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De sebos, propagandas na era da hiperinflação e da impossibilidade do pão grátis

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Na época em que não havia internet, eu, estudante duro de tudo, tinha que economizar para comprar livros. Quando o livro nem era da faculdade ou da escola, pior ainda. Mas para isto existem os sebos e eles já foram mais bem diversificados do que hoje.

Geralmente os bons sebos têm uma tabela de preços e usam códigos anotados na primeira ou na última página do livro. Este é – ou era – o sistema de precificação deles, provavelmente fruto da era de hiperinflação.

Como eu disse, não havia internet. Nem celular e, muito menos, smartphone. Então, você tinha que fazer sua pesquisa de preços gastando mais calorias do que hoje. Assim, não é difícil perceber o porquê do vendedor me colocar esta frase na capa do “Memórias”, de Raymond Aron, que comprei lá por estes tempos (e, de fato, não terminei de ler, fiquei por volta de 1/3 do livro e me lembro bem de ter prometido terminá-lo no futuro, o que resultou em uma promessa de ler tudo de novo um dia, quando tiver tempo…).

Bom, dizia o vendedor que o preço era menos da metade do valor [do livro] novo. Como a foto denuncia, eu acreditei.

P.S. Não tem pão grátis, meu amigo!

“- É Sartre, o inferno são os outros. Mas o pior inferno são os outros cegos pela ideologia tentando nos impor sua visão de mundo na porrada”.

Só para matar a curiosidade do leitor, um bom trecho do livro está no capítulo XII (acho que usei este capítulo para estudos, na época), quando o falecido sociólogo francês (curiosamente, os nossos “progressistas” e “supostos” professores de História, que adoram sociólogos e, mais ainda, franceses, têm muito cuidado em ocultar este autor de seus alunos…quanto pluralismo!).

Citando:

Lembro-me de um cronista econômico, no Figaro, esclarecido, atento ao dia-a-dia, que comentou seriamente a eventualidade próxima do pão gratuito na União Soviética. Por que não lhe ocorreu – mesmo sem evocar a miséria da agricultura soviética – que o pão, e portanto o trigo, gratuito, seria esbanjado como alimento para os animais e logo se tornaria raro? Não diria que o medo lhes orientava a pena. Diria antes que esses analistas de circunstância queriam inconscientemente testemunhar sua liberdade de espírito, seu sentimento ‘progressista’. Insistiam em reconhecer as virtudes, a eficácia de uma organização social, que recusavam por outro lado, por outras razões. [Aron, R. “Memórias”, cap.XII, p.335-6, Editora Nova Fronteira, 1986]

O capítulo, em questão, conta um pouco a motivação de Aron em escrever seu famoso O ópio dos intelectuais que era nada mais, nada menos, do que o marxismo. Digo, talvez ainda seja.

Chamo a atenção para o aguçado raciocínio de Aron acerca da impossibilidade da gratuitade do pão, óbvia para economistas, eu diria, mas muito bem explicada por ele. Obviamente, a ausência de direitos de propriedade privados sobre recursos como o trigo só levam a um tipo de “pão gratuito”: o pão em quantidade nula. Por que? Porque, como diz ele, com a razão ao seu lado, a tendência é que o recurso seja utilizado lá mesmo onde é produzido, de forma ineficiente.

A última coisa que sairia disto seria uma baguete de pão e, menos ainda, gratuita. Pelo contrário, a tendência é a escassez e, portanto, o preço seria muito maior do que o que se encontraria, por exemplo, numa economia mista…

Aron merece uma releitura de quando em vez.

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