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Existem certas verdades…

verdades
“Ah, IBGE, vamos esquecer estes gráficos…abandonemos estes números frios dos economistas…a sociedade é paixão, amor, ternura…”.

Existem certas coisas que não mudam com o tempo. Uma delas é a discussão de metas e instrumentos de política econômica. Desde que William Poole publicou seu clássico artigo em 1970, muita coisa aconteceu: a discussão original de Friedman sobre regras foi aperfeiçoada, as expectativas racionais trouxeram muitas inovações tecnológicas na forma de se fazer política econômica e, claro, a Teoria dos Jogos mudou a visão, digamos assim, de engenharia para uma abordagem microfundamentada. De certa forma, aquela história de Hayek sobre o individualismo falso e verdadeiro (um ensaio famoso dele) teve um final feliz: a visão dos microfundamentos prevaleceu (embora nem tudo o que Hayek quisesse dizer com o artigo se transformasse em realidade).

Mas existe o lado político…

Parece um tanto quanto óbvio que fazer política econômica é um problema no qual não se pode ignorar nem o “política” e nem o “econômica”. Quanto ao segundo, estamos tranquilos. Mas quanto ao primeiro, a administração Yousseff, Rousseff não tem se mostrado lá muito virtuosa e seus apoiadores, inclusive, parecem descomprometidos com a verdade (basta ouvir o rosnar dos lobos em comentários agressivos, ameaçadores e violentos na rede, acompanhados de pedidos para demissões de jornalistas, etc).

O caso do IPEA e o do IBGE mostra que há um problema com o “política” acima citado. Não se quer fazer o dever de casa ilustrado pelo gráfico acima e se pretende roubar nas regras do jogo. Pressões políticas em órgãos públicos que coletam dados? Cerceamento dos mesmos via cortes orçamentários (enquanto outros gastos bem menos nobres continuam?).

O que as autoridades acham disto tudo?

Bem, não acham nada. Ou acham, mas não falam. Ou mentem. Até agora, não vi um único membro da administração atual chamar a imprensa e fazer uma barulhenta declaração de apoio ao IBGE ou contra pesquisas técnicas de baixa qualidade do IPEA. Vejo, sim, muito diversionismo e oportunismo com tentativas de bloquear uma CPI (fazia tempo que não via esta galera, que sempre pediu CPI em outros governos, fugir assim, de forma bem covarde, da briga) e muito rosnado contra inimigos imaginários.

Manifestações insanas…e o que você acha disto tudo?

Pois é. Até o tomate virou inimigo do socialismo bolivariano brasileiro. “Amarrem o tomate ao poste!”, pedem os militantes que ganham R$ 150,00 para quebrar propriedades privadas nas ruas. “Estuprem o tomate!, diz um professor de filosofia de uma universidade federal carioca. “Julguem o tomate, mas só se ele estiver verde ainda!”, berra o cronista gaúcho enquanto saboreia sua salada.

Já a boa Ciência Econômica…

Notem como, sutilmente, estão tentando desmoralizar a pobre Ciência Econômica. Querem espalhar por aí que o IPEA é um lixo, que o IBGE é tucano e que o bom mesmo é ensinar ideologia nas faculdades de Economia. A permissividade disfarçada de pragmatismo é a regra: deixa para lá, defender a lógica dá dor de cabeça. Daqui a pouco vão promover queima de livros de Adam Smith e David Ricardo e os chefes de departamento aplaudirão.

“Queimem os livros-texto de Economia! Queimem! Mais amor! Mais emoção! Menos números frios e sem coração!” Palmas! Palmas!
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O viés dos progressistas: lamentação pelo IBGE

Tanto no episódio do IPEA como neste péssimo episódio da PNAD do IBGE, o que não me espanta mais é o silêncio dos auto-denominados (e supostos) progressistas. Geralmente se dizem tolerantes com a divergência, mas não perdem a oportunidade de de cobrar, daqueles que deles discordam, uma suposta neutralidade porque, conforme dizem: sua opinião é viesada porque ideológica e a minha não. Cadê a neutralidade?

Pois é. Agora entendo a neutralidade deles: significa neutralidade de ação. Eles preferem se calar nestes episódios. Ou tentam arrumar uma desculpa para continuar sua agenda política como se a mesma fosse neutra (ou, como dizem: a sua é que não é neutra, logo…).

O ocaso do IBGE é perigoso. Repare que, mesmo para os admiradores do nacional-inflacionismo (nacional-desenvolvimentismo para alguns), que adoram o governo Médici (e também o do general Geisel), este é um péssimo precedente. Nem nos anos da ditadura houve tamanha interferência no órgão. Em democracias sérias, no outro extremo, isto também não ocorre.

O viés dos auto-denominados progressistas, para mim, está claro: além de carregarem a bandeira de neutralidade e diversidade enquanto praticam o oposto, eles se calam diante de perigosas interferências como estas.

Em ano eleitoral, com a credibilidade econômica reduziada a zero – e não falo do setor financeiro que, como o Ellery mostrou, é otimista e não pessimista, como afirma o “nervosinho” Mantega –  agora o governo começa a destruir a credibilidade daqueles que fornecem dados públicos. Combine a isto os poderosos interesses contrários a um bom desempenho no PISA e você terá um bando de gente analfabeta funcional que serve de massa de manobra ou para ações páramilitares no estilo black bloc contra os que discordam de você.

No final, você ainda vai achar que isto tudo é democracia, tolerância e diversidade, com o aval de alguns auto-denominados (e supostos) intelectuais que nunca perdem a oportunidade de ganhar um dinheiro governamental (= vindo do seu bolso) para divulgar suas idéias bovinas e dóceis ao governante da hora enquanto também achincalham adversários sérios ou não, imaginários ou não. Falam de “observar” (= vigiar e eliminar a divergência?) de imprensa, de democracia, mas o fato é que ninguém quer aprender sobre anos e anos de pesquisas sobre instituições e resultados econômicos ou políticos.

Pobres técnicos do IBGE. Passaram anos fazendo um trabalho sério, acreditando pessoalmente em alguns políticos ou partidos, obviamente, mas sempre separando o lado pessoal do profissional e, agora, isto. Não é só perigoso e triste: é frustrante.