Por que sua esposa só se lembra de quando você esquece de comprar pão?

As the psychologist Eliot Hearst explains: ‘In many situations animals and human beings have surprisingly difficulty noticing and using information provided by the absence or nonoccurrence of something…Nonoccurrences of events appear generally less salient, memorable or informative than occurrences’. [Anderson, C. & Sally, D. (2013) The Numbers Game, Penguin Books, 2013, p.126]

Ou seja, seguem os autores (e aqui traduzo livremente): isso faz com que descontemos coisas que não aconteceram e aumentamos a importância de coisas que aconteceram. Você não se esquece de comprar pão em quatro dias, ok, passou batido. Mas experimente se esquecer do pãozinho no quinto dia…

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Mais pessimismo, menor estimativa do produto potencial?

O Peterson Institute for International Economics publicou uma nota curiosa hoje, usando o Brasil como um suposto exemplo de como um “mau humor” do mercado com um período de baixo crescimento poderia viesar as estimativas do produto potencial. Quer dizer, a economista brasileira, Mônica de Bolle, foi a autora do texto.

Bom, sobre este texto, dois pontos.

O primeiro ponto é que a primeira tabela do texto pode não ser suficiente como evidência do ponto da autora de que haveria dissonância cognitiva nas previsões do produto potencial. Como as metodologias não são explicitadas na nota (que, afinal, é apenas uma nota), fico mais com a impressão de que, apesar da diversidade de métodos, o produto potencial estimado é razoavelmente robusto.

Já no segundo exemplo, eu concordo com ela. Ao usar as expectativas do Focus, estamos diante da mesma metodologia e os dados no tempo são comparáveis e pode ser que o que ela observa seja, de fato, um certo mau humor do mercado com o momento ruim da economia em que se situa (e no qual faz a previsão).

O texto dela é baseado em um outro, bem interessante, que está aqui [Ho & Mauro (2014) e, para quem não se lembra, Paolo Mauro é autor de um texto clássico sobre evidências empíricas dos impactos da corrupção na economia…].

Ah sim, lembrei-me da tese do Rafael Cusinatto sobre dados em tempo real, posteriormente transformada em texto para discussão lá no Banco Central do Brasil. Será que a questão dos dados em tempo real que ele levanta no trabalho nos ajudam a entender (ou a complicar) o problema que Ho & Mauro (2014) apontaram e que a Monica de Bolle olhou brevemente na nota do blog do Peterson Institute?

Por que eu pergunto isto? Porque o ponto do Rafael era testar se as revisões de dados gerariam uma diferença grande em relação ao que os agentes já tinham previsto previamente.

Em uma situação assim, em que dados são revisados, agentes racionais poderiam não estar errando (ou sendo pessimistas), pois a revisão dos dados poderia indicar, dentre outras, que, digamos, eles estavam certos (por exemplo: o IBGE errou e, na revisão, o dado da PIM-PF ficou mais próximo da expectativa original). 

Meu exemplo acima é apenas uma das possíveis hipóteses que poderíamos imaginar para o caso das revisões de dados, mas mostra que, se existe algum viés cognitivo, o mesmo deveria, pelo menos, ser testado (via controles) para existência (ou frequência?) de efeitos da revisão dos dados, não?

Eis aqui o gráfico mais legal do texto da Monica.

Conhecimento não é compreensão

Uma dica do Ronald Hillbrecht que mostra que este papo de “eu sei a matéria” não é, mesmo, sinônimo de “eu entendi a matéria”. Não, não você não vai assistir um vídeo chato sobre sala de aula e professores. Prepare-se para entender o que é um viés de conhecimento e também prepare-se, principalmente, para entender porque um jovem que não estuda realmente joga fora uma época importante de sua vida pois será muito mais difícil aprender mais tarde.