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Humor republicano e contabilidade criativa

Envia-me um anônimo admirador de Valdomiro Pinto,  ph.d e blogueiro,  a seguinte quadra:

Sai o cobre do Tesouro
(E ao sair não volta mais).
Sai do povo a pele e o couro.
Só tu, Arno,  não sais!

Há! Fácil!  Cópia de quadrinha de Antônio Salles, finado poeta cearense!

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Por que poupamos tão pouco do Oiapoque ao Chuí? Ou será que poupamos muito? Ou depende (de que?)?

Um dos tópicos mais badalados nos cursos de Macroeconomia é a questão da restrição à liquidez. Em resumo, a função consumo keynesiana, aquela coisa ingênua e super-simplificada, parece ser mais relevante em amostras nas quais os agentes econômicos não conseguem fazer escolhas intertemporais.

De novo: em um mundo no qual as pessoas não conseguem usar o mercado financeiro, as decisões de consumir mais ou menos são basicamente função da renda disponível e a taxa de juros não é importante. A intuição? Simples. Como o sujeito não tem acesso ao crédito (bancos, instituições financeiras, etc), o impacto da taxa de juros em sua vida é menor (em termos de consumo, o impacto é nulo, mas poderia atingí-lo indiretamente, via investimentos que afetam o produto, logo, a renda disponível, e tal).

Pois é. Aqui encontramos a realidade e o bom jornalismo do Estadão que nos deu duas matérias ótimas neste final de semana. A primeira está aqui. Tem muita coisa interessante na matéria e, claro, você deveria dar uma lida em tudo para ter uma boa idéia geral sobre o tema. Para mim, contudo, o ponto de destaque é o seguinte: a classe média emergente – esta que está, gradativamente, livrando-se da restrição à liquidez, ainda poupa pouco. Por que? Porque não existe confiança mútua. Entre quem? Entre o indivíduo e o banco.

Note que o interessante é que não se trata apenas do clássico “o banco não empresta a quem não tem reputação”. Existe também um fator, geralmente sabido mas ignorado, de desconfiança do consumidor com relação aos bancos. Não é preciso ir muito longe para descobrir que este ponto também é relevante. Basta visitar sites como o ReclameAqui para ver o quanto as pessoas reclamam dos bancos (ah sim, você descobrirá, por exemplo, nesta página, que bancos públicos adoram não responder às reclamações, o que os deixam, digamos, artificialmente melhores nos rankings, como neste caso). Desconfiança mútua, aliás, não seria algo irrelevante em um país como o Brasil, no qual a insegurança jurídica ainda é um problema sério (veja os artigos apresentados em congressos como os da ABDE, AMDE, IDERS, etc).

A falta de confiança em bancos e afins significa que brasileiro não usa o crédito? Não. Significa que brasileiro, como qualquer agente econômico racional, busca outras soluções, como o velho “fiado”. Sim, eu também acho que um sinal de subdesenvolvimento de um país pode ser detectado pelo baixo volume de transações financeiras caracterizadas pela confiança. Em um país desenvolvido, você compra de uma grande loja (ou compra produtos financeiros de um banco) sem muita preocupação. Já em países como o Brasil, com tanto rent-seeking e tanta impunidade, a confiança é muito menor.

Note que muita gente que não entende de Economia (sim, desculpem-me, mas este é o termo) fala que o Brasil é um país “neoliberal”, com um “mercado cruel”, etc. Ao contrário, o Brasil é um país cheio de problemas justamente porque nos falta mercado. Pobre não tem acesso ao mercado e, quando o tem, ainda enfrenta a baixa concorrência, empresários rent-seekers (ou seja, que se preocupam mais em ligar para um preso na Papuda do que satisfazer o consumidor), um governo que foge da transparência sempre que pode (tal como em qualquer lugar do mundo, mas com muito mais impunidade aqui) e uma estrutura ultra-anti empreendedora caracterizada por uma burocracia cartorial não desprezível. Assim, meu amigo, minha amiga…fica difícil dizer que estamos num país “neoliberal”.

Quanto ao consumo e à poupança, bem, em uma sociedade com baixa confiança, transações potenciais não ocorrem e, portanto, crescemos pouco. Este é um outro fator de travamento ao nosso crescimento que algumas pessoas não percebem.

Perceba…

Para o estudante de Economia é legal frisar: nossa discussão aqui vai além do livro-texto. Quando você entende bem o que está lá no livro (consumo, escolha intertemporal, restrições à liquidez, etc), você entende melhor uma pequena parte desta história toda. Note que entender bem aquilo tudo exige um bocado de exercícios, discussões, etc. Você sempre terá que ir e voltar em discussões mais amplas (como esta nossa, aí no alto) e uma parte da habilidade que um estudante de Economia desenvolve (caso seja um estudante, não apenas um aluno) é saber lidar com o “abstrato-realidade” de maneira talentosa e inteligente. Não é fácil, mas não custa tentar.

Eu diria que você deveria ler o capítulo do livro sobre os microfundamentos do consumo com carinho, fazer todos os exercícios, certificar-se de que consegue alterar os exercícios e ainda assim resolvê-los (mudando este ou aquele parâmetro, por exemplo) e, claro, neste passo adicional, vale a pena pensar em como introduzir questões como as discutidas acima no seu problema.

Bom, eu nunca disse que seria fácil, né?

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Salário mínimo e desemprego….e um ponto sobre a demanda de evidências empíricas no Brasil

Como eu costumo dizer, há várias coisas legais em se estudar Economia. Uma delas é verificar o impacto de leis em mercados específicos. O último número do Southern Economic Journal traz um estudo interessante. O resumo está aí embaixo.

The Effect of the Tipped Minimum Wage on Employees in the U.S. Restaurant Industry
William E. Even and David A. Macpherson

According to federal law in 2013, employers can take a credit of up to $5.12 for tips received by workers in satisfying the minimum-wage requirement of $7.25. This article uses interstate variation in laws regarding tip credits and minimum wages to identify the effects of reducing or eliminating the tip credit on employment, hours, and earnings in the U.S. restaurant industry. Using data from the Quarterly Census of Employment and Wages and the Current Population Survey, we find that a reduction in the tip credit increases weekly earnings but reduces employment in the full-service restaurant industry and for tipped workers. The results are robust to controls for spatial heterogeneity in employment trends and are supported by a series of falsification tests.

Sabe aquela história de o gerente do restaurante juntar todas as gorjetas para depois redistribuí-las? Pois é. Eu sempre me perguntei sobre o porquê disto (na verdade, eu sempre me perguntei depois que uma aluna, que estagiava em alguma empresa, teve que lidar com este problema e me relatou em sala). Após uma leitura super-superficial (sic), já posso dizer que um dos méritos do artigo é fazer a transição didática do modelo de concorrência perfeita de sala de aula – aquele em que discutimos a questão de salário e desemprego – para um modelo menos simples (mas ainda de sala de aula, caso você tenha continuado seus estudos…) de concorrência imperfeita. Aí a discussão do salário e do desemprego fica mais interessante (*).

Claro que nossa estrutura institucional (leis!) é diferente da dos EUA e eu não sei detalhes da mesma para o Brasil. Entretanto, vai aí mais uma observação: onde estão os estudos similares para o Brasil? A disponibilidade de dados, aqui, parece-me mais restrita (mas vem melhorando ao longo destes últimos 20 anos nos quais eu, consistentemente, tenho reclamado disto) aqui do que lá. Por que é assim (assuma que é)?

Creio que a demanda social de análises de políticas públicas é muito baixa. Tem aumentado, mas é baixa. Embora se fale de “positivismo” no Brasil, como disse uma vez o grande filósofo Alberto Oliva, não temos nada de influência positivista por aqui (exceto, talvez, por um ou dois templos positivistas no RS…). Tivéssemos mesmo alguma influência positivista séria, então teríamos muito mais bases de dados do que temos hoje.

Ok, mas eu imprimi uns dois artigos ali. Dá tempo de ler ainda.

(*) Ah sim, só para lembrar, em um de seus livros de Economia, Richard McKenzie (co-autorado com Dwight Lee) também introduz algumas modificações no modelo tradicional, mostrando que as coisas não são tão simples quanto pode parecer aos que usam apenas o modelo simples de oferta e demanda (e olha que não estou falando de complicar a vida com incerteza e tal…).