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Como pedir pelo pluralismo de forma desonesta

Basta seguir o pequeno opúsculo de Jean-Marie Domenach, A Propaganda Política (coleção Saber), de 1963, publicado pela Difusão Européia do Livro, em São Paulo. Quem seria melhor que um francês para falar do tema?

Em seu capítulo V, Leis e técnicas, temos as cinco leis importantes (e a técnica, na verdade, resume-se à contrapropaganda), que podemos adaptar para um pedido de pluralismo na Ciência Econômica. Antes de prosseguirsmos, note que não estou acusando os honestos de não o serem (para um bom debate sobre o tema, ver isto e isto). Meu alvo são os pterodoxos, aqueles que desejam impor suas agendas sob o manto de um vago “pluralismo” que, de tão vago, é capaz de desaparecer à primeira brisa.

Lei de simplificação e do inimigo único

Não há novo-keynesianos, novo-clássicos, monetaristas, etc. Não. Só há um inimigo: o neoclássico. Neoclássico é o sujeito malvado. Se professor, então é o que mais reprova porque pede mais do que contas: quer explicações de procedimentos algébricos. E fala de preços flexíveis no longo prazo. Veja, se ele falar de retornos de escala crescentes, ele será neoclássico se usar o conceito algebricamente. Caso contrário, pode ser um dos nossos.

Lei de ampliação e desfiguração

Não há uma planilha errada no trabalho de Reinhardt e Rogoff. Não senhor! Há uma clara manipulação para denegrir a ação dos bons burocratas! Aliás, quem financia estes autores? Há interesses maiores! Não são estes dois parte da aliança neoclássica com o complexo militar industrial estadunidense para derrubar Obama e impor a ordem mundial capitalista?

Ah, sim, tem uns errinhos no livro do Piketty, mas nada demais.

Lei de orquestração

Falar mal dos neoclássicos (já juntamos Keynes e Friedman no mesmo saco) é fácil…mas é monótono. Temos que variar. Então, estamos todos juntos contra o equilíbrio econômico, a matemática, a falta de “social” e o excesso de “números” (menos os do Piketty, claro). Somos contra o ensino de teorias com pouca prática e somos contra a prática das consultorias de estudantes porque…são capitalistas. Somos contra os retornos decrescentes de escala ou contra as vantagens comparativas. Pronto, já ficou divertido.

Lei de transfusão

20140524_114226Todo jovem é jovem porque…é do contra. Tem algo aí nos hormônios dos moleques que os faz assim…jovens. Pois bem. Vamos misturar o “sangue jovem” com a “mudança” necessária da Economia. Somos contra a microeconomia porque ela não é jovem o suficiente para a sociedade moderna! O edifício (note a idéia de perene e eterna existência associada à palavra) neoclássico precisa ser derrubado e substituído. É dos jovens mudar, é dos velhos e carcomidos resistir.

Lei de unanimidade e de contágio

Desde que a sociologia existe, tem-se focalizado a pressão do grupo sôbre a opinião individual e os múltiplos conformismos que surgem nas sociedades (cito Domenach no original, p.70).

Sendo assim, temos que tornar meu desejo de mudança em um desejo de todos por mudança. Não sou eu que não dou conta do exercício de maximização condicionada! Não, meus caros! É a sociedade que deseja uma nova maneira de pensar economia! Uma maneira mais livre, social, ecologicamente correta! Há unanimidade quanto à mudança! Só você, com seus velhos hábitos (ruins) arraigados é contra o pluralismo!

Não há melhor forma de expressar esta lei do que por meio de um manifesto, com muitas e muitas assinaturas.

Conclusão

Pois é. O que mais me incomoda é a falta de pluralismo na sociologia. Sério, gente. Eu já vi muitos cursos de sociologia de alta qualidade lá fora. Muito mais diversidade (= pluralismo) de autores nas ementas. Não só os mesmos de sempre. Não há apenas a visão marxista do mundo. No entanto, os cursos de sociologia recusam o pluralismo. É uma pena. Há um grande anseio por mudanças por parte da sociedade. O que os sociólogos têm feito com nosso dinheiro? O que ajudam a explicar, de fato?

Ah, sim, desculpem-me amigos sociólogos (sic). Eu falava de Economia. Pois é. Mas basta trocar as palavras aí e já estamos todos em paz novamente. Como sempre estivemos: paz beligerante.

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