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Pão com linguiça no Nepom

Não é bem o que você pensou, eu acho. Mas veja aqui. ^_^

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Japoneses intertemporais e a Abenomics

Para mim, a resposta é simples: sim. Embora isto seja correto, o governo japonês – que já anunciou o aumento faz algum tempo – implementará este aumento de uma forma que nem todo consumidor entendeu corretamente, na opinião dos autores deste blog. Vejamos (grifos meus):

At Isetan, these notices are posted prominently in the furniture and bedding sections, as well as the eyeglass section, meaning departments where people order merchandise and then take delivery later. As one Isetan employee explained to the paper, the consumption tax is applied on the day of receipt of merchandise, not on the day it was ordered or even on the day it was paid for. A good portion of department store sales are order-made products, and the notices are cautioning customers to make sure they understand the date their stuff will be ready to pick up, otherwise they may end up paying more than they thought they would.

Então a história é assim: você pode encomendar um produto hoje e recebê-lo amanhã. Mas se o cartão de crédito só fizer o débito na sua conta dois dias depois do dia do novo imposto, você paga o imposto. Simples assim.

Obviamente, não se pode ignorar a oferta e a demanda:

However, a related article in the weekly Aera says that consumers shouldn’t worry that much, since there’s a good chance people will buy something now to avoid the tax hike only to end up paying more. Some retailers are not as straightforward as the above-mentioned department stores, using the rush as a means of getting customers to sign up for credit cards in order to compound their savings without realizing that in the end they’ll probably have to pay handling fees that will negate such savings, unless they happen to be frequent patrons of the store, in which case they probably already have a card. The magazine interviewed a few housewives who plan to make big purchases ahead of the tax hike.

Não é só uma questão de evitar o imposto, mas sim uma questão de se maximizar o seu excedente do consumidor, aproveitando sua liquidação (como sabemos, o excedente do consumidor é uma medida imperfeita, mas razoavelmente aceita, da satisfação do consumidor).

Posso estar enganado, mas acho que os blogueiros parecem comprar muito rapidamente esta história de que consumidores seriam bobos ou que os mesmos não seriam, digamos, tão racionais assim. Mas, calma lá. Temos que pensar no que o consumidor faz quando vai às compras. Informar-se sobre o imposto é fácil pois, como os próprios blogueiros relatam, as lojas buscam levar esta informação aos consumidores.

Em segundo lugar, não podemos nos esquecer daquela pergunta antiga, do George J. Stigler, sobre a demanda do consumidor. Mais ou menos assim é o problema: suponha que você quer comprar uma geladeira e quer comprá-la ao menor preço possível. Caso você a compre por um preço diferente do menor preço encontrado no mercado, então poderíamos dizer que você seja irracional? Não.

Obviamente, o consumidor tem que alocar seu tempo para diversas atividades em um dia (lembre-se do modelo de Household Production do Becker, por exemplo) e, portanto, só buscará o preço mais baixo até o ponto em que o benefício marginal de seu tempo se igualar ao seu custo marginal, o que não significa, portanto, que ele necessariamente encontrará o menor preço da cidade, mas o que lhe otimiza o uso do tempo. Simples assim.

Mesmo que alguns consumidores errem aqui ou ali, no sentido de se afastarem deste nosso modelo do consumidor racional, ainda assim o fato é que eles se anteciparam ao anúncio da política como a própria matéria no blog afirma. Interessante, não?

O governo japonês, como se sabe, está preocupado com sua dívida interna, realmente muito grande. A sustentabilidade dela não pode se perder e, afirmam, isto é um bom motivo para aumentarem o imposto sobre o consumo.

Um pouco de Microeconomia…

A antecipação dos consumidores pode ser pensada, em parte, como uma tentativa de suavizar o consumo. Afinal, parte do aumento do consumo busca manter o padrão de vida da família (já que estão pensando em queda de renda no futuro). Pensando em um modelo de dois períodos (sem inflação ou incerteza), o que ocorre é que o valor presente do consumo deve ser igual ao valor presente da renda total do indivíduo (ou família).

C1 + C2/(1+r) = (Q1 – T1) + (Q2 – T2)/(1 + r)

O governo anuncia que T2′ = T2 + d (d > 0). Poderíamos falar da expectativa de imposto futuro, Te2, mas como o anúncio do governo é crível (no caso do Japão, acho que ninguém reclamaria desta hipótese…), então o fato é que T2′ = Te2. Assim, o consumidor sabe que, agora, o valor presente de sua renda caiu.

Em dois períodos, a análise é simples porque o consumidor fará o seguinte: ele deixará de consumir um pouco hoje e poupará para manter seu padrão de vida amanhã, com o imposto mais alto.

Mas o problema pode ter mais de dois períodos e, neste caso, o que parece um aumento “temporário” (apenas em um período) é muito mais parecido com um aumento permanente (por vários períodos) no futuro. Neste caso, movimentos de poupança podem até existir, no curto prazo, mas não no longo. O que pode acontecer é um ajuste do consumidor à nova situação.

Entretanto…

Repare em um detalhe: na política do primeiro-ministro Abe, várias medidas são feitas para se estimular a inflação. Deseja-se chegar à meta de uma inflação de 2% ao ano. Então, outra expectativa que o consumidor japonês tem na cabeça é que os preços dos produtos vão subir. Isto significa que a taxa de juros relevante para ele é a taxa real, não a nominal. Com esta expectativa em mente, ele deve refazer suas decisões de consumo não apenas com o novo imposto, mas com a perspectiva de que os produtos ficarão mais caros.

Uma variável mais incerta é a renda do trabalho. Embora o primeiro-ministro esteja buscando acordos com sindicatos, é mais incerto que a renda do trabalho vá subir. Digamos que o consumidor espere um aumento de sua renda no futuro. Então, precisamos rever os parâmetros de nossa restrição. Em dois períodos:

C1 + C2/(1+r’) = (Q1 – T1) + (Q’2 – T’2)/(1 + r’)

Com r’ < r, T’2 > T, Q’2 > Q2.

Honestamente? Eu aposto que a renda disponivel ficará mais ou menos igual e que o aumento da inflação será sentido mais fortemente (estou sendo conservador: eu realmente acho (sou esquizofrênico, lembra?) que a renda disponível diminuirá um pouco, como falei no início desta análise…). Desta forma, para mim, o movimento mais forte, no momento, deve ser o da queda da taxa de juros real, que estimula o consumo presente.

Claro, eu ignorei aqui a taxa de desconto intertemporal, mas você pode fazer seus comentários aí embaixo, ok?

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A sazonalidade como choque de produtividade

É, eu sei. Você já ouviu aquele papo econométrico sobre ciclos reais e raízes unitárias. Não é uma conversa fácil, pois técnica. Mas vamos ilustrar o choque de produtividade usando a história. Em particular, alguns trechos do The Rational Optimist (P.S.) do Matt Ridley.

Primeiro, o bom e velho camelo.

Thanks to a newly perfected technology, the camel, the people of the Arabian Peninsula found themselves well placed to profit from trade between East and West. The camel caravans of Arabia were the source of the wealth that carried Muhammad and his followers to power. The camel had been domesticated several thousand years earlier, but it was in the early centuries AD that it was at last made into a reliable beast of burden. It could carry far more than a donkey could, go to places a wheeled bullock cart could not, and because it could find its own forage en route, its fuel costs were essentially zero – like a sailing ship.

Sensacional, não? O camelo foi um fator de produção importante em uma época em que conflito e comércio eram muito frequentes na história. Camelo também é choque real, cara!
Quanto à sazonalidade, muitos livros de Estatística dão uma definição (ou várias) bem técnicas e alguns de nós, professores, falamos de exemplos relacionados a preços da arroba do boi gordo ou épocas de colheita. Mas o que dizer da sazonalidade como um choque de produtividade? Aí vai o outro trecho:
Thanks to the discovery of the monsoon, which reliably blew ships eastward in summer and back westward in winter, the journey across the Arabian Sea was cut from years to months.
Pois é, gente. Eu não acredito que eram os deuses astronautas. Pode até ser que alguém, um dia, consiga encontrar evidências disto, mas eu aposto que não. A genialidade humana não deve ser menosprezada (lembra do meu papo, há uns dias atrás, sobre Julian Simon?).
Estamos muito (mal) acostumados a pensar na sazonalidade como um fator aditivo que, em um estudo de ciclos econômicos, deve ser modelada (ou extirpada, em exercícios simples) para que possamos detectar o “sinal” e não o ruído (um problema que Lucas, inteligentemente, importou para a Ciência Econômica).
Mas veja o exemplo acima. Como é que alguém teve a idéia de usar a sazonalidade das monções? Provavelmente, claro, alguém queria maximizar seus ganhos e descobriu esta simples característica da natureza com potencial para economizar custos. Aliás, esta questão da navegação na história é um tópico que não é estranho aos da área de História Econômica, basta ver o antigo artigo do Douglass North sobre o tema.
Então, veja, existem sazonalidades que nos chegam por conta da natureza. Nem todas são usadas a nosso favor. Algumas economias lutam para controlarem os ciclos naturais de alguns produtos. Outras sociedades já aproveitaram a sazonalidade a seu favor, como no exemplo acima.
O pesquisador, entretanto, geralmente segue o seguinte lema: “vamos filtrar as séries e/ou modelar a sazonalidade. O que sobrar é nosso produto cujos ciclos reais vou estudar”.
Agora, na perspectiva deste meu exemplo, a sazonalidade em si merece um estudo do tipo “sinal-ruído” porque parte dela pode ser devido aos choques de produtividade como no caso do transporte marítimo dos árabes em nosso passado distante. Não creio que estou falando nenhuma novidade e sabemos que há quem goste de falar de raízes unitárias sazonais. Provavelmente alguém já disse algo parecido (gentileza me enviar referências nos comentários). Mas, não sei. Usando camelos como exemplo, isto nunca me ocorreu.