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Inflação calculada com dados em tempo (quase) real?

Pois é. Um dia destes um sujeito me falou que iria fazer isto. Segundo ele, seu aplicativo para celulares iria permitir o cálculo de uma inflação diária. Entretanto, sua arrogância e seu desprezo pelos métodos quantitativos (que ele chama, ignorantemente, de “métodos acadêmicos”) não o levaram a nada. Deve ser o aplicativo mais fracassado de todos os tempos.

Mas eu não perco a esperança na humanidade: há gente que faz. Vejam só que sensacioal o resumo deste trabalho:

We construct a Törnqvist daily price index using Japanese point of sale (POS) scanner data spanning from 1988 to 2013. We find the following. First, the POS based inflation rate tends to be about 0.5 percentage points lower than the CPI inflation rate, although the difference between the two varies over time. Second, the difference between the two measures is greatest from 1992 to 1994, when, following the burst of bubble economy in 1991, the POS inflation rate drops rapidly and turns negative in June 1992, while the CPI inflation rate remains positive until summer 1994. Third, the standard deviation of daily POS inflation is 1.1 percent compared to a standard deviation for the monthly change in the CPI of 0.2 percent, indicating that daily POS inflation is much more volatile, mainly due to frequent switching between regular and sale prices. We show that the volatility in daily inflation can be reduced by more than 20 percent by trimming the tails of product level price change distributions. Finally, if we measure price changes from one day to the next and construct a chained Törnqvist index, a strong chain drift arises so that the chained price index falls to 10 of the base value over the 25-year sample period, which is equivalent to an annual deflation rate of 60 percent. We provide evidence suggesting that one source of the chain drift is fluctuations in sales quantity before, during, and after a sale period.

Sensacional mesmo, não é? Enquanto alguns continuam chamando parte do conhecimento humano de uma simples “questão acadêmica”, criando um clima de obscurantismo, outros desprezam este bullshit talk e fazem o trabalho. O pessoal chegado em nacionalismos vai até notar que há um paper de uns brasileiros citados na bibliografia do artigo.

Taí um trabalho que eu gostaria de ter feito. Mas foi feito por dois autores lá do Japão, um deles da famosa Toudai, o professor Watanabe. Como é um trabalho em andamento, fiquei curioso para saber dos próximos passos. Tentarei acompanhar as publicações do pesquisador daqui para frente. Aliás, um outro trabalho, muito interessante, do autor é este, que mostra a diferença de choques monetários e reais na economia japonesa com alguns microfundamentos bem legais.

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Modelo DSGE com armadilha pela liquidez? Not a problem!

Pois é. Pesquisas e pesquisadores, sempre em busca de soluções. Olha o resumo aí.

We propose a simple and tractable method to estimate linear DSGE models with the zero lower bound on nominal interest rates. Our method makes use of forward rate curves in order to take into account the effects of the zero lower bound on equilibrium endogenous variables without relying on nonlinear techniques for solving rational expectation equilibrium. Applying the method to Japanese data, we find that the natural interest rate might not have declined to negative values in the late 90s and 2000s. Counterfactual simulations show that the Bank of Japan’s zero interest rate policy and quantitative easing policy in those periods had expansionary effects by bull flattening the yield curves.

Pois é. Como sempre digo: só a preguiça nos impedirá de continuar dominando o planeta…os macacos ainda terão que esperar uns séculos. ^_^

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Falando em impostos e elasticidade-preço da demanda…

Quem leu a notícia sobre a Ambev e o reajuste que não virá – mesmo com o aumento de carga tributária anunciado – até o final da Copa pode pensar um pouco sobre o tema.

Obviamente, por mais que o pessoal não queira comentar, o aumento tem a ver com as trapalhadas do governo no setor de energia elétrica, dentre outras maluquices que a administração atual importou da era Geisel para os dias de hoje.

Eu pergunto a você: qual é a elasticidade-preço da demanda nestes setores?

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Cultura japonesa em Belo Horizonte, Thomas Hobbes, o professor Jonathan e minha sobrinha sem Lagrange ou Kuhn-Tucker

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“Martela, martela, martela o martelão!”

Ah, a cultura japonesa, sempre presente por aqui. Encontrei o prof. Jonathan por lá ontem. Estava com minha sobrinha, que, a cada pessoa nova que lhe apresentávamos, escondia-se.

“- Tô com vergonha”

Eis a frase-padrão. Acho que ela se divertia e também tinha alguma vergonha. Com todos os amigos do meu irmão era a mesma coisa. Até que encontramos o Jonathan com dois pratos (sim, dois pratos) de tempurá, em pé, ao lado de uma barraca já meio vazia.

“- Tetê, cumprimenta o amigo do tio. É o tio Jonathan”.

Eu já esperava que ela se escondesse atrás de mim com o dengo de sempre. Entretanto, ela estendeu a mão firmemente e cumprimentou o Jonathan. Fiquei estupefato! Mais estupefato do que fiquei ao usar a palavra “estupefato” pela primeira vez em anos.

Pensei cá com meus botões (e com os bolsos da calça, ou o cinto, que Tetê tinha, cuidadosamente, bagunçado):

“- Mas não é o professor Jonathan o terror dos sete mares? A besta-fera de Sabará? O horror encarnado do Cálculo da faculdade”?

Pois é. Ele é tudo isto. Mas a Tetê não sabia de nada disto. E ela o cumprimentou. Eles, que nunca se encontraram antes, cumprimentaram-se de maneira amistosa. Sabe aquela história do Thomas Hobbes e o estado da natureza? Pois é. O cisne negro visitou Hobbes naquele momento. Nada de conflitos, guerras, sangue e cabeças decepadas: somente um aperto de mão.

Eu sei, eu sei, deveria ter tirado uma foto. Mas na hora estava tão…estupefato, que não consegui pensar em mais nada. Foi um momento realmente surpreendente.

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“Desenho da minha sobrinha retratando seu encontro com Jonathan e as sensações contraditórias do momento”. Ou não?
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Abenomics e o ilusório poder do governo de mudar as elasticidades

Vejam como são as coisas, conforme esta ótima (para sala de aula, nem se fala) matéria do Japan Times:

Akihiko Matsui, who works at the Economics Research Center in the University of Tokyo, explained in Asahi how the “addition to price” (kakaku tenka) that reflects the tax hike works. At every stage of distribution, the seller has to collect a tax from the buyer and eventually hand it over to the government. A retailer who pays the levy to the supplier of a given product or service in turn adds that amount to the price of the product when he sells it. But demand for that product may decrease as the tax goes up, thus pushing the price back down. Matsui says that in the real world the retailer and the consumer split the tax since the seller offsets the hike with a slight discount in the price. He cites a survey by a Tokyo merchants association which found that only 60 percent said they would pass on the tax hike in full to consumers. Many also said they would probably make adjustments by increasing frequency of bargain sales or rates of discount for those bargain sales, or by offering bonuses for membership point programs.
Businesses, in order to maintain sales volumes, will likely absorb at least part of the consumption tax hike themselves, meaning consumers may not see as much of a dent in their buying power as they’ve been led to believe by the media, at least in the retail sector. It is a natural market phenomenon.

Nada de novo, certo? Mas espere. Tem mais.

Last October, the government implemented the Act Concerning Special Measures for Pass-on of the Consumption Tax Increase, which endeavors to compel businesses to add the increase directly to prices, with no adjustments. In carrying out this directive, the Fair Trade Commission has hired an army of 600 “G-men,” retired businessmen and bureaucrats who will patrol commercial districts to make sure companies are complying.

É isto mesmo que você leu. Depois a notícia segue dizendo que não há penalidades para quem descumpra a lei (leia-se: para quem faça o que consegue fazer, dadas as elasticidades-preço da demanda e da oferta). Então, além do desperdício de dinheiro público, o que mais poderia ser dito sobre esta estranha lei?

Apparently, it has to do with being responsible. As one of the G-men told Asahi, “It’s important to make consumers understand” that they have to pay their full share. The government’s justification for a consumption tax is that everyone, rich and poor, pays it equally, but that’s a delusion, because capitalism, especially the free-market type ostensibly worshipped by the ruling Liberal Democratic Party, favors those with the most economic power.

Um tanto quanto bizarro, não é? Então eu fui lá ver a legislação. Eis um trecho:

1 Compliance Rules on Specific Enterprises [Specific enterprises shall not conduct the following practices to specific supply enterprises.]

i. Price reduction/slashing
ii. Coerced purchase/coerced use of service, unfairly coerced offering of benefits
iii. Rejection of negotiation based on net-of-tax price
iv. Retaliate practices

Além disso aí, a mesma – ao contrário do Brasil – é sintética e breve. Isto me deixou curioso: como seria o sistema tributário japonês? Aí eu encontrei isto e isto. Nada muito diferente do que eu esperava mesmo: alguns impostos, um certo grau de federalismo fiscal, nada demais. Mas por que é que o governo resolveu lutar contra a realidade? Como visto acima, somente por uma questão de discurso político. Afinal, não há como escapar: as elasticidades-preço da oferta e da demanda é que darão o tom da sinfonia.

Quer escrever “Economist” em letras japonesas? Olha o título da garota aí.