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Recessão? O IBC-Br

PaperArtist_2014-02-15_09-43-20O que vem a ser o IBC-Br? Diz o Estadão:

Chamado de ‘PIB do BC’ e considerado um termômetro para o resultado do Produto Interno Bruto (PIB), o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), divulgado nesta sexta-feira, 14, aponta para um crescimento de 2,52% da economia brasileira em 2013.

Ele é chamado de ‘PIB do BC’ porque, supostamente, tem uma forte aderência com o PIB. Isto é verdade? O Vitor Wilher mostrou que evidências de que, sim, é (neste post).

Para saber o que é o IBC-Br, bem, a gente vai até a fonte. Eis a definição:

Índice de Atividade Econômica do Banco Central – Brasil. Desde 2010, retroagindo a janeiro de 2003, o BC divulga o IBC-Br. Esse índice, de periodicidade mensal, é uma medida antecedente da evolução da atividade econômica. Incorpora estimativas para a agropecuária, a indústria e o setor de serviços, assim como os impostos sobre os produtos. É, portanto, um indicador que incorpora a trajetória de variáveis consideradas como proxies (medidas aproximadas de outras) para o desempenho dos três principais setores da economia.

Ninguém sabe exatamente porque o índice parou em 2003, se por motivos políticos ou técnicos (metodologia de cálculo aqui, ainda que pouco detalhada). Vamos dar uma olhada na série sem aplicação de métodos de dessazonalização (para facilitar a visualização, dividi em dois períodos a amostra, só para os movimentos da série ficarem mais óbvios).

IBC_Br1

O leitor pode observar que o índice tem uma suave tendência de crescimento desde o início da série, além de movimentos sazonais bem marcados. As causas destes movimentos sazonais, claro, devem ser buscadas nas séries que compõem o indicador (olhe lá na metodologia).

Uma série sazonal?

Para aqueles mais aficcionados da Econometria, eis como fica a série quando lhe aplicamos um filtro de decomposição para separar, especificamente o efeito sazonal.

exemplo_sazonal

Você percebe que a série dessazonalizada é mais “suave” do que a série original (em azul), não? Obviamente, eu não apliquei o mesmo método de dessazonalização do pessoal do Banco Central (um X-12, se entendi corretamente a nota de rodapé do texto explicativo), mas dá para se ter uma idéia de para onde vai a série, não?

Mesmo usando um método de dessazonalização diferente, podemos ver que o mesmo faz efeito. Por exemplo, considere o gráfico das médias mensais que já usamos em outros posts.

ibc_br_sazonal

No primeiro gráfico temos a série original e, no segundo, a série dessazonalizada. Percebe-se que o efeito sazonal na média diminuiu consideravelmente. Isso mostra porque analistas gostam de divulgar séries dessazonalizadas: eles têm um problema a menos para explicar que são os ciclos sazonais.

Alguns pontos para se lembrar (se você gosta de detalhes)

Pois é. Agora, vamos nos ater a uma questão que o Vitor citou no seu post (citado acima). Ele se perguntou o que acontecia com a relação entre o IBC-Br e o PIB. Bem, ele tem, na verdade, dois problemas. O primeiro pertence à literatura dos chamados indicadores antecedentes. Ele quer saber, por exemplo, se uma série antecipa os movimentos da outra. Esta é uma questão.

Mas ele tem um segundo problema: como comparar dados em frequências distintas? Afinal, o PIB é trimestral e o IBC-Br é mensal, certo? Neste caso, você não pode comparar as séries. Claro que alguém pode querer fazer como aprendeu lá no 1o ano da faculdade e calcular uma média móvel. Não está errado, mas não é a única forma. Por exemplo, neste texto, você encontra dicas de como fazer para converter dados trimestrais em mensais (algo mais aqui e aqui). Ah sim, e é bom lembrar que é melhor não criar pseudo-ciclos com a conversão (não me lembro onde li isto, mas algo me diz que não estou errado). De qualquer forma, esta história de mudar a frequência de uma série pode ser tão complicada quanto se queira.

Aos que gostam de análise de regressão, eu já não recomendo que se faça uma regressão destes dados com a PIM-PF, por exemplo. Afinal, o IBC-BR já é construído a partir da PIM-PF e, portanto, a regressão não vai dizer muita coisa. Muito mais razoável é pensar em ambas como proxies uma da outra. Na verdade, o pessoal, em geral, usa o IBC-BR como proxy do PIB como explicado pelo Vitor e pelo pessoal do Banco Central.

Recessão? 

Não sei se vamos para uma recessão e nem vou fazer um ajuste de um modelo ARIMA aqui. Mas sei que, quando eu disse ao pessoal do Nepom que eu queria de algum deles um comentário sobre o IBC-Br, eu tinha em mente algo similar ao que fiz neste breve texto.

Para se analisar a questão da recessão, creio, o melhor é conjugar a análise destes dados com outras séries importantes. Acho que o pessoal do Nepom vai mostrar um pouco deste tipo de trabalho na próxima apresentação (sim, é aberta ao público), dia 25 de Fevereiro, lá na faculdade. Geralmente começa às 16:00 horas.

5 comentários em “Recessão? O IBC-Br

  1. Sobre criação de pseudo-ciclos, um professor de econometria mostrou em aula que, se vc pegar uma série ruído branco e aplicar o mesmo método que Kondratieff usou para suavizar os dados em seu trabalho (média móvel centrada de nove anos, se não falha a memória), a decomposição espectral da série resultante mostra ciclos na mesma frequência identificada por Kondratieff. Ou seja, a transformação aplicada sobre os dados pode ter amplificado o resultado obtido pelo russo.

    1. Eu sabia que havia algo assim!! 🙂 Valeu!! (é, Kondratieff, sem querer, fabricou os ciclos…que um bocado de historiador ainda usa porque não lê sobre ciclos…).

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