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Cronismo…você sabe o que é isto?

Não??? Então você não deve estar morando no Brasil. Ok, você mora, mas não sabe do que se trata. Um livro que divulgou este conceito no Brasil é o do Lazzarini. Mas você pode aprender também sobre isto neste video. Este blogueiro (junto com o Leo Monasterio) já falava de rent-seeking no Brasil desde o final do século passado. A galera, contudo, custou a nos acompanhar na literatura. Ao longo destes primeiros 13 anos do século, vimos vários autores e artigos sobre o tema. Claro, tudo começou com o Jorge Vianna Monteiro (embora muita gente não pareça saber fazer pesquisa científica direito e, portanto, não faça a revisão da literatura corretamente).

O termo rent-seeking nunca saiu muito das conversas de economistas e alguns poucos cientistas políticos esclarecidos. Claro, havia também a competição dos marxistas, sempre receosos de perderem sua platéia para teorias concorrentes. Mas, aos poucos, as coisas mudaram. Aí alguém, acho que foi o Gary Becker, popularizou o termo capitalismo de compadres (ou de compadrio). Paralelamente, a mudança de gerações nas redações de jornais e a tecnologia ajudaram a popularizar as idéias de Tullock, Olson, Buchanan e outros. Mesmo assim, convenhamos, “capitalismo de compadres” não é um termo muito retórico, no sentido da McCloskey.

Aí, agora, veio este novo termo, o tal “cronismo”. No fundo, no fundo, fala-se do mesmo fenômeno. Mas parece que este termo está se popularizando com certa facilidade. Ajuda, claro, a corrupção desenfreada que assistimos no Brasil desde a primeira administração da Silva (agora também conhecido como “Lula”, “Lula da Rose”, “o Barba”, dentre outros divertidos apelidos). O desencanto dos eleitores não deixa de ter um impacto positivo: o aumento do ceticismo e do grau de exigência quanto às suas demandas políticas. Claro que isto não necessariamente melhora a qualidade do setor público ou diminui a corrupção, mas o realismo trazido pelo ceticismo é sempre saudável.

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Amo muito o bem público produzido pelo setor privado

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Pois é, leitor. Sempre que alguém vem a BH eu fico sem saber o que dizer. Aqui, convenhamos, não tem nada. Nada mesmo. Mas aí o setor privado, muito mais do que esta prefeitura ineficiente (vem assim desde a época do Célio de Castro e seus sucessores, mas não era muito melhor antes…enfim…), consegue me salvar.

Bem público produzido pelo setor privado com motivos “egoístas” (se ganhar dinheiro para pagar as contas é egoísmo, então Luis F. Verissimo e eu somos os mais egoístas do mundo…junto com você, leitor). Exemplo que poderia estar em qualquer livro-texto de Economia. Gostei tanto que fiz todo um malabarismo para comer na bandeja sem sujar o sanduíche e as fritas (e, sim, eu consegui fazer isto!) para guardar esta excelente peça de propaganda.

Aliás, gostei tanto que a empresa ganhou o direito a uma propaganda gratuita aqui.

E agora, para algo mais técnico…

O que é um bem público? Antes que você pense no senso comum, esta é uma definição técnica, um conceito teórico. Um bem público é um bem não-excludente e não-rival. O melhor exemplo disto está no livro-texto do Mankiw. Uma estrada com pedágio é excludente (sem pedágio, portanto, não-excludente). Uma estrada congestionada é rival (porque o espaço entre carros diminui. O consumo do mesmo pedaço de chão é rivalizado com outro motorista e seu pequeno SUV…). Sacou?

Bom, então fica meio óbvio – ou então você dá uma pesquisada na internet, ok? – que alguém que busque lucrar não tem muito motivo para produzir um bem público…em princípio. Por que? Porque não dá para lucrar tanto quanto se você produz um bem privado (rival e excludente). Claro que esta classificação do bem ou serviço em “privado” e “público” é uma questão de grau (além do fato de existirem bens rivais, não-excludentes e não-rivais, excludentes). Mais ainda, o grau pode ser alterado conforme a tecnologia mude. Pense no caso da TV. Há algumas décadas, era impossível vender um pacote de canais como um bem privado (o que se fazia era vender um bem público (o pacote de canais) com um financiamento via propaganda).

O que isto tudo tem a ver com o McDonald’s? Simples. A informação turística é um bem público. Supostamente, o governo poderia criar uma secretaria de turismo (esqueçam a ironia da coisa…ou melhor, dêem uma boa risada e prossigam) para prover os turistas de informações como esta. Bem, a coisa mais difícil do mundo é achar um guia turístico desta cidade de fácil acesso e na hora que você precisa. Aí entra a campanha da cadeia de fast-food, em busca de lucros com a praça específica de Belo Horizonte. De forma inteligente, percebe-se que homenagear a cidade torna o consumo do sanduíche mais agradável. A experiência de se comer dois pães e carne não se distingue, em princípio, por conta do lugar onde você o compra. Contudo, diferenciar o produto é uma prática mais antiga do que a prostituição (se é que não nasceu com a mesma…).

Portanto, ao vender um sanduíche (bem privado) com uma folha de papel destas, com uma propaganda da cidade, agrega-se à experiência de consumo um certo valor que, imaginam os donos do boteco, aumentará suas vendas. Bem, não estou eu aqui falando bem da propaganda?

Voltando ao hambúrguer…

Pois é. Eu pensei até em voltar hoje para comer um outro hambúrguer deles, mas não sou tão fã assim do consumo diário de McDonald’s. Mas fica aqui o exemplo, a evidência (talvez a milésima, neste blog) de que bens públicos podem ser produzidos de forma eficiente pelo setor privado. Eu diria, neste caso, até mais eficientemente do que o setor público municipal sequer poderiaimaginar alcançar um dia.

Antes de me despedir, eu me pergunto: burocratas, sempre tão invejosos dos sucesso alheio (dentro ou fora de seu mundinho, a repartição), adoram sabotar a concorrência com um papo furado muito bonito de “proteção às crianças, índios, animais domésticos, mulheres, etc”. Papinho bem ruim mesmo. Mas, às vezes, há até uma boa justificativa para tal, embora raramente me pareça ser a regra seguida por eles. Eu me pergunto quando vão proibir a cadeia de fast-food de produzir informações turísticas porque “apenas o fazem pelo lucro”. Como se os burocratas não maximizassem nem mesmo seu orçamento…

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Vovô não quer BigMac. E agora, Ricardo?

Eis aí algo que é verdade aqui ou no Japão. O texto do casal de blogueiros é recheado de elementos que você pode usar para discutir com seus amigos, professores ou, claro, com seu avô. Eu ainda destacaria um ponto específico, além do demográfico: a questão ricardiana. Cito com negrito por minha conta:

If the central point of Abenomics is to boost prices and thus wages and consumption — the old “raise all boats” metaphor — then to a certain extent the plan has succeeded over the last year. Consumers don’t seem to be fixated on cheap goods and services any more, though, to be honest, it’s difficult to tell if this willingness to spend more is a function of anticipation for April’s consumption tax hike.

Pois é. A administração do Primeiro-Ministro Abe sabe que a política fiscal não é um saco sem fundo (até o do Papai Noel não tem buracos, vale lembrar…). Portanto, mesmo com o estímulo fiscal, a antiga promessa de aumentar o imposto sobre o consumo foi aprovada pelo parlamento.

E agora, para algo completamente diferente…ou pelo menos mais técnico.

A aprovação legal nos traz uma redução na incerteza jurídica, já que todos sabem que a lei, em um país desenvolvido (= civilizado) será cumprida sem maiores problemas. Mais ainda, o aumento tem data e foi anunciado. Então estamos diante de um clássico problema de Macroeconomia de se saber qual é o impacto de uma política anunciada em um mundo em que as expectativas racionais opera.

A proposição Barro-Ricardiana de livro-texto nos diz algo bem simples: se eu sei que vou ter que pagar impostos amanhã, eu poupo hoje. Já num mundo não-Ricardiano (ou não-Barro-Ricardiano), o reduzido imposto de hoje, sob a expectativa de aumento do mesmo amanhã, provavelmente me induzirá a consumir mais. Tudo isto, claro, ceteris paribus.

Mas quando se fala do Japão, é bom ter em mente um ponto muito importante que não tem nada a ver com aquela lenda de “cultura oriental”, mas sim com a demografia (o tal bônus demográfico que meus amigos Salvato, Ari e Bernardo explicam aqui, para o caso brasileiro). Os autores do post falam do desejo dos mais velhos em consumir produtos de qualidade maior (embora exagerem na ênfase). Não apenas isto, mas “mais velhos” no Japão significa que estamos falando de pessoas cujo padrão de consumo alimentar é bem distinto do moderno fast-food norte-americano que os jovens tanto parecem gostar.

Barro, na própria discussão de sua proposição, já havia discutido a questão demográfica ao falar do argumento do altruísmo (herança) que justificaria o efeito da equivalência no, digamos, longo prazo. No caso do post dos autores, a demografia não está tanto no longo prazo, mas no curto prazo (acho que se fala “coorte” lá em demografia). Estamos falando de um modelo de overlapping generations destes simples. Ou seja, no mesmo período de tempo convivem duas gerações distintas: a mais velha e a mais nova (estou supondo, por simplicidade, apenas duas gerações). Só que, ao contrário do modelo de livro-texto, estamos dizendo que o padrão de consumo das gerações é distinto: uma prefere consumir mais fast-food e outra prefere alimentos de maior tempo adicionado (é, eu pensei em algo como household production models que o Tyler Cowen, implicitamente, usa aqui).

A pergunta, portanto, neste caso, é a seguinte: em um modelo simples, com dois períodos, o que acontece quando tornamos o bem “consumo” (que é, lembre-se, estudante de graduação, sempre sinônimo de consumo de bens não-duráveis) heterogêneo? Primeiro, à la ciclos reais, temos duas gerações e, adicionalmente, agora, colocamos a heterogeneidade do consumo. Suponha que o restante do modelo funciona tal como antes. Ah sim, é importante fazer o destaque didático-científico: mantenha as expectativas racionais. Afinal, pode ser que algo mude (ou não) no modelo, mesmo que não haja nenhuma mudança no tipo de racionalidade dos agentes (esta é uma observação para os eternos apressados que desejam, loucamente, jogar fora a racionalidade sem antes relaxar outras hipóteses do modelo. Interessados vejam isto).

Será que a equivalência barro-ricardiana se mantém? Poderia ser uma questão de prova, mas fica para o espaço de comentários. Preferencialmente, gostaria de ver citações de papers que trataram do assunto com hipóteses semelhantes.