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História do Pensamento Econômico Brasileiro – A macroecoomia sem microfundamentos

Sobre o “I Programa de Metas” (o Plano de Metas de JK):

Ora, embora o plano não seja um simples somatório de projetos isolados, exprime-se e analisa-se, afinal, em projetos, como o organismo vivo que se analisa em tecidos. Mas, o I Programa de Metas introduziu nova dimensão no trabalho de racionalização de nossa econômia [sic], na medida que, tentando articular os diversos programas setoriais, por um lado exigia a generalização da técnica de projetamento, sua aplicação a tôdas as atividades e, por outro, permitindo, pela homogeneização que daí resultava, a soma, ainda que apenas aproximada, do custo de todos os empreendimentos e a análise dêsse custo em seus principais componentes, suscitava de maneira clara e inequívoca problemas que exorbitam da micro-economia, porque são problemas macro-econômicos, concernentes às estruturas da oferta e da procura, ao balanço de pagamentos, ao equilíbrio entre o setor público e o setor privado, ao equilíbrio entre a oferta e a procura globais e ao equilíbrio entre produção intermédia e final“. [Ignácio Rangel, “Recursos Ociosos na Economia Nacional, ISEB, 1960, p.29]

O trecho em itálico é por minha conta. O hermetismo do português poético (e bem escrito, exceto pelo erro de impressão, mesmo para a época, destacado: “econômia”) de Rangel gera uma imensa confusão: como é que custo-benefício de um projeto “exorbita” da microeconomia? Impossível. Tentativas de desprezar o custo-benefício em prol, sei lá, do tal balanço de pagamentos é que podem gerar distorções terríveis na economia (inclusive, inflação).

Por falar em inflação, o que Rangel dizia a respeito? Durante o Plano de Metas, nada. Absolutamente nada. E não me culpem.

“A questão inflacionária não teve espaço nas análises de Rangel até o ano de 1962. Quando finalmente se manifestou a respeito (…) fê-lo, como nos outros assuntos, de forma independente e divergente das correntes de pensamento que debatiam a questão”. [R. Bielschowsky, Pensamento Econômico Brasileiro, PNPE/IPEA, 1988, p.275]

Entendeu? Depois de gerada a herança inflacionária que, com algum pessimismo, derrubaria o regime democrático em 1964, Rangel começou a pensar no problema. Pisou na bola, cara. Agora, se sua originalidade e independência são sinônimos de alguma teoria inovadora que ajudaria a estabalizar a inflação nunca saberemos porque este mérito ficou para os criadores do Plano Real, após décadas de fracassados testes pterodoxos.

Rangel, como tantos outros, fez história em uma época em que economistas eram escassos no país. Como tal, deve ser estudado, mas não idolatrado. Eu sei que você sabe disto, mas é possível encontrar acadêmicos por aí que não se contentam em citar um sujeito sem idolatrá-lo (o caso mais comum é Celso Furtado cujos erros resistem mesmo após a singela, mas excelente dissertação de mestrado de Simão Silber, lá nos anos 80 que, dentre outras coisas, mostrou muitos erros na análise do dito cujo).

Outro dia um aluno fez piada com isto porque elogiei o talento literário do Furtado. “Pela primeira vez você fala bem dele”. Não é verdade. Minha crítica é bem específica, tal como o elogio. E nada têm a ver com o fato do sujeito gostar ou não de Ulysses Guimarães ou do presidente da Silva.

Pois aí está. Com exceção do livro do Bielschowsky, é difícil encontrar estudos sérios sobre o pensamento econômico brasileiro. Acho que Gustavo Franco tem alguns artigos – muito bons – sobre o tema. Mas não vejo mais nada. O restante que já vi é pura idolatria doutrinal, coisa que interessa mais aos sicofantas do que aos cientistas.

Claudio

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