Economia do Conflito

O Duopólio da Coerção

Acho que todo economista que já passou por livros ou artigos de Jack Hirshleifer teve a oportunidade de dizer que o fato de a economia estudar a alocação de recursos escassos não significa que esta alocação se dê apenas de forma pacífica (= mercado). Bom, James Buchanan já nos lembrou que coerção legalizada (= governo) também é uma forma de realocar recursos.

Ok, o que Hirshleifer fez foi ampliar o escopo para alocações através de coerções não consentidas (= conflito). Desde Gary Becker que temos estudos interessantes sobre a economia do crime (tópico preferido do prof. Ari F. Araújo Jr, do IBMEC-MG, por exemplo).


Agora, é verdade que quando se fala em economia do conflito, a primeira coisa que vem a cabeça de muita gente é uma guerra civil africana. Ok, estes é um exemplo comum de conflito. Mas há outros. Muitas vezes a luta não é pelo butim (como diziam os piratas), mas sim pelo direito de governar. Em seu livro póstumo, Power and Prosperity, Mancur Olson Jr. faz uma análise bacana sobre o tema.

Contudo, não é preciso muito esforço para ver que a economia do conflito tende a prevalecer onde o Estado é fraco (Estado fraco, lembre-se, não é sinônimo de Estado mínimo ou de neoliberalismo….Estado fraco é o que não provê segurança pública minimamente decente). Não é nenhuma novidade o que vou reproduzir abaixo, mas é bom para nos lembrar que nosso federalismo, além de possuir incentivos ruins (veja o capítulo de Federalismo no “Economia do Setor Público no Brasil” de Biderman & Arvate ou visite a página do Partido Federalista), possui um duopólio da coerção em alguns lugares.

Note também, leitor, como os traficantes parecem entender tão bem de marketing quanto qualquer aluno de MBA…

A polícia do Rio investiga se traficantes estão usando personalidades que comparecem a eventos em favelas, como jogos de futebol e bailes funk, a fim de atrair jovens do “asfalto” para comprar drogas no morro. A suspeita apareceu a partir de conversas entre Erismar Rodrigues Moreira, o Bem-te-vi, chefe do tráfico na Rocinha, e celebridades, que foram monitoradas graças a um grampo telefônico.

A voz do goleiro Júlio César foi uma das que apareceram nas gravações. Ele telefonou para Bem-te-vi para reclamar de um assalto a um automóvel em frente à Rocinha – pelas regras da favela, não se pode roubar nas redondezas. Além dele, fizeram contato com o bandido atores, atrizes, modelos, cantores e outros jogadores de futebol. O chefe de Polícia Civil, Álvaro Lins, informou que o grampo permitiu a identificação de outras cinco pessoas famosas.

(…)

Lins acredita que os traficantes busquem, assim, se legitimar, além de atrair consumidores ao morro. “Nós desconfiamos que o tráfico esteja usando estas personalidades como espécie de propaganda para atrair jovens para o tráfico em bailes funks e em partidas de futebol e aumentar a capacidade de venda de drogas”, afirmou. “É uma conduta moralmente inaceitável”, concluiu.

A Rocinha é o principal ponto de distribuição de drogas da zona sul do Rio. São comuns os eventos que contam com a presença de artistas. Os convidados acabam tendo contato próximo com os traficantes, e, como mostram os grampos, por vezes o relacionamento se estende. Isso não acontece só na Rocinha. Segundo Álvaro Lins, há suspeita de que criminosos da Vila dos Pinheiros, na zona norte, também chamem artistas para chamar a atenção de gente do “asfalto” para a favela.

Claudio

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