Metodologias: quanto mais, melhor

No último número da Economia, da LACEA, temos vários artigos sobre sistemas de metas de inflação na América Latina. Um deles me chama a atenção por conta de três parágrafos. Trata-se de Garcia-Cicco & Kawamura (2014) e, por sorte, o mesmos (parágrafos) encontram-se no site da revista, na minúscula parte não-paga da transcrição do artigo. Ei-los, comentados.

Deviations from conventional policies were observed in Latin America even before the recent global financial crisis (and before the central banks implemented inflation-targeting frameworks). Most notably, central banks have often engaged in sterilized exchange rate interventions to smooth the effects of capital inflows (due in part to commodity price booms) and the resulting nominal exchange rate appreciation. Some countries, like Peru, have used these interventions quite frequently, whereas others have implemented these policies only after extreme movements in the nominal exchange rate (for instance, in Chile), even after the inflation-targeting policies were already in place.

Então, existe um problema a ser estudado e este diz respeito aos desvios praticados pelos banqueiros centrais relativamente ao sistema de metas. A bem da verdade, dizem-nos os autores, desvios sempre ocorreram. Na sequência:

In this regard, one important policy discussion is the relationship between inflation-targeting regimes and liquidity management responses. In particular, it is not obvious whether the application of such liquidity management policies implied some type of threat to the “good implementation” of the inflation-targeting framework. Ishi, Stone, and Yehoue highlight the difficulties of using econometric time-series techniques to evaluate the impact of liquidity management policies implemented in an inflation-targeting framework, because it requires disentangling the impact of each type of policy, as well as the impact of the external shocks that presumably triggered the implementation of such policies. The fact that such policies were usually in place for just a few quarters further complicates the application of the time-series-based impact evaluation.

Bem, o problema existe e tratar dele exigiria mais do que uma análise de séries de tempo poderia nos dar. Ok, todos nós gostamos de Econometria (ou pelo menos alguns de nós…) e queríamos resolver isto com o que aprendemos na faculdade. Mas não vai dar. Então, podemos ir para casa chorar ou tentar algo diferente. Os autores, obviamente…

This paper contributes to the evaluation of such policies by constructing, solving, and simulating a dynamic stochastic general equilibrium (DSGE) model that explicitly includes the central bank’s balance sheet as a key modeling input. The model can explicitly predict the impact of selected unconventional monetary policies on the major macroeconomic variables, including gross domestic product (GDP), consumer price index (CPI) inflation, and the real exchange rate, and it pays special attention to the role played by the specific facilities used by the central bank to manage market liquidity. This paper uses Chile as the main case for the application of the model, providing a detailed account of its experience with these alternative tools since the introduction of the flexible inflation-targeting framework in 1999 and calibrating the model to then analyze the effects of some of the policies implemented.

Ou seja, quando você não consegue usar um modelo de séries de tempo (digo, de econometria de séries de tempo), você pode optar por um modelo DSGE. Gostou?

Repare que, ao contrário da dicotomia que aparece em livros-textos mais simples, entre novos-clássicos e novos-keynesianos, o fato é que a convergência científica – e, talvez, o tempo em si – transformaram modelos DSGE e modelos econométricos muito menos ‘substitutos’ e mais ‘complementares’ como métodos de compreensão de problemas econômicos.

O leitor mais avançado não vai achar isso muito interessante, mas o que está no meio do curso da faculdade pode ser surpreendido. Bem, o fato é que a realidade da pesquisa é bem mais interessante do que você, muitas vezes, imagina.

Multiplicadores do Gasto Público no Brasil

Tema ao qual já me referi como importante – não que isto não seja óbvio, mas num país em que a galera cai em qualquer lero-lero, é bom lembrar sempre… – aparece aqui, no seminário que ocorrerá lá em São Paulo, na EESP. Veja só os resultados do artigo.

O resumo:

RESUMO
O trabalho quantifica e compara os impactos macroeconômicos de diferentes tipos de gastos públicos – compras de bens e serviços, investimentos, transferências sociais e gastos com o funcionalismo público –, sob diferentes regras fiscais, dentre as quais regras que exigem a manutenção permanente do equilíbrio orçamentário. A análise está baseada em um modelo DSGE de médio porte adaptado e calibrado para a economia brasileira. O modelo incorpora um setor público detalhado e considera explicitamente a existência de emprego público. Os principais resultados obtidos são: (i) sob as regras de ajuste fiscal baseadas no aumento da taxação, o maior efeito positivo sobre o PIB no curto prazo está associado ao aumento do emprego público, enquanto o efeito mais negativo está associado às transferências sociais; (ii) sob as regras de ajuste fiscal baseadas na redução de algum item de despesa, nenhum tipo de gasto público gera impacto positivo significativo no PIB no curto prazo; (ii) no médio prazo, o melhor caminho para ampliar o PIB é via aumento do investimento público, que pode apresentar multiplicadores substancialmente superiores a 1, a depender da regra fiscal em uso; (iv) a maioria dos itens de gasto público caracteriza-se por multiplicadores pouco significativos ou negativos sob a política de equilíbrio orçamentário permanente, mas positivos sob a política de ajuste fiscal defasado e parcial; (v) o aumento das transferências sociais está associado a multiplicadores invariavelmente negativos; (vi) a adoção de regras fiscais muito rígidas baseadas no aumento da taxação distorciva pode levar à redução do PIB concomitantemente a uma elevação da inflação, dado o impacto da maior taxação do capital sobre os custos de produção.

Não li o artigo ainda – e obrigado aos autores por tentar responder à grande pergunta relevante para todos os que se preocupam com o tema – mas os resultados não são lá os mais otimistas relativamente ao discurso da equipe econômica, não?

Modelo DSGE com armadilha pela liquidez? Not a problem!

Pois é. Pesquisas e pesquisadores, sempre em busca de soluções. Olha o resumo aí.

We propose a simple and tractable method to estimate linear DSGE models with the zero lower bound on nominal interest rates. Our method makes use of forward rate curves in order to take into account the effects of the zero lower bound on equilibrium endogenous variables without relying on nonlinear techniques for solving rational expectation equilibrium. Applying the method to Japanese data, we find that the natural interest rate might not have declined to negative values in the late 90s and 2000s. Counterfactual simulations show that the Bank of Japan’s zero interest rate policy and quantitative easing policy in those periods had expansionary effects by bull flattening the yield curves.

Pois é. Como sempre digo: só a preguiça nos impedirá de continuar dominando o planeta…os macacos ainda terão que esperar uns séculos. ^_^