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O brasileiro selvagem, o trânsito e a liberdade

Descia a rua com calma e, lá embaixo, outro motorista vira e entra na mão oposta. Ao lado dele, espaço para se acomodar. Do meu, nenhum. Vejo que não há muita folga na passagem dos dois carros e, assim, páro e vou lentamente para não arranhar meu carro e nem o do outro motorista. O mesmo não resiste: “- Folgado, heim”? O que este episódio nos ensina? Primeiro, que muitos brasileiros não entendem a educação no trânsito. Quem entra na via não tem a preferência sobre quem nela já está. Em segundo lugar, o episódio mostra que o brasileiro pode ser bem selvagem em situações do mais absoluto cotidiano.

Você deve se perguntar, imagino, sobre como eu vejo um Brasil mais liberal gerando mais prosperidade para todos já que o nível de educação de gente como este motorista beira à selvageria (sem ofensas aos que habitam as selvas). Você pode se perguntar mais: como é que o brasileiro viverá em sociedade se não tem, em média, um nível de educação decente? E o que dizer do nível de leitura: dois livros (contando ebooks) ao ano, segundo uma pesquisa divulgada há algum tempo, com surpreendente baixo nível de estardalhaço, na imprensa?

Geralmente, 90% dos meus amigos mais autoritários começam seu argumento desta forma. Quase posso enxergá-los dizendo: “- E agora, camarada? Este imbecil aí vai aprender o tal liberalismo”? Ou então: “- Eu não te disse? Brasileiro não sabe viver em sociedade. Não tem jeito mesmo”. Daí passam para todo tipo de solução (principalmente se a conversa ocorrer em um boteco…) como: “- Tem que botar este povo na linha com leis mais duras”! Ou: “- Este povo tem que ser obrigado a aprender no chicote. Precisamos de mais “militarismo”!

Os argumentos, digamos, brasilocêntricos, sempre fazem questão de enfatizar a estupidez do povo brasileiro. Por algum motivo mágico, os críticos, também brasileiros, escapam deste estado de burrice e alegam que isto é normal porque “- Eu tenho estudo, eu fiz faculdade”. Bem, infelizmente, muitos destes meus amigos são capazes de furar filas, dirigir como o imbecil acima, etc. Ou seja, não é tanto a educação formal a causa do problema, embora ela seja importante.

Por que brasilocêntrico? Bem, porque não é verdade que comportamentos assim não ocorram em outros países. Por exemplo, os suíços podem portar armas e não saem por aí matando gente em escolas. Logo, dizer que desarmar as pessoas soluciona o problema da violência no Brasil não é uma afirmação lá muito sólida. Outro exemplo interessante e triste é o do estupro de mulheres. Nenhuma lei impediu, até hoje, que o fenômeno terminasse em qualquer lugar do mundo. Entretanto, parece ser correto dizer que – voltando à Suiça – haja menos estupros neste pequeno país europeu do que no Brasil (mesmo que façamos as costumeiras normalizações como “estupros por 10 mil habitantes”). Então, nada de brasilocentrismo (ou jabuticabismo).

Sabemos, graças a pesquisas as mais diversas, que há algumas características impressas em nosso DNA por conta do processo evolutivo (e lembre-se que macacos podem ser tão ou mais violentos que os seres humanos). Por outro lado, nossa evolução também nos faz criar instituições que prolonguem nossa sobrevivência. Tais fatos valem para brasileiros e não-brasileiros, claro. Não é difícil se aceitar que nossa sobrevivência tenha uma relação positiva e forte com a renda per capita (ou da renda familiar), o que nos leva, para a tristeza dos que odeiam a economia, à inevitável necessidade de entender que tipo de instituições geram mais ou menos renda per capita (e, eventualmente, que instituições geram sociedades menos desiguais).

Sobre esta questão, os economistas têm trabalhado um bocado e, claro, sabemos pouco ainda. Nosso conhecimento parece indicar alguns fatos surpreendentes e outros nem tanto. Por exemplo, sabemos que algumas instituições geram maior renda para as famílias do que outras porque estas instituições foram moldadas (geralmente por ninguém em particular ou como resultado inesperado de alguma medida tomada por alguém, no governo ou não) de maneira a incentivar as trocas voluntárias entre pessoas.

Sabemos também que há ambientes que poderíamos chamar de “cultural”, no sentido de certos valores que alguém poderia chamar de “base moral” que levam ao desenvolvimento. Por exemplo, sabemos que pessoas que valorizam matar outras pessoas não são lá muito propensas a trocas voluntárias e preferem o roubo. Este não é um bom valor em termos das trocas voluntárias mas, surpreendentemente, pode ocorrer de o roubo gerar, de forma não-intencional, instituições pró-desenvolvimento. É possível imaginar que a abundância de terras em um vasto continente norte-americano no início de sua colonização tenha gerado pouca demanda por direitos de propriedade privados. Não-intencionalmente, o crescimento demográfico torna a terra mais escassa e, portanto, esta demanda pode mudar.

Que valores são os “melhores” para gerar uma sociedade próspera e pacífica é algo que não sabemos responder ainda. Por outro lado, parece mais interessante pensar que sua descoberta é um processo de tentativa e erro que pode acertar seu alvo se não for tolhido por instituições ruins. Por exemplo, ao proibir os moradores de um bairro de passearem com seus filhos numa praça, estará o governo gerando pessoas enclausuradas com todas as consequências que daí advém (boas ou más).

grafico_mortes_liberdade

O tema é, sem dúvida, polêmico e cheio de arapucas ao longo do caminho. Entretanto, percebo que até mesmo o pobre motorista sem noção de educação básica pode aprender a dirigir melhor em uma sociedade mais liberal do que em uma sociedade autoritária. Aliás, países mais livres (tomando apenas a dimensão econômica) também parecem ser países com menos fatalidades no trânsito (veja o gráfico acima). Pura correlação ou há uma conexão causal? Será que a liberdade econômica gera infra-estrutura melhor e, portanto menos acidentes? Ou será que a liberdade econômica é compatível com uma atitude menos violenta e, portanto, há menos acidentes?

Não tenho a resposta, mas imagino que o leitor tem muito a ganhar se pensar neste problema e, claro, cuidado com o trânsito: motoristas mal-educados e violentos ainda não são a exceção neste país…

Fonte dos dados: Wikipedia (verbete: List of countries by traffic-related death rate) e http://www.freetheworld.com.

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