Efeito Mozart: não existe, mas persiste (irracionalidade…racional?). Pelo menos você vai melhorar no Origami!

Por que a gestante não ouve sertanejo?

Todo mundo tem um amigo que já disse ter ouvido falar que mulheres grávidas deveriam ouvir música clássica para aumentar a inteligência dos futuros bebês. Certo? Pois é. Como não poderia deixar de ser, este é um assunto diretamente ligado à Econometria.

Em seu ótimo livro-texto – Introduction to Econometrics, 3rd ed, 2012 – Stock & Watson comentam sobre este resultado. Crianças submetidas às sessões de música clássica teriam QI aumentado e, portanto, melhor desempenho em testes nas escolas.

O ponto é que o efeito não existe. Como dizem, podem haver variáveis omitidas nesta história como a habilidade inata da criança ou a qualidade da escola.

Acho mais engraçado ainda porque não sei de onde veio esta história de ouvir Mozart. Por exemplo, uma grávida chinesa, ouvindo uma ópera chinesa, também teria, supostamente, o mesmo efeito? Por que esta preferência por música clássica ocidental?

Mas por que persiste o mito do efeito Mozart?

Já outros autores fazem perguntas diferentes. Por exemplo, dado que sabemos que o suposto efeito não existe, por que a “lenda urbana” persiste? Para Heath & Bangerter (citados aqui), a prevalência do mito tem a ver com a qualidade da educação nos estados.

To test their hypothesis that the legend of the Mozart Effect grew in response to anxiety about children’s education, Heath and Bangerter compared different U.S. states’ levels of media interest in the Mozart Effect with each state’s educational problems (as measured by test scores and teacher salaries). Sure enough, they found that in states with the most problematic educational systems (such as Georgia and Florida), newspapers gave the most coverage to the Mozart Effect.

Pode até ser que o teste deles também tenha problemas, mas a pergunta é interessante.

Usando a Teoria Econômica!

Talvez possamos recorrer à irracionalidade racional de Caplan, já citada aqui. Não é tão custoso acreditar no mito do efeito Mozart porque a média da população não é muito afeita à leitura e discussão de artigos científicos (suponho, inclusive, que isto seja pior no Brasil do que nos EUA, ou seja, o efeito deve ser o mesmo, mas a magnitude deve ser maior aqui do que lá). Como acreditar neste mito não diminui muito sua riqueza (ou sua renda permanente, ou ambas), então você pode manter a crença sem muito custo.

Ah sim, Stock & Watson fazem um alerta: aparentemente, verifica-se um efeito positivo de se ouvir música clássica durante a gravidez.

For reasons not fully understood, however, it seems that listening to classical music ‘does’ help temporarily in one narrow area: folding paper and visualizing shapes. So the next time you cram for an origami exam, try to fit in a little Mozart, too. [Stock & Watson (2012) : 225]

Pois é, gente. Para origami, dá certo. ^_^

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Viés de seleção, na prática e a economia política da imprensa

Olha, o melhor exemplo que já vi de viés de seleção foi explicitado neste texto. Não leitor, não é uma explicação estatística. Mas é uma ótima ilustração. Veja, jornalistas de São Paulo, que, suspeito, adorariam ver o país sob os auspícios de uma ditadura, não curtem a ditadura. Como assim?

Simples. Eles se esforçam para condenar apenas um tipo de autoritarismo, mas não outro. Leia o texto e você entenderá. No Brasil há um discurso engraçado de que “instituições funcionam”, “não tem aparelhamento”, ao mesmo tempo em que se diz que “tudo que aí está precisa mudar porque não nos representa”. A mistura destes discursos – nem sempre concatenados logicamente – mostra o quão atrasados somos.

A patota diz defender a liberdade de expressão, mas não quer a publicação de biografias não autorizadas. A mesma patota fala de proibir discurso do ódio (nazista), mas abraça o socialismo. Olha, se é para contar a carnificina, os socialistas ganharam. Diante dos fatos, o sujeito parte para um exercício de dissonância cognitiva e diz que “aquilo lá não era socialismo”. No final, volta ao argumento brucutu, de que, com a porrada dos amigos, vence o debate (ou seria o “embate”?).

Bom, então vamos lá. Eu também sou contra a ditadura. Espero que você sinta a mesma repulsa pelo povo desta foto que sentiu ao ver as fotos publicadas pelos jornais paulistas.

E aí? Contra esta ditadura você também é?

Não sentiu? Ué, então, você pode até não perceber, mas fascista é um adjetivo ótimo para você. Pois é. Viés de seleção. A imprensa selecionou apenas as fotos que lhe agradavam (e também a quem mais?) para publicar a notícia.

Como sair disso? Olha, na minha opinião, quanto mais veículos de comunicação, melhor. A internet livre, não controlada, é a fonte de ótimos contrapontos. O pessoal do Spotniks cumpriu um importante papel em defesa da liberdade de expressão de todos nós. Aliás, eis, para você, economista, um ótimo exemplo de bem público gerado privadamente.

De qualquer forma, eu diria que é hora de reler o The Myth of the Rational Voter do Caplan. Mais alguns textos me vêem à mente. Que tal o Who owns the media? do Shleifer e co-autores? Ou então o The Crumbling Hidden Wall: towards an Economic Theory of Journalism de Fengler e Russ-Moll? Ah é, e a falta de debate sobre o viés da Wikipedia em língua portuguesa? No mundo civilizado, a discussão já começou.

Preciso continuar?

As receitas dos grandes ‘chefs’ são mais saudáveis? Viés de seleção antes da pizza da noite

Vou pedir pizza!

Ué, porque não dá para não morrer de rir com isto. A bem da verdade, o debate é mais sério do que minha piada. A repercussão da mídia:

However, although the researchers and the media have speculated on the effect that this may have, this research does not investigate this question and no conclusions can be drawn. For example, we don’t know if these recipes are cooked and eaten frequently, and we don’t know how the nutritional value of these celebrity chefs’ recipes compares with more humble cooks’ recipes.

It is also important to repeat the fact that celebrity chefs who targeted their recipes at people concerned about weight management or who were on a diet were excluded from the study.

Often, TV chefs’ recipes are designed to be ‘event meals’, with the meal being cooked for a special occasion such as a birthday or dinner party. It is unlikely that someone would use a cookbook to cook all their meals.

Acho que vou ficar com minha alimentação, digamos, adequada às minhas preferências mesmo.

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Bela foto, né?

Validade interna e externa do modelo

Brincadeiras à parte, eis algo para o leitor pensar: existe problema na amostragem? Usando o que vimos em sala de aula (falo, notadamente, com meus alunos de Econometria III – é, temos Econometria III na nossa graduação, mané!), ou seja, o capítulo 9 da última edição do livro de Stock e Watson, acerca da validade interna e externa de modelos econométricos, o que poderíamos dizer sobre este artigo?

Você pode estar pensando: “mas não vi nenhuma regressão lá”. Sim, não viu. Mas nem por isso os autores deixaram de falar do problema. Em uma seção final, em que falam dos problemas do artigo, eles dizem:

To increase the external validity of our findings we used a populist sampling frame to identify both the recipes and the ready meals. However, the nutritional content of recipes varied substantially between individual recipe books (data available from the author), suggesting that a different selection process may have led to different findings. Selecting books that were bestsellers in the run-up to Christmas may have influenced the selection of recipes, and the transient nature of bestseller charts may challenge the representativeness of the sample. The size of the sample prevented subgroup analyses comparing individual chefs or supermarkets.

Viu só? Viés de seleção é um ponto importante! É, e você achou que a aula de Econometria III só falava da relação entre nota de aluno e tamanho da classe, programas de TV que falam de crimes, lei seca ou porte de armas? Não. Nós temos mais assunto para discutir. Basta pesquisar um pouco e ter alguém que fale de títulos engraçados antes do jantar.

A dica do artigo foi da Mayumi Kanashiro, a quem agradeço, mas vou lá fazer uma pizza agora.

UPDATE: o Enoch corrigiu um impagável erro de português no título. Tão óbvio que já corrigi.