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Salário mínimo maior, mais emprego?

O Estadão traz hoje, na capa de seu caderno de Economia, uma análise sobre o emprego no Brasil. O destaque é a criação de empregos no interior do país.

O interior do Brasil ultrapassou as áreas metropolitanas e criou mais empregos com carteira assinada em 2013. As grandes cidades lideravam a abertura de postos formais no País desde 2005, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego.

Em seguida, busca-se explicar este bom resultado do crescimento dos empregos.

A análise detalhada dos números da série sem ajuste do emprego formais feita pela LCA Consultores mostra que, dos cinco grandes setores empregadores da economia, quatro tiveram melhor desempenho no interior: indústria, construção, comércio e serviços (ver quadro). A exceção foi a agricultura, mas o desempenho ruim pode ser explicado pela baixa participação das grandes cidades nesse setor.

Aparentemente, a análise é relativa. O que parece ter sido feito é uma razão entre alguma medida de criação de empregos no interior relativamente à capital e, aí sim, a última frase poderia fazer algum sentido. .

Mas o ponto intrigante do artigo é o argumento relativo ao salário mínimo. Os jornalistas destacam a explicação dos consultores de que aposentados são uma parcela da população que gera demanda e não aumentam – diretamente – custos das empresas. Digo “diretamente” porque, claro, se o salário mínimo tem aumentos, os custos aumentam, mesmo que os aposentados não estejam trabalhando.

Podemos imaginar uma empresa que, mediante o aumento de custos dado pelo aumento do salário mínimo, deixe de contratar 10 pessoas e mantenha apenas os 10 atuais pois percebe que o aumento de demanda de produtos por parte dos aposentados não é um estímulo suficiente para que a empresa invista na ampliação do quadro de funcionários. Neste exemplo, a criação de emprego foi zero e, alguns dirão, foram destruídos 10 empregos potenciais. Faz sentido, não? Vejamos mais um pouco:

É justamente o impacto do mínimo, aumentando o poder de consumo, que pode explicar o bom desempenho da indústria no interior – o setor criou 61.097 empregos formais em 2013 na série sem ajuste, acima dos 27.079 abertos em 2012. (…)

O interior concentra boa parte da indústria voltada para a produção de bens não duráveis, setor mais resiliente à variação de renda, mas também mais impactado pelo reajuste do mínimo. No ano passado, por exemplo, a indústria de alimentos e bebidas contratou 21.268 empregados no interior e 13.240 em áreas metropolitanas.

Novamente, o argumento é de que o salário mínimo teria gerado mais demanda do que custos no interior, relativamente às áreas metropolitanas. Sou só eu que continuo achando esta história estranha? Antes que você me acuse de ser contra a criação de empregos, adianto que acho ótimo que haja criação de empregos mas não sei se a explicação para tal é o aumento do salário mínimo.

Duas variáveis: salário nominal e salário real

O que importa para o trabalhador? O valor do salário no contrato ou o quanto este salário vale em termos de poder de compra? Sim, é o último que importa. Quem se lembra da hiperinflação (não tenhamos modéstia: este é o nome correto do que tivemos, quer se goste ou não) dos anos 80, sabe que não importa indexar salários se os preços também são indexados.

Mais ainda, salários nunca são indexados na mesma velocidade que os preços e, portanto, sempre há perdas. Por exemplo, não adianta você me dizer que, em seis meses, o salário será indexado à inflação se você passará 5 meses e 29 dias passando fome, né?

Então, temos salários e temos preços. Algo como “w” (salário nominal, em R$) e “p” (índice de inflação, digamos, o IPCA). O salário real é w/p. Agora, na análise da reportagem, não temos qualquer menção a w/p e eu sei o porquê disto e acho que você também sabe: qualquer índice de preços medido no Brasil não tem uma abrangência suficiente, em termos geográficos, para nos permitir medir o custo de vida no interior. Na melhor das hipóteses, o índice capta a região metropolitana de alguns estados. Logo, minha primeira questão é: o salário real no interior é maior ou menor do que o salário real das capitais?

Minha intuição me diz que há uma grande chance de que a resposta seja: o salário real é maior no interior. Poderíamos imaginar que o custo de vida no interior é menor do que nas regiões metropolitanas e que pessoas não se mudam apenas para o entorno das capitais, por exemplo, porque “é mais seguro”. Mudam-se porque “é mais seguro e o custo de vida é mais barato e não sai tão caro ir e vir para a capital trabalhar todos os dias”. Mas há quem não consiga um emprego na capital (ou na área metropolitana). Para este, o negócio é ficar no interior e arrumar um emprego por lá. Neste caso, com mobilidade reduzida, ele é mão-de-obra potencial para sua pequena cidade.

Em poucas palavras, seria uma questão a ser analisada se tivéssemos uma medida do nível de preços no interior para saber como é o custo de vida lá. Claro, a análise envolveria algo mais complicado como a composição da cesta de consumo no interior e na capital (esboço algo bem incompleto no apêndice deste texto).

Assim, por mais que eu queira acreditar neste otimismo de alguns quanto ao impacto de aumentos do salário mínimo, não é esta notícia que me convence. Também, perceba, não é o modelo simples, de equilíbrio parcial, que se ensina no primeiro ano de faculdade, que explica isso. Neste pequeno texto você percebeu que tivemos que pensar em dois mercados (região metropolitana e interior), mobilidade de fatores e, claro, o custo de vida (que também precisa ser analisado em separado). Nem entramos em detalhes quanto à transmissão de choques de demanda e oferta inter-regiões, mas eles estão presentes e podem não ser desprezíveis.

Apêndice – Um pouco de letrinhas: como detectar erros em análises de modelos incompletos

Vou ilustrar aqui o modo como um economista pensa. Na verdade, vou trilhar parte do caminho porque, adiantando a conclusão, faremos um modelo que estará incompleto e que, se você não tomar cuidado, pode acabar sendo usado por aí como se fosse um modelo “simples, mas explicativo” quando, na verdade, ele é “simples, mas incompleto”.

Muito leitor já ouviu este papo de que “economistas complicam as coisas”, mas os mesmos que vendem esta conversa mole não consertam seus carros e nem se auto-medicam: preferem pessoas com vocabulários “complicados” que “complicam as coisas” e…resolvem seus problemas.

Vamos lá. Suponha, para simplificar, que o salário nominal (“W”) seja o mesmo na capital e no interior (cuja denominação será “C” e “I”). Ou seja, não vamos complicar a análise comparando um médico com um pedreiro.

Além disso, digamos que os alimentos sejam produzidos no interior e transportados para a capital com um custo fixo de transporte, “F”. Digamos também que o custo de vida (“P”) é maior na capital do que no interior. Assim, embora seja verdade que Wc/Pc < Wi/Pi, o sujeito mais rico que compra uma casa no interior e trabalha na capital tem Wc/Pi que segue: Wc/Pi > Wi/Pi.

Agora, o custo de vida na capital, é uma combinação do nível de preços de bens e serviços produzidos na capital e os do interior. Suponha uma combinação simples de forma que o custo de vida (“CV”) é:

CVc = (Pc)α(Pi)β

Com α+β = 1.

Isso significa que o nível de preços relevante para o consumidor da capital é CVc e não apenas Pc, certo? Eis seu salário real:

Wc/CVc =Wc/(Pc)α(Pi)β 

Ok, digamos que o bem produzido no interior seja alimento. Este, por sua vez, é produzido com mão-de-obra local (que recebe o salário Wi) e é transportado para a capital com um certo custo fixo de transporte F e não se produz, por hipótese, alimento na capital. Logo, o salário real do sujeito que mora na capital é:

Wc/CVc =Wc/(Pc)α(Wi+F)β 

No interior, temos, sob a hipótese de que não há importação de produtos da capital (apenas para simplificar):

Wi/CVi =Wi/(Pa)

Neste exemplo, estou supondo que não há o caso do sujeito que mora no interior e trabalha na capital (ou vice-versa) porque o objetivo é verificar se existe mesmo esta diferença entre as duas regiões em termos do impacto do salário mínimo. Ademais, nem todo interior é tão perto da capital assim e, portanto, acho que estamos observando a maioria das situações reais.

Agora, um aumento do salário nominal significa aumentar Wi e Wc por um mesmo montante, digamos, “d”. Como fica a vida do sujeito do interior?

Wi ‘/CVi =(Wi+d)/(Pa)

Ok, tá ótimo, né? Bom, depende de se este aumento de salário não vai gerar desemprego para ele. Ah sim, uma queda na demanda de alimentos na capital também pode ser um problema. Voltaremos a isto no final.

E o salário real do sujeito da capital? Ei-lo:

Wc ‘/CVc =(Wc+d)/(Pc)α(Wi+d+F)β 

Na capital, as coisas não são tão simples, não é? Aumenta o salário do sujeito, mas também aumenta o custo de vida dele. Calculando o impacto de “d” (fazendo a derivada parcial, para ser mais exato) sobre Wc/CVc, verifica-se que o mesmo é positivo, o que não é estranho se você pensar na forma como construí o modelo, já que o preço dos produtos na capital não aumentou com o aumento no salário. Desta forma, ele perde uma fração β de “d” do poder aquisitivo, mas ganha “d”.

Final feliz? Cuidado. Estas equações estão nos escondendo algo importante: o nível de emprego de equilíbrio. Afinal de contas, estes níveis de salário real são compatíveis com que níveis de oferta e com que níveis de demanda de trabalho?

Mais ainda: o aumento do custo da mão-de-obra no interior não gerou queda no emprego? E o da capital? Nada? O custo de produção na capital não cresceria com o aumento de salário dos que trabalham na capital? Enfim, qual é a elasticidade-salário da demanda por trabalho (e a da oferta?)?

Sim, há várias formas de se ampliar este modelo, mais ou menos complicad(or)as. Poderíamos dizer que o preço dos produtos da capital variam com a taxa de câmbio (tradables) ou que os mesmos são produzidos em uma terceira região (ou na própria capital). Por exemplo, é provável que, o ganho do salário mínimo fosse menor em uma economia mais fechada ao resto do mundo (como é o caso do Brasil). Mas vamos parar por aqui.

Perceba que é provável que alguns queiram ver aumentos de salário mínimo sendo “bons” baseados apenas em um modelo como este, incompleto, no qual, veja só, a inflação na capital sequer se mexe quando há um aumento no salário mínimo…na capital!

Então, sim, aumentos de salários mínimos são um sonho mas, não, não dá para ser tão otimista assim e, claro, sem um modelo mais detalhado, o raciocínio é manco. Sugestões? Bem, os comentários estão aí!

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