Uncategorized

A regra do X-2

O Leo Monasterio tem um ótimo livro sobre como sobreviver à vida acadêmica. Para quem não sabe, ele foi um dos co-autores deste blog desde o início. Depois, achou que eu havia enlouquecido, e foi embora.

Bom, eu também tenho minhas idéias sobre como sobreviver no mundo acadêmico e meu video acadêmico mais famoso é sobre isto. Mas hoje eu tive uma outra idéia e criei a regra do X-2. Na verdade, deve existir alguma regra parecida por aí e nem isto é lá uma invenção. É mais uma regra de bolso para quem tem dificuldades em escrever trabalhos científicos.

Imagine que o sujeito tenha que escrever uma monografia sobre a demanda de alimentos no Brasil. Ele fez lá aquela introdução (que sempre ficará ruim) e não consegue organizar o texto. Uma decisão deve ser tomada: como estruturar a literatura lida? Digamos que ele resolva estruturar por tipos de alimentos. Então, como seria aplicada a minha regra? Vamos enunciá-la:

Em um item (ou sub-item), guarde dois parágrafos para a introdução e para a conclusão do item. Entre eles, o recheio deve ser igual ao número de tópicos relevantes resenhados.

Então, digamos que o item é este: demanda de farinha de trigo. Para este item, por exemplo, o estudante encontrou artigos que falam que a demanda é inelástica com relação ao preço nos EUA, elástica com relação ao preço no Brasil, usando métodos econométricos distintos.

A primeira coisa é escolher o corte: região, resultados ou método econométrico? Tente se organizar assim. Supondo que você escolheu resultados (a elasticidade-preço), então, você terá dois parágrafos, um para falar sobre os estudos com a demanda elástica (em ambos os países, com métodos distintos) e outro para a demanda inelástica (em ambos os países, com métodos distintos).

Repare que você poderia fazer o corte por países ou métodos e aí, de novo, dois parágrafos, etc. Claro, não precisam ser dois parágrafos. Poderiam ser três. Depende um pouco do modo como você pensa que o texto ficará mais corretamente organizado.

Bem, caso esta regra já exista, peço desculpas. Mas, caso contrário (ou não), use-a para escrever seus artigos científicos, monografias ou textos. Fica de presente para o Leonardo Monasterio. Quem sabe ele já não a usa (ou tem alguma similar)?

Uncategorized

Confiança na economia é maior do que brigas com a China?

boj_abenomics

 

A figura acima é do último (publicado hoje) relatório do Banco Central japonês. Antes que você comece a rir de nervoso (ou de mim), algumas dicas:

消費者コンフィデンス = Confiança dos Consumidores (Shouhisha Confidence)
原系列 = Série original (Hara Keiretsu)
季調済 = Série ajustada (Kityousumi)
改善 = Melhora (Kaizen)
悪化 = Piora (Akka)
消費者態度指数 = Índice de Confiança do Consumidor (Shouhishatadoushisuu)
生活不安度指数 = Índice de “Sentimento da Vida (cotidiana)” (Seikatsufuandoushisuu)
右目盛、逆目盛 = Escala à direita, escala invertida (Migimemori, Gyakumemori)

Quem sabe japonês pode treinar um pouco (para mim foi um ótimo exercício, já que continuo sabendo menos japonês do que deveria). Entretanto, nosso negócio aqui é ver o clima de confiança dos consumidores. O Primeiro-Ministro Abe assumiu em 26/12/2012 e o otimismo da sociedade com suas promessas de retomada do crescimento econômico é notável na série (veja o final de 2012, como as séries, com ou sem ajuste sazonal, tornam-se mais inclinadas).

Obviamente, mais do que palavras, é necessário que se faça algo de concreto. A tal Abenomics é algo que tem despertado minha curiosidade desde o início e o relatório do BoJ é um prato cheio para quem quer aprender japonês e/ou analisar alguns dados. O interessante, pelo que posso ver dos dois gráficos, é que o otimismo parece não ter se mantido por muito tempo.

Será que veremos um crescimento econômico concreto em 2014? Os “relatórios Sakura” – relatórios do BoJ que mostram a atividade econômica regional no Japão parecem mostrar que há motivos para otimismo. Vejamos o que vem por aí.

Eu sei, este post ficou meio ralinho. Mas eu queria mesmo era praticar meu japonês. ^_^

Uncategorized

Gol, Azul, Avianca e a liberdade tarifária

tarifasMercados são criaturas interessantes. Deixe-os livres e eles gerarão resultados inesperados. Regule-os e, bem, eles gerarão resultados inesperados, mostrando que a regulação é muito menos fácil do que se pensa (e, para enfurecerer os reguladores, talvez eles ganhem um salário muito bom para as soluções falhas que propugnam).

Antes que você fique nervoso, pense no exemplo das companhias aéreas no Brasil. O órgão regulador parece não curtir muito a competição e não tem mostrado muita fé no aumento da competição. Assim, o que informalmente se conhece como “oligopólio” está aí. Lembro-me de uma notícia na qual o regulador reclamava de uma das companhias ter baixado o preço, o que me lembrou rapidamente da hipótese da captura de Stigler.

Mas vamos lá. Nosso mercado oligopolista tem novidades: uma das companhias afirma que tem fé no livre mercado e que seus concorrentes que se danem. A “fé” é, no caso, a afirmação de que a empresa curte “liberdade tarifária”. A concorrência preferiu anunciar um teto para o valor das tarifas (eu vou chamar isto de preço porque, sinceramente…). Então é assim:

1. A companhia X quer liberdade de preços

2. A concorrência diz que há um teto para seus preços.

Isto é bom ou ruim? Bom, não é nem bom, nem ruim. Na verdade, o negócio todo é usar a boa e velha amiga do estudante, a oferta e a demanda. Sabemos que, durante a Copa, a demanda deve aumentar. Dizem por aí que o número de vôos deve aumentar também pelo lado da oferta. Bom, acredito que sim, embora não seja por maior número de empresas. Então tá. Eu duvido que a oferta vá aumentar mais do que a demanda e também duvido que as curvas de demanda e oferta neste mercado tenham sensibilidade-preço incomuns. Então, o diagrama padrão se aplica e, sim, um aumento da demanda gerará um aumento no preço da passagem.

Sim, se eu fosse dono da companhia citada, eu também seria a favor da liberdade tarifária. Agora, por que a concorrência não adota a mesma prática e esquece esta história de “teto” para o preço das passagens? Acredito que a resposta esteja relacionada às elasticidades-preço e market share que cada empresa estima para si e, claro, estas estimativas não são independentes das ações da companhia “pró-liberdade tarifária”.

Ah, claro, não confunda as coisas. A companhia citada fala em “liberdade tarifária” e você não deve achar que o empresário adore um livre mercado. Ele seria um amante do livre mercado se falasse em “liberdade tarifária” também quando de uma queda na demanda.

 

Uncategorized

Programa de índio

Uma nova conotação para o termo programa de índio. Sabe do que sinto falta? De cientistas sociais, que tanto falam em investigar interesses políticos, etc, pararem com estes partidarismos ideológicos e, finalmente, estudarem um dos mais ignorados grupos de interesse em sua área: os índios.

Ora, todos concordamos que “bom selvagem” é a senhora sua mãe e que devemos estudar os interesses dos índios, né? Eu não acredito que índio seja estúpido ou incapaz. Pelo contrário, acho-os muito espertos e inteligentes. Tanto quanto o restante da população.

Então, vamos lá, cientistas sociais, parem de ignorar o tema: Escolha Pública neles!

Uncategorized

Nacional-desenvolvimentismo (inflacionismo) latino-americano e a armadilha das idéias estúpidas

Eis duas notícias para vocês dormirem à noite com a consciência tranquila. Primeiro, o governo nacional-desenvolvimentista – o mesmo que está enfiando “marxismo” goela abaixo das faculdades de economia argentina (e já falam em fazer algo assim aqui, de maneira muito dissimulada…) resolveu que a internet deve ser controlada. Para quem adora falar mal da NSA norte-americana e apelar para um nacionalismo primitivo, este é um chute no meio das pernas (eu ia dizer isto de uma forma mais “rolezinho”, mas resolvi ser educado).

Bom, mas antes que você diga que isto é o mínimo que se pode fazer para barrar esta “inimiga dos pobres, a globalização excludente que destrói o meio ambiente e aumenta a temperatura da Terra”, adiciono a segunda notícia, a de que governo venezuelano,  mais saudosista que Itamar Franco do Fusca ineficiente dos anos 50, apelou para taxas múltiplas de câmbio.

O que estas duas notícias nos mostram? Acho que o prof. Caplan, há alguns anos, deixou isto claro para nós por meio da armadilha das idéias. Já a citei aqui antes, mas repito:

Thus, the least pleasant places in the world to live normally have three features in common: First, low economic growth; second, policies that discourage growth; and third, resistance to the idea that other policies would be better. I have a theory to explain this curious combination.3Imagine that the three variables I just named—growth, policy, and ideas—capture the essence of a country’s economic/political situation. Then suppose that three “laws of motion” govern this system. The first two are almost true by definition:

  1. 1. Good ideas cause good policies.
  2. 2. Good policies cause good growth.

The third law is much less intuitive:

  1. 3. Good growth causes good ideas.

The third law only dawned on me when I was studying the public’s beliefs about economics,4 and noticed that income growth seems to increase economic literacy, even though income level does not. (…)

(…) The bad news is that you can also get mired in the opposite outcome. A society can get stuck in an “idea trap,” where bad ideas lead to bad policy, bad policy leads to bad growth, and bad growth cements bad ideas.

Pior de tudo é que você pode se perguntar: está tudo perdido? O que pode mudar isto?

If both good and bad combinations of growth, policy, and ideas are stable, why does anything ever change? The answer, in my model, is luck. An economy in the idea trap usually stays in the idea trap. But once in a while, it wins a little lottery. Maybe the president of the country happens to read Bastiat during his last term, and decides to try a more free-market approach. This increases growth, which in turn improves the climate of public opinion. And maybe—just maybe—public opinion changes enough to elect another president who embraces his predecessor’s reforms.

Você não precisa acreditar neste texto. De qualquer forma, a formalização do modelo do Caplan está aqui. Aparentemente, a sociedade argentina e a venezuelana caíram na armadilha e, por anos, permitiram que seus governantes fizessem besteiras atrás de besteiras. Aliás, alguém já disse que cada povo tem o governo que merece. Quanto a isto, é bom lembrar o saudoso Barão de Itararé que disse: Cada povo tem o governo que merece, mas não é menos verdade que muitos povos não merecem o governo que têm. De certa forma, o dito do irônico barão é compatível com a proposição de Caplan.

O que notar?

Eu chamaria a atenção para o problema das instituições formais e informais para o desenvolvimento econômico. O único jeito de sair desta armadilha é ensinar para as pessoas acerca da importância das instituições – já cientificamente debatida há anos – para que uma sociedade saia do buraco. Este tema é recorrente neste blog e não preciso cansar os leitores com isto novamente.

Outra coisa a se notar é aquela minha hipótese da tecnologia da política econômica. Em resumo, sim, eu acredito que aprendemos a fazer política econômica e sabemos como lidar com a inflação. Também não ignoramos o ciclo político-econômico. Contudo, este conhecimento e os incentivos para que façamos a coisa certa não são fluidamente transmissíveis de geração em geração. Então, sim, quem fez o Plano Real acontecer tem um mérito imenso. Da mesma forma, não há motivos para se esperar que burocratas e políticos posteriores ao plano tenham a mesma capacidade intelectual e/ou os mesmos incentivos para manter a estabilidade de preços e lutar por um crescimento econômico saudável, no qual o governo não se comporta de maneira prejudicial.

Acho que foi Buchanan quem cunhou o termo Economia Política Constitucional. Nunca foi tão atual…

Uncategorized

Colocar a discussão da inadimplência na geladeira não vai simplificá-la

Aquele senhor metia as contas na geladeira para congelar os preços (Barão de Itararé em: Máximas e Mínimas do Barão de Itararé, Ed. Record, 4a ed, 1985, p.148)

Alguém achou que bastaria mandar um email para um jornalista (que, acertadamente, alertou para a bolha Eike Batista antes do estouro da mesma) que tudo estaria resolvido? Não. Como disse o bom Barão aí em cima, não basta uma geladeira para congelar os preços. Da mesma forma, não basta enviar os dados. É preciso entender o que eles dizem e, pior, verificar se eles nos dizem algo sobre tendências de curto ou longo prazo.

Pois é. Nesta discussão sobre inadimplência, que virou a fofoca da semana, eu recomendaria, para começar, uma bela apreciada nos dados. O Nepom, por exemplo, na última reunião de 2013, mostrou um gráfico (aqui) em que não se vê, claramente, o que acontece com a mesma. Isto porque os dados são de alta frequência (mensais) e, na apresentação, para poupar o leitor de algo muito confuso, o gráfico ficou restrito a uns trinta e poucos meses.

Assim, fui lá no Ipeadata para ver o que encontraria com um período de tempo mais longo.
inadimp

A conclusão é uma lição de análise gráfica. Primeiramente, se a inadimplência aumentou ou diminiu é uma questão de janela temporal. Qualquer dono de varejo ou jornalista que delimitar sua amostra para o pós-2008 verá um aumento na inadimplência de pessoa jurídica (PJ) seguido de uma certa estabilização (um crescimento bem mais lento) da mesma. No caso da inadimplência para pessoa física (PF), no mesmo período, temos uma oscilação (queda seguida de aumento). Conclusão? Na pior das hipóteses, aumentou, mas aumentou menos.

A história fica mais complicada se alguém olha a série em um período mais longo. A história, para alguém mais chegado na turminha do governo, fica legal para o caso da PJ (estamos com a inadimplência menor hoje do que em 2000), mas nem tanto para o caso da PF. Claro,qualquer um percebe que o gráfico já não é suficiente para nos colocar “contra” ou “a favor” da empresária amiga do ex-presidente. Afinal, tomando uma métrica comum, o percentual do PIB, seria bom saber quanto do PIB é representado pela inadimplência da PF ou da PJ. Não tenho os dados aqui, mas é um ponto. Além disso, há a questão da solvência no longo prazo. Em outras palavras, seria interessante observar a probabilidade de contas não inadimplentes transformarem-se (em inadimplentes). Um exercício simples de Cadeias de Markov. Também não tenho estes dados.

Bom, o gráfico acima, em si, não nos diz muito. Alguém poderia, com um pouco de boa vontade, brincar com a Econometria e tentar algumas previsões com modelos parcimoniosos (algum AR ou ADL). Não farei isto agora porque o custo de oportunidade do tempo já está martelando minha cabeça com o lembrete de que tenho que preparar alguns materiais novos para o semestre que começará muito em breve. Então, leitor(es/as), fica para você(s) a sugestão.

Uncategorized

Elogio ao Bernanke

Michael Munger tem uma excelente peça hoje, no blog. Trechos:

I know that it is hard to think of Bernanke as even mediocre, let alone exceptional, because of the massive strident criticism he’s faced from an array of monetary cranks all convinced that they have the magic bullet to achieve prosperity and only Bernanke’s stupidity or cowardice kept him from firing it.

If only he’d target nominal GDP! If only he’d raise the inflation target to 4%, If only he’d promise to keep inflation above its 2% target for years after the economy has fully recovered.

It is true ladies and gentlemen that if the Bernank had wheels, he’d be a bicycle. But he’s not a bike, he’s an economist and the Fed is not so powerful as to be able to fix our economy with a new nominal target or a new promise.

(…)
The Fed can avoid screw ups. It can prevent rampant inflation and it can stand as a supplier of liquidity and a lender of last resort in a crisis. But the notion that monetary policy can hit any desired output target in normal times or abnormal times is a foolish and dangerous notion, sadly often promulgated by macroeconomists in the Fed’s employ.

Perfeito. Esta história de criticar Bernanke porque ele não fez o que você queria (e sem a menor decência de apresentar um contrafactual razoável) é fácil. Além disso, ok, se Bernanke tivesse rodas, seria uma bicicleta e, bem, Munger nos lembra das palavras de Milton Friedman sobre a política monetária: ninguém é capaz de determinar claramente todas as relações entre todas as variáveis e, portanto, não é à toa que fazemos (ou devemos fazer) política monetária de maneira cautelosa, conservadora, cuidadosa. O poder de influenciar a economia de um Banco Central não é, obviamente, desprezível, mas devemos nos lembrar do mesmo muito mais como um poder sobre o qual pouco se conhece do que um poder devidamente “domesticado”.

Munger acertou no ponto. Agora, uma coisa é ser humilde, outra é ser passivo. Eu diria que a grande diferença entre a política monetária passiva e a ativa é que a última só funciona com a dose certa de humildade. Sim, você pode lembrar do significado tradicional de política monetária passiva e associá-la com a arrogância de uma autoridade fiscal que, leia os jornais para se inteirar do contexto brasileiro, atira para todos os lados, inclusive no próprio pé.

É engraçado. Entra ano, sai ano e o número de pessoas que fala mal de Milton Friedman sem ter lido A Monetary History of the United States, 1865-1960, só parece aumentar. Uma pena. De qualquer forma, parabéns ao Bernanke por ter administrado a maior economia do mundo em uma de suas piores épocas. Este povo que fala que “bastaria extinguir o FED” ou “socializar os meios de produção encontram-se no mesmo nível quando se trata da qualidade do argumento no que nos interessa: solução de problemas do mundo real. Qual é o nível? Adivinhem.

Uncategorized

A economia do papel higiênico

Um dos meus sonhos sempre foi escrever um texto com este nome. Bem, alguém lá no The Washington Post conseguiu fazer quase isto antes de mim. Olha aí o gráfico do artigo.

O papel higiênico como proxy da demografia pode não ser uma idéia lá tão original, eu sei, mas, convenhamos, é muito bacana. Países com mais incontinence devem ser também países com alguma prevalência de despoupança sobre poupança? Foi mal aí, pessoal. Estou aqui com quatro livros de Macroeconomia do meu lado, lendo sobre consumo em todos eles e não resisti a fazer a observação. Enquanto penso no assunto, deixo uma imagem para reflexão que certamente será erroneamente interpretada por alguns alunos com problemas intestinais… ^_^

20140120_210429

Uncategorized

De novo o restaurante

Olha que legal, leitor(a) (ou leitores(as)). Falei outro dia sobre um artigo que falava de gorjetas e descobri, hoje, na blogosfera (via Twitter e blogosfera mesmo), dois artigos não-científicos interessantes sobre o tema. Um deles, sobre os EUA, discute o porquê de não ser interessante fazer reservas para clientes. O outro, muito bom, mostra a quantidade de problemas institucionais que um empreendedor enfrenta para abrir um restaurante. Bem, não apenas institucionais, mas também de capital humano, etc.

Esta questão das reservas lembrou-me do saudoso e-book do sushi (taí, nos links laterais) que citei no final do ano – e mereceu um comentário muito bacana de um leitor do blog. É o tipo de questão interessante para se pensar quando você aprende Microeconomia.

Abrir restaurantes, dar gorjetas, cobrar pelas reservas…alguém poderia fazer uma lista de exercícios só com este tema. Começa com os consumidores (pensando em Becker!) e passando pelos problemas de agente-principal (há um ótimo no livro do Oz Shy de Organização Industrial) e todos aqueles ótimos e interessantes tópicos de Organização Industrial. O meu amigo Hamdan é que é bom para arrumar exemplos nesta área. Sim, sim, você terá que estudar um pouco de Teoria dos Jogos também.

Uncategorized

Na era da globalização (e graças a ela), o folclore nacional é que dá lucro – o caso da Galinha Pintadinha

Notável matéria no Estadão de hoje sobre o maior sucesso nacional, creio, desde Mônica e Cebolinha. Sim, estou falando da Galinha Pintadinha. Alguns ótimos pontos da matéria:

1. As produções “piratas” (ou caseiras) são não apenas bem-vindas, como ainda dão lucro para a dupla de criadores. Lição para muita gente que acha que “direito autoral” é igual a “cláusula (supostamente) pétrea”.

2. Os empreendedores souberam aproveitar o que eu chamaria de legado de Câmara Cascudo (nosso grande folclorista). O autor da matéria insinua – e eu concordo – que a fonte do sucesso (senão a principal fonte) são as músicas folclóricas nacionais, reinterpretadas pela turma da Galinha Pintadinha.

Este segundo ponto é importante porque há um discurso – idiota, mas sempre repetido, apesar das evidências empíricas em contrário – de que “a globalização malvada e feia destruiu a cultura nacional”. Mentira. A globalização é um fenômeno mais ou menos intenso e começou com a primeira migração de algum ancestral nosso (refiro-me aos macaquinhos, só para não ficar muito sem datação histórica). Digo mais, ninguém no BNDES criou uma política industrial para o “setor estratégico” de desenhos de galinhas pintadinhas. Graças a Deus! Assim os empreendedores criaram, cresceram e hoje lucram satisfazendo crianças aqui e lá fora (sim, isso mesmo).

Câmara Cascudo estaria contente se vivo estivesse (creio eu).

Uncategorized

Quem mexeu na minha tangerina?

Laranjas Mandarim (ou, alternativamente, tangerinas…) e kotatsu (este, na figura ao lado) têm uma relação histórica, de cartão postal e desenhos animados na sociedade japonesa.

Ah sim, o “kotatsu” é o desconhecido. Trata-se do aquecedor usado no Japão para o aquecimento durante o inverno (obviamente). Existe a versão moderna, que faz uso de energia elétrica e, bem, a Wikipedia em língua inglesa é muito boa na descrição do mesmo.

O fato é que famílias japonesas, outrora com mais filhos (dois ou três) tinham um momento de reunião nas refeições no kotatsu. “Tinham” porque estamos falando do Japão pré-videogames. Quem não se lembra do clássico Ohayou de Ozu, no qual os filhos entram em uma verdadeira guerra com os pais para que se compre uma televisão?

A diversão era assistir TV em família com os pés esquentados pelo kotatsu. Bom, associado ao momento de lazer existia o consumo das tangerinas (em um dos últimos Kouhaku Utagassen, num poutporri de músicas de antigos desenhos, os apresentadores simulavam estar em uma sala de estar, com o Kotatsu e aquela pilha de tangerinas).

Pois é. Mas a economia não pára e não estamos mais nos anos 60. A tecnologia mudou, a família japonesa diminuiu e envelheceu e o BigMac é um alimento popular por lá (alimento? Bem, é gostoso…) e alguém resolveu analisar o consumo de tangerinas no Japão e descobriu que o mesmo caiu. O autor da matéria lança a hipótese – algo ousada – de que este declínio teria a ver com o tempo menor gasto com a família no Japão (recentemente li um artigo de 1996 no qual os japoneses se mostravam bem mais preocupados com laços entre amigos do que entre familiares…e a evidência anedotal parece confirmar isto). Em suas palavras:

Come to think of it, the mikan’s prominence was at its zenith when there was a kotatsu in practically every Japanese home, and families sat around it while watching television, before it had a remote control. If the mikan’s decline is tied to less time spent together for families and friends, then that’s rather sad.

Going back to how different fruits have their own distinct image, one could say that the mikan is something people eat facing one another, while the banana is for eating alone. The latter also makes for a convenient meal substitute for people on the go.

Não sei se a história da banana me convence, mas a hipótese do autor tem algo além da simples melancolia pelo fim de uma era de relações familiares mais fortes. Trata-se da hipótese de que, de alguma forma, a demanda de tangerinas (um bem não-durável) tem a ver com a demanda de kotatsu (um bem durável). Esta é uma hipótese interessante, mas muito heróica. Repare que é uma definição de complementaridade econômica que não é derivada diretamente do preço dos bens (“um aumento do preço da tangerina leva a uma queda na demanda de kotatsus”), mas sim das preferências (“famílias japonesas curtem consumir kotatsus e tangerinas em conjunto). Hipóteses sobre preferências são mais difíceis de se testar. Aliás, usualmente usamos as demandas, observáveis que são, já que preferências somente se revelam pelas demandas.

A queda da natalidade teria enfraquecido os laços familiares? Talvez. Isto significa que a demanda de tangerinas deveria cair? Não necessariamente. O autor parece esposar uma espécie de teoria de demanda distinta (lembrei-me daquele texto do Gary Becker sobre demanda de restaurantes), na qual as famílias só consomem tangerinas quando estão em conjunto (não haveria tanto prazer assim em consumi-las sozinho(a)).

Embora eu não compre a tese do autor, fiquei curioso acerca da queda na demanda das tangerinas ao longo do tempo. Aliás, isto me lembra uma daquelas belas músicas teatrais (literalmente) japonesas cantadas pelo gigante Haruo Minami.

Uncategorized

Por que poupamos tão pouco do Oiapoque ao Chuí? Ou será que poupamos muito? Ou depende (de que?)?

Um dos tópicos mais badalados nos cursos de Macroeconomia é a questão da restrição à liquidez. Em resumo, a função consumo keynesiana, aquela coisa ingênua e super-simplificada, parece ser mais relevante em amostras nas quais os agentes econômicos não conseguem fazer escolhas intertemporais.

De novo: em um mundo no qual as pessoas não conseguem usar o mercado financeiro, as decisões de consumir mais ou menos são basicamente função da renda disponível e a taxa de juros não é importante. A intuição? Simples. Como o sujeito não tem acesso ao crédito (bancos, instituições financeiras, etc), o impacto da taxa de juros em sua vida é menor (em termos de consumo, o impacto é nulo, mas poderia atingí-lo indiretamente, via investimentos que afetam o produto, logo, a renda disponível, e tal).

Pois é. Aqui encontramos a realidade e o bom jornalismo do Estadão que nos deu duas matérias ótimas neste final de semana. A primeira está aqui. Tem muita coisa interessante na matéria e, claro, você deveria dar uma lida em tudo para ter uma boa idéia geral sobre o tema. Para mim, contudo, o ponto de destaque é o seguinte: a classe média emergente – esta que está, gradativamente, livrando-se da restrição à liquidez, ainda poupa pouco. Por que? Porque não existe confiança mútua. Entre quem? Entre o indivíduo e o banco.

Note que o interessante é que não se trata apenas do clássico “o banco não empresta a quem não tem reputação”. Existe também um fator, geralmente sabido mas ignorado, de desconfiança do consumidor com relação aos bancos. Não é preciso ir muito longe para descobrir que este ponto também é relevante. Basta visitar sites como o ReclameAqui para ver o quanto as pessoas reclamam dos bancos (ah sim, você descobrirá, por exemplo, nesta página, que bancos públicos adoram não responder às reclamações, o que os deixam, digamos, artificialmente melhores nos rankings, como neste caso). Desconfiança mútua, aliás, não seria algo irrelevante em um país como o Brasil, no qual a insegurança jurídica ainda é um problema sério (veja os artigos apresentados em congressos como os da ABDE, AMDE, IDERS, etc).

A falta de confiança em bancos e afins significa que brasileiro não usa o crédito? Não. Significa que brasileiro, como qualquer agente econômico racional, busca outras soluções, como o velho “fiado”. Sim, eu também acho que um sinal de subdesenvolvimento de um país pode ser detectado pelo baixo volume de transações financeiras caracterizadas pela confiança. Em um país desenvolvido, você compra de uma grande loja (ou compra produtos financeiros de um banco) sem muita preocupação. Já em países como o Brasil, com tanto rent-seeking e tanta impunidade, a confiança é muito menor.

Note que muita gente que não entende de Economia (sim, desculpem-me, mas este é o termo) fala que o Brasil é um país “neoliberal”, com um “mercado cruel”, etc. Ao contrário, o Brasil é um país cheio de problemas justamente porque nos falta mercado. Pobre não tem acesso ao mercado e, quando o tem, ainda enfrenta a baixa concorrência, empresários rent-seekers (ou seja, que se preocupam mais em ligar para um preso na Papuda do que satisfazer o consumidor), um governo que foge da transparência sempre que pode (tal como em qualquer lugar do mundo, mas com muito mais impunidade aqui) e uma estrutura ultra-anti empreendedora caracterizada por uma burocracia cartorial não desprezível. Assim, meu amigo, minha amiga…fica difícil dizer que estamos num país “neoliberal”.

Quanto ao consumo e à poupança, bem, em uma sociedade com baixa confiança, transações potenciais não ocorrem e, portanto, crescemos pouco. Este é um outro fator de travamento ao nosso crescimento que algumas pessoas não percebem.

Perceba…

Para o estudante de Economia é legal frisar: nossa discussão aqui vai além do livro-texto. Quando você entende bem o que está lá no livro (consumo, escolha intertemporal, restrições à liquidez, etc), você entende melhor uma pequena parte desta história toda. Note que entender bem aquilo tudo exige um bocado de exercícios, discussões, etc. Você sempre terá que ir e voltar em discussões mais amplas (como esta nossa, aí no alto) e uma parte da habilidade que um estudante de Economia desenvolve (caso seja um estudante, não apenas um aluno) é saber lidar com o “abstrato-realidade” de maneira talentosa e inteligente. Não é fácil, mas não custa tentar.

Eu diria que você deveria ler o capítulo do livro sobre os microfundamentos do consumo com carinho, fazer todos os exercícios, certificar-se de que consegue alterar os exercícios e ainda assim resolvê-los (mudando este ou aquele parâmetro, por exemplo) e, claro, neste passo adicional, vale a pena pensar em como introduzir questões como as discutidas acima no seu problema.

Bom, eu nunca disse que seria fácil, né?

Uncategorized

Salário mínimo e desemprego….e um ponto sobre a demanda de evidências empíricas no Brasil

Como eu costumo dizer, há várias coisas legais em se estudar Economia. Uma delas é verificar o impacto de leis em mercados específicos. O último número do Southern Economic Journal traz um estudo interessante. O resumo está aí embaixo.

The Effect of the Tipped Minimum Wage on Employees in the U.S. Restaurant Industry
William E. Even and David A. Macpherson

According to federal law in 2013, employers can take a credit of up to $5.12 for tips received by workers in satisfying the minimum-wage requirement of $7.25. This article uses interstate variation in laws regarding tip credits and minimum wages to identify the effects of reducing or eliminating the tip credit on employment, hours, and earnings in the U.S. restaurant industry. Using data from the Quarterly Census of Employment and Wages and the Current Population Survey, we find that a reduction in the tip credit increases weekly earnings but reduces employment in the full-service restaurant industry and for tipped workers. The results are robust to controls for spatial heterogeneity in employment trends and are supported by a series of falsification tests.

Sabe aquela história de o gerente do restaurante juntar todas as gorjetas para depois redistribuí-las? Pois é. Eu sempre me perguntei sobre o porquê disto (na verdade, eu sempre me perguntei depois que uma aluna, que estagiava em alguma empresa, teve que lidar com este problema e me relatou em sala). Após uma leitura super-superficial (sic), já posso dizer que um dos méritos do artigo é fazer a transição didática do modelo de concorrência perfeita de sala de aula – aquele em que discutimos a questão de salário e desemprego – para um modelo menos simples (mas ainda de sala de aula, caso você tenha continuado seus estudos…) de concorrência imperfeita. Aí a discussão do salário e do desemprego fica mais interessante (*).

Claro que nossa estrutura institucional (leis!) é diferente da dos EUA e eu não sei detalhes da mesma para o Brasil. Entretanto, vai aí mais uma observação: onde estão os estudos similares para o Brasil? A disponibilidade de dados, aqui, parece-me mais restrita (mas vem melhorando ao longo destes últimos 20 anos nos quais eu, consistentemente, tenho reclamado disto) aqui do que lá. Por que é assim (assuma que é)?

Creio que a demanda social de análises de políticas públicas é muito baixa. Tem aumentado, mas é baixa. Embora se fale de “positivismo” no Brasil, como disse uma vez o grande filósofo Alberto Oliva, não temos nada de influência positivista por aqui (exceto, talvez, por um ou dois templos positivistas no RS…). Tivéssemos mesmo alguma influência positivista séria, então teríamos muito mais bases de dados do que temos hoje.

Ok, mas eu imprimi uns dois artigos ali. Dá tempo de ler ainda.

(*) Ah sim, só para lembrar, em um de seus livros de Economia, Richard McKenzie (co-autorado com Dwight Lee) também introduz algumas modificações no modelo tradicional, mostrando que as coisas não são tão simples quanto pode parecer aos que usam apenas o modelo simples de oferta e demanda (e olha que não estou falando de complicar a vida com incerteza e tal…).

Uncategorized

Comer e estudar ficou caro em 2013

Pois é. O cara ganha uma Bolsa-Família e fica feliz. Aí algum economista faz uma crítica sobre falhas do programa e um bando de trolls atacam-no, chamam-no de neoliberal, etc. Há quem diga que Dilma vai revogar a Teoria Quantitativa da Moeda, frase que só pode ser explicada com o recurso ao álcool ou drogas pesadas.

Contudo, vejam como é a vida. O cara ganha a Bolsa-Família e vai ao supermercado. Com o que ele se depara? Com uma inflação acima da meta. Melhor, quase o dobro da meta. O mesmo pode ser dito sobre os gastos com educação. A solução, claro, tem a ver com o controle da inflação, o que significa – em um país sério – respeitar os manuais de economia (os que prestam, claro, nada de pterodoxia) e fazer políticas monetária e fiscal sem contabilidade picareta criativa ou manipulações de índices de preços.

O ano de 2014 chegou e não há sinais de que o manejo da política econômica vai mudar. Pelo contrário, os poucos sinais são de que a politicagem deve destruir dominar a condução da política econômica. Ninguém está se preocupando muito com o coitado que ganha a Bolsa-Família (BF). Afinal, dizem alguns militontos, basta aumentar o valor do subsídio. Não é porque o BF é um programa barato que você pode usá-lo para destruir a economia de um país. Abusar de um programa social barato é o mesmo que abusar de carne, cerveja ou cigarro.

A notícia do crescimento do PIB de 2013 é a que eu mais aguardo. Digo, do crescimento real do PIB, não a bobagem do crescimento nominal.