Degredados…e o agente-principal

Sempre digo que a gente tem que ter bons amigos. Um deles, por exemplo, é o Fernando Zanella, que fala de História Econômica de forma séria. Veja só este último artigo dele.

Um trecho ótimo:

Here we identify them as agentsdue to their role in carrying out instructions of the principal (Portuguese) to facilitate trade and settlements by gathering information and minimizing transaction costs. However, as we shall see later, many — if not most — degredados became brokers by trying to forge a common ground between the Portuguese and the natives to produce agreements of mutual benefits. Actually, some of them, castaways and degredados alike, became so integrated into the natives’ lifestyle that they refused to return to Portugal despite promises of reward and even financial compensation.

Acho que todos aqueles que já leram um pouco sobre a colonização portuguesa na África hão de se lembrar dos tangomanos e de como o governo português, inicialmente otimistas com suas atividades no continente, viria a romper laços com os mesmos por conta da concorrência criada por seus, outrora, agentes.

Caso eu pudesse contribuir para este ótimo artigo, eu diria que o que Zanella e seu co-autor relatam para o Brasil é também o que eu vi em minhas pesquisas sobre a colonização portuguesa na África.

Um ótimo artigo. Recomendo.

O crime compensa…quando o governo se intromete mais no funcionamento dos mercados?

As barreiras, a concorrência, e os empresáriosVeja você mesmo em:

International Advances in Economic Research
May 2015, Volume 21, Issue 2, pp 155-165

Economic Freedom and Recidivism: Evidence from US States
Joshua Hall, Kaitlyn Harger, Dean Stansel

Abstract
This paper provides an exploratory analysis into factors contributing to differences across states in recidivism rates. We provide the first such examination that incorporates differences in economic freedom. Using a panel data set from 1998 to 2010, we find that higher levels of economic freedom within a state are associated with lower recidivism rates within that state. A one percent increase in state economic freedom is associated with a 0.47 % decrease in parolee recidivism. The relationship is stronger and more statistically significant for labor market freedom, with a one percent increase in labor market freedom being associated with a 0.67 % decline in recidivism.

Não tem acesso? Veja uma versão working paper anterior aqui.

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História Monetária: o caso da Itália

História das instituições monetárias? Tudo bem! Que tal falar de competição entre bancos na criação de moedas?

Adverse clearings in a monetary system with multiple note issuers: the case of Italy (1861–1893)
Giuseppina Gianfreda, Fabrizio Mattesini

Abstract
We study the regime of multiple note issuers that characterized the Italian monetary system from the unification of Italy in 1861 to the creation of the Bank of Italy in 1893. We describe how the system evolved and we analyze how it functioned by studying the clearing of notes among banks. Since by law banknotes had to be redeemed at par, we focus on the ability of banks to keep notes in circulation before redemption. We estimate adverse clearings of notes issued by the dominant bank [Banca Nazionale degli Stati Sardi (BNS)] in the provinces where this bank had branches and we find that the entry of a smaller issuer limited the BNS’s capacity to keep its notes in circulation at the local level. We take this as evidence that competition in note issuance worked as an effective discipline device. Our results are consistent with the analysis of Pareto (Journal des économistes 3–28, 1893) who maintained that the fall of the Italian system was not due to the failure of the competitive mechanism, but rather to the altering of the rules of the game by the government.

Repare que o velho Pareto já havia estudado o mesmo tópico.

A impossibilidade do cálculo econômico

Daniel Sutter tem um artigo (com um co-autor) muito interessante mostrando, de uma forma inovadora, porque uma economia centralmente planejada, como a ex-URSS, é incapaz de gerar prosperidade econômica.

Redução da Maioridade Penal – subsídios (mais um)

O Marcos Fernandes, sempre uma fonte de boas referências, divulgou este texto. O leitor que acompanha o blog encontrará, mais abaixo, outro post com nome similar a este…com outro texto.

O que os “textos” têm em comum: estão cheios de evidências empíricas. Passamos da discussão ético-filosófica para uma discussão prática. Claro, ambas são importantes, mas, no Brasil, o viés tem sido o de ignorar as evidências empíricas, o que é um erro. Um erro crasso.

Então, para quem curte…

Redução da Maioridade Penal – subsídios

Primeiro, o problema da estatística. Ah sim, não apenas o da existência dos dados, mas também o segundo problema: gente que não quer acreditar nas evidências empíricas de maneira patológica (esta última dica veio daqui).

Por último, não, gente, quando o sujeito diz: “sua abordagem é muito simples porque considera que o criminoso só faz conta de custo-benefício e desconsidera o meio em que ele vive”, este mesmo sujeito mostra que não entendeu nada da análise.

Para começo de conversa, a crítica infeliz é ao modelo econômico do comportamento criminoso, devido a Gary Becker. O cálculo de custo-benefício, obviamente, pode, sem muita dificuldade, ser feito sob restrições bem especificadas (aliás, não pode ser feito de outra forma). Ora bolas, não preciso ir muito longe no argumento. Basta observar a quantidade de estudos mostrando testes de hipóteses deste modelo com relação aos ciclos econômicos (exemplos aqui e aqui).

Eu? Eu acho que criminoso tem que ser punido. Mas acredito que a lei tem custos e benefícios e devemos considerá-los na análise. Falei disto outro dia aqui. Ah sim, é importante você também ler este texto, mais técnico.

A discussão, para mim, não é só de filosofia e ética. Sem dados, não serve. Não serve para a Academia e nem para nós, o povo.

Dólares japoneses?

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Sempre achei curiosa esta coisa do governo militar japonês usar dólares em países ocupados na Ásia. Entendo a lógica de conquistar usando uma moeda própria, mas por que dólares e não Yens?

Imagino que, em princípio, usar denominações como “dólares” seria familiar aos nativos dos países conquistados, mas como não havia – creio – uma paridade no valor do “dólar” japonês e o dólar dos EUA, não dá nem para dizer que seria uma forma de terceirizar a política monetária das colônias, embora mantendo-as politicamente sob seu domínio.

Engraçado é que, na China e nos países mais próximos, a moeda era o Yen (veja aqui). Como a tecnologia de transporte de moedas na época não incluia nada como uma tranferências eletrônica, será que a opção era por buscar algum tipo de zona monetária com várias moedas?

Não pesquisei mais sobre o assunto porque não é minha área primordial de interesse, mas se alguém souber algo e quiser me explicar, sou todo ouvidos aqui nos comentários.

p.s. um pouco mais sobre esta história está aqui.

Sobre usar os modelos…

Quando eu e o Pedro começamos o Nepom, a idéia era aplicar o que se aprende em sala na análise do mundo real. Nada mais natural, já que a Ciência Econômica não foi criada para analisar mundos não-reais, certo?

Existem excelentes livros-textos, com exemplos, que bons alunos sabem usar como ferramenta de apoio para seu aprendizado. De vez em quando eu cito um ou outro aqui. Mesmo assim, achamos que era uma boa idéia criar o Nepom.

Hoje leio um texto curtinho, de blog, do Bryan Caplan, um cara que acompanho há mais de dez anos, e que está muito bom. Um ponto que me chamou a atenção do texto é que muitas vezes o aluno acha que não precisa fazer nada mais do que “invocar” um modelo no início de sua resposta. Por exemplo, você fala de um aspecto econômico qualquer da realidade (digamos, a inflação na década dos 80, no Brasil) e pede que o aluno use um modelo para explicar. Aí ele vem com um singelo: “assuma modelo X” e despeja uma análise que tem tudo a ver com o modelo X, mas não necessariamente é uma explicação compatível com o fenômeno analisado.

Um trecho do texto dele:

I don’t mean something lame like, “Some econ students disagree with me.  How dare they?”  What I mean is: I ask a question about the real world.  The question even contains the phrase, “In the real world…”  Then instead of discussing the real world, many economics students tell me about a model they learned in class.  Sometimes their answers even contain the phrase, “Assume model X.”

For example, an exam question might ask, “What determines the price of water when two individuals bump into each other in a remote desert?”  Many economics students will then start talking about supply and demand, or even state, “Assume perfect competition.  Then blah blah blah.”

This wouldn’t be so bad if the students would at least argue that, contrary to appearances, the perfectly competitive model applies.  But when students take a model for granted despite the violation of its core assumptions – such as no individual has any noticeable effect on the market price – something has gone terribly wrong.

Percebe o ponto? A grande habilidade a ser apre(e)ndida pelo estudante é a capacidade de analisar a realidade. Há duas grandes dificuldades: (a) qual teoria se adequa ao cenário proposto e (b) qual o papel dos dados nesta história?

Dois problemas sim porque, embora a covariância entre eles não seja nula – sei que não simplifica, mas… – estes dois problemas são uma senhora dificuldade. Por exemplo, eu poderia criar uma questão com algumas correlações entre cinco ou seis variáveis macroeconômicas, digamos, e perguntar ao aluno qual modelo econômico explicaria melhor aqueles dados (uma questão do tipo “modelos de ciclos reais explicando dados da realidade”).

Ou eu poderia fazer como o Caplan fez, criando uma situação que claramente não inclui a competição perfeita ou um monopólio como boa descrição da realidade e peço para o aluno responder, sem fornecer qualquer dado.

Mais ainda, poderíamos fazer aquela clássica questão de prova no qual uma firma é monopolista no mercado doméstico, mas uma pequena concorrente no mercado internacional e você introduz o índice de Lerner para ajudá-lo a responder a pergunta (na verdade, o índice faz parte da resposta porque o ponto é que o aluno tem que ter a capacidade (tico-e-teco) de perceber que o custo marginal da firma, neste caso, é o preço que ela pratica no mercado internacional).

Agora, como Caplan diz, corretamente, alunos enlouquecem quando a questão não é igual ao exercício para dummies. Digo, os exercícios para dummies são, para o ensino, algo como o alongamento para a hora de exercícios na academia. O aluno deveria fazer e perceber sua importância primordial, mas não suficiente. Claro que tem que fazer exercício simples, mas o desafio do aprendizado está em saber manipular os modelos.

Obviamente, o problema é de oferta e demanda. A faculdade é pública ou privada? Quais incentivos cada uma dela tem para ofertar um aprendizado mais sofisticado, de mais conteúdo (valor adicionado) ao aluno? Quais os incentivos que regem as ações dos professores? E a direção? Mais ainda: e os alunos? Eles dizem que querem aprender, mas só querem mesmo o diploma. Será mesmo? E a sinalização? Eles poderiam usar como sinal de sua produtividade, no mercado, sua capacidade analítica. Será que querem mesmo? Qual é o mercado relevante (algo como: ele quer trabalhar no interior do interior do interior…ou no mercado financeiro) para esta decisão?

Não é fácil, não é?

Quando o viés é racional

Randall Calvert tem um artigo interessante de 1985 sobre o valor da informação viesada. Sua pergunta é: digamos que um político esteja em busca de informação para tomar sua decisão, digamos, entre dois cursos de ação.

Digamos que a informação é custosa e que os consultores a que ele recorre são honestos. Um deles é viesado em relação a uma opção e o outro não (embora, novamente, ambos sejam honestos).

A questão, então, é assim: caso a informação não seja gratuita (como eu disse antes: ela é custosa), qual consultor o político deveria seguir? O modelo, resumido no clássico livro-texto de teoria dos jogos para Ciência Política do Morrow (cap.6) nos diz que, racionalmente, vale a pena para o político seguir o consultor viesado.

Sem entrar em detalhes, o legal disto é que a escolha pelo consultor viesado é racional. Nada daquele lero-lero de que a racionalidade caiu por terra, blá, blá. Leia o Morrow e o Calvert para se aprofundar. Mas o exemplo anedótico é o do presidente Johnson, na época da Guerra do Vietnã.

Johnson sabia que o senador Fullbright era contra a guerra, o tempo todo. Mas Robert McNamara, que era um defensor radical da guerra, em 1967, mudou de idéia. Por que valia a pena ouvir McNamara? Porque sua mudança de opinião adiciona mais valor à sua decisão do que a continuidade de Fullbright.

Para entender isto para valer, deveríamos ler um pouco sobre o Teorema de Bayes e sua aplicação em teoria dos jogos (olha a fórmula dele aí):

P(ping|\textbf{pong}) = P(ping ) \frac{P(\textbf{pong} |ping)}{P(\textbf{pong})}

A referência é: Morrow, J.D. Game Theory for Political Scientists, Princeton, 1994. Ah sim, o texto do Calvert foi citado aí em cima.

Medianas…a política monetária endogenamente encrencada

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Taí um bom exercício para uma prova de Estatística: dizer o que acontece com a mediana das expectativas ao longo do período analisado.

Não, este não é um bom exercício para a prova, mas para aprender a verificar a utilidade de se usar a mediana, na prática. Por exemplo, não deixa de ser interessante verificar que o mercado não está muito otimista com relação ao IPCA.

Neste momento, parece que o mercado espera uma queda da inflação para 2016 e como a Selic esperada está alta, a leitura poderia ser: “esperamos que Levy terá sucesso e a política monetária não será frouxa, fazendo seu papel de buscar controlar a inflação. Infelizmente, para nós, que esperávamos uma Selic de 11% em 2015, lá em 2014, para diminuir a inflação, o estrago da inflação que o governo anterior nos legou exige uma Selic de 12.5%”.

Não é para comemorar, né?

Nota

Claro, vale a pena pensar um pouco nestes dados. Veja a próxima figura, que ilustra o caso da Selic.

medianas3Percebe-se que, a cada dia, o sujeito pesquisado entra com 14 observações (tanto sobre o próprio mês como, também, para os próximos 13 meses). Na medida em que se aproxima do meio do mês, as observações já passam a considerar o mês seguinte como ponto inicial. Além disso, as expectativas informadas vão sendo deslocadas para frente. Por exemplo, em 30/Jan/2015, elas cobrem o período de Março/2015 a Agosto/2016.

O que o Banco Central faz é coletar expectativas de vários agentes financeiros (uma amostra) e cada célula desta planilha, na verdade, é a mediana destas observações (você tem a opção de obter a média, o desvio-padrão e mais algumas outras estatísticas, eu pedi a mediana).

Para mais séries no Banco Central, comece aqui.