nas páginas da PPE, no início da década dos 80), e você tem um caldeirão de idéias nem sempre logicamente conectadas para jogar o combate à inflação no lixo.

Obviamente, a curva de Phillips pode ser bastante instável e tudo o mais, mas não é disso que este pessoal falava. Como o texto acima destaca, a malandragem consiste em dizer algo como: “a curva de Phillips não existe e, além disso, a gente escolhe o eixo horizontal como cavalo de batalha”. Infelizmente, para este pessoal – alguns dos quais chegaram a dizer que a convivência com a inflação já era parte da cultura do brasileiro – o Plano Real veio com medidas convencionais (ou, se preferir, ortodoxas) e mostrou algo óbvio em qualquer ciência: o que os testes empíricos mostraram (e a história, e a teoria, etc) funcionava. A inflação se foi. Nem doeu tanto, doeu?

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